Daniel Campos

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22/06/2012 - São 80 anos

São 80 anos de aventura desde que uma portuguesa deu à luz ao filho de um caboclo. São 80 anos de muitos sonhos e grandes paixões. São 80 anos vencendo obstáculos, quebrando demandas, criando um mundo à parte. São 80 anos de valsas e arrasta-pés. São 80 anos transformando terra em comida. São 80 anos de um bom plantio, ponteando sempre em frente feito rio. São 80 anos de assovio. São 80 anos de sangue e seiva. São 80 anos de retalhos e sanfonas povoando sua alma. São 80 anos de vida raiada. São 80 anos encontrando sacis, lobisomens, mulas sem cabeça, boitatás e outras criaturas tão fantásticas quão sua existência.

São 80 anos de uma alegria contagiante. São 80 anos cavalgando, caminhando e voando por essas terras sem fim. São 80 anos de entregas. São 80 anos enxergando o que pouca gente enxerga. São 80 anos de heroísmo e encantamento. São 80 anos criando raízes. São 80 anos segurando as rédeas do tempo, amansando temporal. São 80 anos de romaria. São 80 anos passando por ranchos, tuias, roças e terreiros. São 80 anos de fartura e sacrifícios. São 80 anos de homem-pássaro ou de pássaro-homem. São 80 anos guardando o verde do mundo em seus olhos. São 80 anos de rezas e estrelas. São 80 anos em meio dos frutos do chão.

São 80 anos de modas e cantoria. São 80 anos como guardião da esperança. São 80 anos de lida e boemia. São 80 anos no balanço dos trens, dos moinhos, dos cavalos, das enxadas. São 80 anos no rastro das luas. São 80 anos livres. São 80 anos rompendo porteiras, deixando marcas pelo estradão. São 80 anos de pura germinação. São 80 anos de chuva e poeira. São 80 anos de mato. São 80 anos de vento violeiro. São 80 anos acertando o relógio no canto do galo. São 80 anos de sóis e invernadas. São 80 anos fazendo mudas de coração. São 80 anos aboiando na língua de Deus. São 80 anos vividos no romantismo das flores de São João.

São 80 anos de lavrador, de vaqueiro, de cantor, de cavaleiro e de rei. São 80 anos de boiadeiro, de sonhador, de encantador de bicho e gente. São 80 anos de flor e semente, de mago, de contador de histórias, de senhor da redondeza. São 80 anos de catireiro, de lenda sertaneja, de vagalume, de carreiro, de poeta da natureza. São 80 anos de Liberato de Lima Barbosa, fonte de poesia e prosa caipira. Desses 80 anos, três são de saudade. Partiu antes de cortar o bolo. Esse 22 de junho sem ele neste plano tritura meus sentimentos como monjolo.

Uma homenagem a quem me inspirou a ser o que sou.


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