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Encontrados 21 textos. Exibindo página 1 de 3.
06/08/2008 -
Made in China
As Olimpíadas nem começaram e o assunto da moda é Pequim. Pelos quatro cantos da nossa pátria tupiniquim, só se fala na China. Mais uma vez a televisão mostra o seu poder de influenciar a agenda nacional a ponto de promover uma drenagem cerebral em nossas cabeças. Tudo gira em torno dos prédios da China, dos estádios da China, do trânsito da China, do alfabeto da China, dos jardins da China, dos dragões da China, da religião da China, da música da China, da comida da China... Sem pedir licença, pegam nossos olhos e os voltam para o planeta mais populoso do mundo....
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26/04/2008 -
Mais sal na minha salada de mamona, por favor!
Os antigos falavam que chegaria uma época em que se teria dinheiro, mas não o que comer. Pelo visto estamos a cada dia mais perto de cumprir essa profecia. Os preços dos alimentos dispararam. Aqui em Brasília, terra da carestia, eu já pago cinqüenta centavos por um pão francês. E os jornais dizem que o preço vai subir mais e mais e mais... E o absurdo não pára por ai. O quilo do feijão beira os dez reais e o do contrafilé ultrapassa os quinze. E o próximo vilão do nosso bolso já foi definido: será o arroz. Definitivamente, assim como fizeram os dinossauros, nós estamos caminhando para a extinção. ...
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Mais severinos
Joelhos ao chão. Olhos febris buscando algo além do entardecer azulado. Mãos se separando, deixando escorrer a terra vermelha. Não era uma prece pedindo chuva ou uma boa colheita, tampouco um ato de agradecimento. Era apenas um homem, de pele queimada pelo sol e de chapéu de palha, perdido na sua paisagem, despedindo-se da própria vida.
A porteira do sítio que se fechara em sonhos foi obrigada a se abrir ao progresso. Os cães ressoando no terreiro, as galinhas cantando nos ninhos, os gatos dependurados na carreta, a vaca leiteira mugindo ao fundo, o homem velando toda aquela pasmaceira, todos permaneciam incrédulos. As árvores, o arado, a túia, o poço... Tudo daria lugar ao progresso com seus caminhões, seus concretos, suas indústrias, seus aviões, sua desordem, seus homens feitos de máquina. Como aceitar outros braços cuidando daquele lugar, a traição cega, o estupro da terra. ...
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Mais uma do mogicano
Cabrum! Últimas previsões do mogicano. Urgente, urgentíssimo! Mojimirim em perigo! Alô Greenpeace! Poluição em cima de poluição. Mas estamos em boas mãos, o prefeito é médico sanitarista e o vice é do partido verde. Sai de baixo! Se a administração política conseguisse fazer tudo o que fala, seria conhecida como a administração do impacto ambiental. Sorte que ela não consegue. Deus existe e dá plantão em Mojimirim. ELE tem que trabalhar dobrado para que uma parte do povo não caia na conversa fiada de certos políticos. Olho vivo e faro fino, povo mogicano....
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13/09/2008 -
Manteiga caseira
Cá estou eu a esperar o meu pai. Já faz uns quinze anos que ele saiu para comprar uma daquelas manteigas batidas no tacho. Será que ele demora? Será que ele ainda vem? A vista se perde longe e não o encontro pelo caminho. Ah! Bem que ele poderia voltar logo lá da feira do mercado. Uma feira improvisada, de bancas de lonas coloridas, instalada no centro velho da cidade. Na verdade, a feira de fim-de-semana era uma extensão do Mercado Municipal. Já na entrada, que se dava pela rua Marciliano, um grande movimento de senhoras com sacolas e senhores com chinela nos pés dava as boas vindas. ...
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Mãos
Um exército de mãos marcha. Diariamente, invade as quadras, as calçadas, as praças de pedra e de flor. A cidade é tomada por outra cidade. Uma cidade que não é feita de placas de concreto ou vergalhos de ferro ou baldes de piche... Uma cidade que é feita de mãos. Algumas mãos surgem delicadamente, outras como tapas na cara. Algumas mãos machucam, por ódio ou pena. Mãos com anéis. Mãos com feridas. Mãos brancas. Mãos negras. Mãos sujas. Mãos acostumadas. Mãos pequeninas. Mãos com unhas esmaltadas. Mãos calejadas. Mãos com linhas que dizem a mesma coisa: fome, miséria, violência, medo....
