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Encontrados 58 textos. Exibindo página 1 de 6.
18/09/2008 -
À beira da jabuticabeira
No fim de um caminho de pedras arrebitadas, por entre um pé de primavera e espadas de São Jorge, eis uma jabuticabeira. No correr de suas galhas, um único exemplar da negra fruta. Minhas mãos pedem licença ao dono das frutas, que não estava por ali, e apanham a jabuticaba. Tão logo a possuo, minha boca se transforma em um engenho, tirando todo o doce daquela espécie de açúcar do desejo. Os olhos procuram, reviram, vasculham e nada de encontrar outras bolinhas-de-gude penduradas naquela árvore de traços infantis. Só havia aquela que já percorria os sulcos de meu corpo provocando divinas reações químicas, físicas, psíquicas. ...
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A capital do átimo ou o átimo da capital
Num átimo, os alísios desviam as naus com 1.500 descobridores comandados por Cabral. Num átimo, línguas portuguesas e tupis se misturam num mesmo beijo. Num átimo, a Ilha de Vera Cruz se veste de Terra de Santa Cruz que se tranveste de Brasil numa quadrilha à moda de Drummond. Num átimo, JK se sente desafiado a erguer a capital federal em pleno cerrado. Num átimo, Niemayer rabisca Brasília. Num átimo, a capital ganha as asas de um Lucio sem acento. Num átimo, os fabianos, sinhás vitórias e baleias de Graciliano Ramos se encontram com os severinos de João Cabral. Num átimo, suor e esperança na mesma argamassa da Esplanada. Num átimo, o concreto se alastra. Num átimo, malandros de contrato, gravata e capital, que nunca se dão mal. Num átimo, os poetas simétricos não rimam árvores tortas com praças de pedra. Num átimo, as flores do cerrado são colhidas nos camelôs da Catedral, onde, num átimo, encena-se um balé de anjos suspensos e propensos a milagres. Num átimo, o general Costa e Silva revira pelo avesso as bacias mais democráticas do país. Num átimo, o irmão do Henfil parte num rabo de foguete. Num átimo, gregos e troianos deixam-se levar pelo romantismo brega chick das fontes da Torre. Num átimo, estrelas salpicam e incitam e suscitam olhos candangos. Num átimo, o lago Paranoá vira praia, mar, oceano e se deixa povoar por biquinis, varinhas de bambu, jet sky, velas e barcos de néon. Num átimo, turistas se perdem no labirinto das tesourinhas. Num átimo, centenas de pessoas invadem seis pistas de piche, com tênis, cachorros, bicicletas, patins, velotróis e celebram o domingo. Num átimo, sol e lua flertam-se, olhos nos olhos, no céu esgarçado de Brasília. Num átimo, saboreia-se o churrasquinho de gato ou o frango esfumaçado das entrequadras. Num átimo, Dom Bosco é uma profecia, uma visão, um santuário. Num átimo, os fossos dos palácios se transformam em espelhos d?água. Num átimo, a torre Eiffel se transforma na Torre de TV. Num átimo, os jardins suspensos da Babilônia ganham à assinatura de Burle Marx. Num átimo, as pirâmides do Antigo Egito se transformam num templo ecumênico. Num átimo, Garrincha vira um estádio de arquibancadas tortas. Num átimo, a Catedral se transforma num feixe de trigo. Num átimo, o Paraguai cabe numa feira. Num átimo, três arcos olímpicos abraçam a terceira ponte. Num átimo, para se chegar a Villa-Lobos é só descer as escadas do Teatro Nacional. Num átimo, a Praça dos Três Poderes ganha a simbologia e a hemorragia das pombas. Num átimo, zebrinhas vermelhas cortam a cidade. Num átimo, o vocabulário ganha verbetes cartesianos: SQS 400, QL 2, CLN 115, SCS, SDN, SHLN, MI 3, SRTVS, SIA. Num átimo, Brasília se torna fria lírica úmida distante de uma forma tão atimica. Num átimo, crianças brincam debaixo do bloco. Num átimo, amoras, mangas, acerolas, goiabas e tamarindos perfumam as quadras. Num átimo, o amarelo e o roxo dos ipês roubam à cena do branco de Niemayer. Num átimo, comemora-se a primeira chuva de setembro. Num átimo, invasões de luxo e de miséria. Num átimo, a estrutura do pós-modernismo se quebra nas quebras da Estrutural. Num átimo, Glauber Rocha, Pedro Almodóvar e Frederico Fellini caminham pela Academia de Tênis. Num átimo, foliões colecionam bocas na micarecandanga. Num átimo, a W3 se transforma em L2 num grande circular. Num átimo, corpos submergem e imergem em piscinas de água mineral. Num átimo, nasce uma lei e um fora-da-lei. Num átimo, o vermelho do pau-brasil mancha o chão do Areal e as curvas do Blue Tree Alvorada. Num átimo, Ceilândia e Cinelândia se confundem. Num átimo, cidades deixam de ser satélites para serem planetas. Num átimo, alguém ama e mata em um setor, seja comercial, bancário, de hotéis, de mansões, de autarquias, de diversões ou de indústrias gráficas. Num átimo, come-se tapioca, pastel, pato no tacupi, vatapá, bombom de cupuaçu e algodão-doce na mesma feira. Num átimo, o Brasil passa a ser a capital de Brasília. Num átimo, a solidão nos cerca. Num átimo, a equação distância/ tempo se materializa e tem-se a impressão de que os alísios do Paranoá trarão a esquadra de um novo Cabral. Num átimo, novos descobridores da capital do átimo ou do átimo da capital....
