Daniel Campos
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Linhas

Aqui você encontra todos os textos de Daniel Campos escritos em prosa. São crônicas, contos, artigos, perfis... São textos que mancham a página sob a arquitetura de linhas. Escolha entre a distribuição em ordem alfabética (índice) ou o mecanismo de busca e tenha acesso a um universo de mais de duzentos textos que falam de amor, de política, de gente, de mundo com uma linguagem e um estilo próprios.


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Encontrados 526 textos. Exibindo página 1 de 53.

Caminho de dentro

Dentre tantos caminhos, nasci. E ao contrário de Drummond, não me lembro de nenhum anjo torto, daqueles que vivem nas sombras, vir me dizer alguma coisa. Nasci. Alguns anos de namoro na década de setenta. O casamento e mais algum namoro. Nasci. E era dia dez, como tantos outros dias dez. E era junho como tantos outros junhos. E não era feriado, não era dia santo, sequer era domingo.

Um dia normal, se é que os dias são normais. Ou melhor, era uma tarde normal, como tantas outras do século XX. O sol começava a procurar um esconderijo para que, quente de amor distante, pudesse admirar os fetiches da lua. Perto das cinco da tarde. Nem tão tarde para um desejo de boa-noite nem tão cedo para um desejo de bom-dia. Mas o momento exato para tantos outros desejos. Uma hora estranha com crise de identidade diante do tempo dos relógios....
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I like chopin

Sob o efeito de um meteoro, as árvores ficaram de lado e nem se atreveram, por medo ou vergonha, a jogarem suas sementes na clareira. Medo de um outro terremoto. Vergonha de serem expulsas por um pedaço de pedra. Sementes de conquista. Conquista de espaço e de tempo, sementes que alastravam clones daquelas árvores e sementes que faziam com que aquelas árvores se perpetuassem a cada broto.

Durante séculos ninguém pisou ali. Aliás, ninguém ousou pisar ali. Mas ousadia era uma palavra que não faltava no dicionário daquela que era ousada por natureza. E ela, para deixar as árvores boquiabertas, deitou em sua cama de lençol egípcio e amanheceu deitada naquela relva baixa que cobria aquela clareira amaldiçoada. Quando o sol deu vista aos olhos das árvores, elas não acreditaram. Tem alguém na clareira. Tem alguém na clareira. Tem alguém na clareira. Era essa a frase que ecoava pelas galhas das árvores como se fosse e voltasse pelo fio daquele telefone feito com duas latinhas. Telefone que se brinca quando criança. Mas ali parecia não haver nenhuma criança. E nem havia passado, o tempo era presente....
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Jardins de luxemburgo

Ela caminha como se caminhasse pelos jardins de luxemburgo, numa estrada submersa. Entre a fonte dos meninos de pintinhos de pedra e as árvores de quadris avantajados, ela se oferece às flores daquele jardim. Oferece sua cor, seu néctar, seu perfume e o que restara de sua última primavera. Mas ninguém a quer despetalar. Nem as flores, nem as estátuas, nem os passantes. Ninguém acredita que aquela mulher poderia trazer algumas doses de primavera em pleno outono.

Então, ela passa e aperta o passo e corre e atrás de si as flores vão perdendo a cor, os apaixonados vão se afastando se separando se largando e alargando a distância daquela mulher com aquelas pessoas que não acreditaram em sua primavera. E depois de tanto correr, ela tropeça nos ramos das flores tatuadas em seus pés e cai. Desavergonhado, o sol começa a bobinar por entre a pelagem alva daquela mulher desfalecida. Mulher que tombara como mais uma folha sob os pés de árvores avermelhadas alaranjadas rosadas. ...
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Metamorfose

Ela chega sozinha. Toca a campainha e quando se dá conta de que nem a mãe nem o irmão nem a tia nem a irmã nem a governanta estavam ali, a solidão perde força para outra sensação não menos devassa. A maçaneta dança nos olhares apreensivos da menina ao tempo em que a porta a enclausura em medos desconfortáveis. Os olhos daquele que abrira a porta lhe fazem querer ir embora a qualquer preço. No entanto, sobe em sua garganta uma vontade de ficar com tal intensidade, que desafina as cordas vocais e de sua boca não sai nada além de um miado. Não tem decotes ou fendas, mas sente-se nua diante daqueles olhos engessados em seu corpo....
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Vou passar

Vou passar. Vou passar pelas cinzas de uma quarta-feira que ficou. A bagunça não acabou, o bloco dos políticos está na rua. Vou contra esse bloco, na solidão de um samba. Vou passar no sentido contrário desse imenso carnaval político que nunca acaba.