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Mar de sândalo
Como um mar, ela crescia, decrescia e crescia novamente por onde passava. Em certos dias, ela passava num mar revolto. Noutros, mar manso. Mas sempre crescendo, decrescendo e voltando a crescer. Era marcada pelo movimento. E não era dançarina, atleta ou coisa e tal. Era uma mulher sem endereço fixo, sem telefone fixo, sem identidade fixa. Mares não são fixos.
Mares têm nome, mas dia estão aqui, dias estão ali e outros acolá. E ela era sim e não. Cheia ou alta, como uma maré que obedece ao calendário lunar, ela emergia e submergia em sua própria inconstância. Entre o seu crescer, decrescer e tornar a crescer, o tempo passava em um intervalo que ia de míseros segundos a semanas, meses, anos inteiros. E nesse momento, pranchas surfavam pelo seu corpo. Um corpo que não era de sol nem de algum bronzeado barato. Era um bronzeado de areia. Ao invés dos poros, seu tecido parecia formado por grãos de uma areia macia. Por isso, a sensação de que a qualquer momento ela poderia voar nos braços de uma tempestade de deserto. E vivia esperando por uma arrevoada de vento. ...
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10/05/2008 -
Mendigos, doutores e Nerudas
Dormia no concreto barulhento dos viadutos, no ladrilho da estação do metrô, nas pedras da calçada que se espalham em feitio de ondas pelo caminho sem destino. Ele se chama doutor Raul de Medeiros Pontes de Alcântara Machado. Doutor? Medeiros Pontes de Alcântara Machado? Os boquiabertos que me desculpem, mas Raul é um dos quase dois por cento de brasileiros que se sentaram nos bancos de um curso superior e acabaram nos bancos da praça.
Foi parar na rua em razão de uma desilusão amorosa. A mulher que tanto amava foi embora sem dizer nada. Quando ele chegou em casa, depois de um dia exaustivo de trabalho no consultório médico, não viu mais as roupas, os perfumes, as jóias dela. Havia partido para sempre. Fez alguns telefonemas, inclusive para a polícia, mas nada. Havia sumido sem deixar rastros. Doutor Raul bebeu garrafas de uísque com pedras de gelo feitas de seu próprio choro. No outro dia, já não foi trabalhar. No outro dia, já não sabia o que fazer. No outro dia, decretou a própria morte....
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Menina de ipanema
Os óculos de sol pairados sobre o cabelo davam o tom de informalidade não só a quem os usasse, mas à paisagem como um todo. Havia mais guarda-sóis do que sol naquela falta de praia. Mesmo assim, os óculos de lentes arredondadas continuavam lá. Quem sabe escondessem olhos tão negros quanto eles ou um tom de oceano. Oceano que não havia ali. E se fosse negro, talvez cometas passassem por ali. E se oceano, ondas dariam outro ritmo àquela tarde recém-nascida.
Um ritmo que quando viesse nos afogaria e quando fosse embora, nos arrastaria. Bailaríamos feito netuno e iemanjá. No entanto, quando tudo parecia indicar moda praia, seus pés pisavam em sandálias de salto fino. Embora o verão acalorasse as cores, óculos, cabelos e sandálias pintavam-se de preto. Daquele jeito, ela não cairia na piscina nem debruçaria seu pouco decote na churrasqueira. Não falava, não jogava, não beijava, não dançava, não desmaiava. Embora nem por um segundo que fosse estava sozinha. ...
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Mesmo fora de moda, bom-dia
Hoje, o dia nasceu sem dizer uma só palavra. Não sabia se redondo, quadrado ou triangular, porém o sol começava a surgir por entre nuvens desbotadas. O cheiro de pão sovado, o cheiro de café escapulindo do bule, o cheiro frio do orvalho... Aromas que iam como vinham, sem avisos, no de repente de costume.
O homem, deitado na sarjeta, que até ontem era um bêbado, hoje não se sabe o que é. Acorda sem espelho por perto e se vai sem sequer ver o rosto que o novo dia havia lhe doado. Vergonha ou, descrença ou qualquer outra coisa que o faça abaixar a cabeça e continuar andando em busca de um rosto ou de um copo de cachaça. ...
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