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22/06/2008 -
A cinderela e o bêbado fulano de tal
São três horas da manhã. A cidade dorme. E pelas ruas, um bêbado fulano de tal caminha com uma sandália nas mãos à procura de sua cinderela. Ó noite fria! Ó busca bela! Como soluços compassados, os carros passam com faróis atordoando os olhos já atordoados do bêbado que tropeça sem chapéu e sem bengala por linhas que a cigana charlatã não dá conta de ler. Não, não era Chaplin ou qualquer outro personagem famoso de cinema ou teatro. Era um astro das calçadas, mas não passava de um anônimo fulano de tal com a promessa de um romance nas mãos....
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08/06/2008 -
A extinção das cartas
Estou a ler um livro de cartas enviadas e recebidas por Vinícius de Moraes, organizado por Ruy Castro. Cartas escritas para a família, para os amigos, para as mulheres amadas. O livro foi um presente de meu pai. Trouxe-o comigo do nosso último encontro há quase um mês e, por diversas vezes, já o visitei. Debruçado sobre este livro, descobri que o mundo perdeu muito com o advento do telefone, da internet e de outros meios de comunicação do chamado tempo moderno. Não vou citar números, para não deixar o texto um daqueles relatórios chatos, mas as cartas foram praticamente extintas de nosso cotidiano. ...
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17/08/2008 -
A extinção do brasileiro vencedor
Brasileiro só aceita título se for de campeão, e eu sou brasileiro! Embora eu pense exatamente assim, essa frase não é minha, mas do tricampeão mundial de Fórmula-1, Ayrton Senna. No entanto, essa frase perdeu o sentido ou, melhor, a prática. Nas Olimpíadas de Pequim os atletas tupiniquins estão felizes da vida com seus excelentes maus resultados. O que tem de verde-amarelo radiante por estar entre os últimos não é brincadeira. Será que Freud explica o contentamento de estar abaixo da expectativa? ...
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04/08/2008 -
A geração do caos
Seja em casa, no trabalho, nas ruas, o mundo está cada dia mais sem educação. E qual a causa dessa explosão de modos condenáveis? Embora possa parecer loucura, a verdade é que o respeito perdeu em muito com a explosão de direitos. A própria base familiar foi destruída. Hoje, pai e mãe têm que obedecer aos próprios filhos, sob risco de morte. Filho pode tudo. A todo instante, leis e regras podam o poder de educação dos pais. Os jovens aprendem de forma muito mais fácil o caminho da delegacia do que o da escola. Afinal, é mais fácil protestar em favor da liberdade que o mundo lhe confere do que aceitar uma suposta disciplina. ...
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09/09/2008 -
A guerra é genética
A palavra paz cai muito bem em livros históricos e religiosos. Porém, quando o assunto é vida real ela se torna abstrata como uma montanha de sorvete de passas ao rum no meio do deserto do Saara. Aqui e lá, ali e acolá, a espécie homo sapiens está sempre inventando um jeito de desestruturar o já tão desestruturado estado de paz vigente no mundo. Seja nos relacionamentos de casal ou, de família ou, de vizinhos ou, de estados ou de países há sempre uma pré-intenção de briga. Ao contrário do barro, somos feito de pólvora e adoramos riscar um fósforo no pavio alheio. ...
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A humanidade precisa ser humana
Filhos matam os pais motivados por paixões adolescentes. Crianças brincam de mocinho e bandido lado a lado com traficantes. Negros ainda são vistos sob os olhos do preconceito. Casebres se equilibram nos morros. Mulheres continuam vítimas de um país machista. Mãos se espalham e até competem nas calçadas em busca da sobrevivência. Infelizmente, essas não são cenas vistas apenas nas telas do cinema.
Enquanto os primeiros artigos da Constituição Brasileira de 1988 defendem a igualdade de direitos para os cidadãos e o exercício da liberdade, a realidade se manifesta de outra forma. A fome e a violência são duas provas de que os sonhos dos discursos se perdem numa vida sem maquiagem. Terras a se perder de vista e uma multidão de famintos. As pessoas que brincam juntas no carnaval são as mesmas que se matam na próxima esquina. Frente ao enorme contraste social, a vida dos discursos é esquecida. ...
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07/07/2008 -
A ilusão do carro na tomada
O TwinDrive Golf, carro elétrico apresentado pela Volksvagem, em Berlim, virou rapidamente manchete nos principais jornais do mundo. Pudera, vivemos o pavor do fim do mundo de modo que qualquer novidade positiva parece reacender a luz no final do túnel. No entanto, carros elétricos não são, propriamente, novidades. O primeiro carro elétrico foi construído em 1837. O que fez essa idéia não vingar durante esse tempo todo ainda é mistério. Mas pode ter certeza de que passa pelo forte lobby em torno do petróleo. ...
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A lenda do sabiá
Sabiá cantou lá na beira do rio. Passou água, passou flor, passou tábua de pescador... E o sorriso na boca do peixe namorador a correnteza levou. Levou pro lado de lá do mar de maré cheia. Ôo Oxumaré... Alumeia ô alumeia.
Sabiá cantou lá na beira do rio. Passou barquinho de papel, passou ingá, passou carinho de Iemanjá... E a estrela caída do céu a correnteza levou. Levou pra terra dos botos, dos brotos e das sereias. Eê rainha do mar... Entonteia.
Sabiá cantou lá na beira do rio. Passou chuva de corrupio, passou vento de assobio... E quando menina marilene chegou, uma sirene ordenou e a correnteza parou. Chegou com cabelo dourado e olhos alaranjados que até o velho sabiá, gaguejou: Eê Oxum... Vê se me ajuda a voar....
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