Vou passar pelos políticos que não tiram as máscaras (até outubro será cada vez mais maquiagem). Vou passar pelas eternas promessas. Vou passar pelas fantasias jogadas num canto e ver a miséria pintada no rosto dos foliões. Vou passar pelos coronéis. Vou passar pelas madames. Vou passar pelos que fazem política em benefício, unicamente, próprio. Vou passar pelas letras dos analfabetos. Vou passar pelas ruínas de uma cidade. Vou passar pelos palanques da mentira. Vou passar pelos sem-vergonha e sem-caráter. Vou passar. ...
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Receita de um cruzar de pernas

De repente, as cores da saia quebram as fronteiras com as cores da pele. As sombras e as faltas de sombra, num corpo de baile. Cenas de um movimento, de um contentamento, de um lamento se espalham. E há todo um jeito especial de se dar o encontro. Dependendo da intensidade desse encontro, eis o vento. O vento surgindo. O vento sumindo. O vento indo e me vindo.

Vidas cruzadas. Órbitas cruzadas. Taças cruzadas. Notas cruzadas. Cartas cruzadas. Insinuações cruzadas. Juras cruzadas. Chamas cruzadas. Retas cruzadas. Nuvens cruzadas. Pernas tombadas, debruçadas, trançadas,..., cruzadas sobre si próprias. ...
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Registro civil

- Em que posso ajudar?

- Eu queria registrar meu filho.

- Você é o pai?

- Sou sim senhor?

- Parabéns, mas não me parece muito contente.

- É... Eu tenho dó dele.

- Desculpe-me, mas ele tem algum problema, não é sadio?

- Tem não seu moço. É um menino forte, encorpado, lindo.

- Então?

- Eu tenho pena é do futuro dele. Agora que ele tá mamando tá tudo bem, mas daqui um tempo a mué fica sem leite e ele já vai começar a chorá de fome. Sabe, eu tenho um empreguinho, mas é coisa pouca, depois com o tempo, já vai precisá de remédio, médico, brinquedo, roupa e essas coisas todas. Depois não sei se ele vai conseguir estudo, se vai arranjá emprego, se vai tê onde morar, se vai tê dinheiro para sustentá seu filho......
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Mais severinos

Joelhos ao chão. Olhos febris buscando algo além do entardecer azulado. Mãos se separando, deixando escorrer a terra vermelha. Não era uma prece pedindo chuva ou uma boa colheita, tampouco um ato de agradecimento. Era apenas um homem, de pele queimada pelo sol e de chapéu de palha, perdido na sua paisagem, despedindo-se da própria vida.

A porteira do sítio que se fechara em sonhos foi obrigada a se abrir ao progresso. Os cães ressoando no terreiro, as galinhas cantando nos ninhos, os gatos dependurados na carreta, a vaca leiteira mugindo ao fundo, o homem velando toda aquela pasmaceira, todos permaneciam incrédulos. As árvores, o arado, a túia, o poço... Tudo daria lugar ao progresso com seus caminhões, seus concretos, suas indústrias, seus aviões, sua desordem, seus homens feitos de máquina. Como aceitar outros braços cuidando daquele lugar, a traição cega, o estupro da terra. ...
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A maestrina das tardes

Enquanto as tardes londrinas são marcadas pelo tradicional chá das cinco, as brasileiras são saboreadas com doses diárias de Leda Nagle. E o melhor de tudo é que do lado de cá do Atlântico Sul não há aquele formalismo, aquela frieza, aquela monotonia britânica. O nome desse encontro vespertino já diz que não existe limite para voar ou mergulhar. Sem censura, os dedos de prosa rolam à vontade. Sob a regência de Leda - a maestrina das tardes - surgem típicas rodas de conversa. Em um momento, estamos em frente à televisão, em outro, em rodas de conversa na sala de visita, ao redor do fogão à lenha, na calçada em frente ao portão, no meio da Praça da Matriz, na esquina... Aquele bate-papo tem um quê de ebulição de metrópole e outro de trenzinho caipira que vai passando, vagão a vagão, pelas janelas das nossas retinas. ...
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Ao cair da tarde

Ao cair da tarde, tento conversar com as rosas de Cartola. Mas elas me dizem silêncio. Ao cair da tarde, coloco um verso de Vinícius num copo ao lado de duas pedras de gelo. Ao cair da tarde, o mundo se transforma em uma grande Ipanema. Ao cair da tarde, arde o tom de um piano imaginário. Ao cair da tarde, o sol ainda suspira. Ao cair da tarde, vem uma tristeza, uma saudade, como se o mundo pedisse maysa. Ao cair da tarde, as folhas de uma mangueira caem secas. Ao cair da tarde, a lua se tranca no camarim e finge ser estrela. Ao cair da tarde, os poetas ainda estão grávidos de sonhos. E vêm as dores das primeiras contrações. ...
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