Daniel Campos
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Encontrados 7 textos. Exibindo página 1 de 1.

Gafanhotos

As palmas infestam o ambiente como uma epidemia de gafanhotos. As mãos se tornam asas verdes e se batem e se debatem. Não, ela não está no palco de um teatro, na frente de uma sala de aula, na apresentação de um balé. Está em sua casa, diante de um bolo com uma vela acesa.

Aquelas palmas, mais do que aplausos, eram a marcação de uma música que esbofeteava seu rosto. Os algarismos da vela indicavam vinte anos. Muitos diziam 15 e 18 como datas fundamentais, mas nenhuma data lhe doera mais do que os 20 de agora. Legalmente, era o último ano de sua dependência. Mas ela era dependente demais. Seus pais eram como se fossem suas drogas. Encontrava o êxtase nos olhos do pai e a cocaína no colo da mãe. Dependia deles para tudo....
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Garça que se esgarça

Na janela, espreguiça com ares de garça. Podia ter vontade de espreguiçar na cama, mas antes de consumir essa vontade, espreguiçava-se na janela. Uma varanda pequena, do 2º piso. Uma varanda minúscula. No máximo, dois metros quadrados que, na verdade, eram dois metros retangulares. Mal dava para caber seu corpo se ali deitasse. Era só para poder dizer que tinha varanda. Fez questão daquele apartamento, que nem era o melhor localizado e o com o melhor preço, mas era o que tinha a varanda perfeita para seus desejos. ...
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07/05/2008 - Gatos, gatos e mais gatos

Depois de ler a notícia de que 300 gatos mortos foram encontrados em três geladeiras quando a polícia revistou a casa de um homem no norte da Califórnia (EUA), lembrei-me da mulher de Tio Antero que também criava centenas de gatos. Tio Antero, na verdade, era tio do meu avô materno. Morreu há uns três anos, mas não foi em razão de seus inúmeros cigarros de palha. Tio Antero era uma figura curiosa, só andava de branco. Calça branca, camisa branca, chapéu branco. Mesmo no final dos 80 anos conservava um charme colonial....
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Gaveta sem fundo

Muitas vezes, ela abria a gaveta e me tirava dali. Como se ela fosse palavra e eu um papel em branco. E, pouco a pouco, ela se debruçava sobre mim. E ia me tingindo me manchando me marcando. De repente, ela se separava do meu corpo suado de tremores e pavores e me convidava para dançar.

Era como se ela convidasse a si própria para uma contradança. A cada vez, ela me impregnava mais com palavras suas. E dançava por alguns passos, mas antes da música acabar, ela se despedia. E eu entrava em uma espécie de gaveta sem fundo. Eu caia, caia, caia... Até que, tempos depois, acordava. E sempre despertava assustado com a impressão de acordar cada vez mais tarde. A cada novo despertar, meu sorriso era mais leve. E a cada novo descerrar, meus olhares guardavam mais surpresas.


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Globalização: cooperação ou privatização?

Teoricamente, globalização implica na queda de fronteiras (econômica/ política/ social) existentes pelo mundo. Num primeiro momento pode-se pensar num povo sem fome, sem guerra, com sorrisos estampados nos lábios em vista de um enorme pacto social de cooperação. Entretanto, a globalização se vende como uma proposta de paraíso perdido e age violentamente como uma nova colonização.

Quem controla a globalização são os países desenvolvidos. Eles, os donos da "cultura dominante", impõe as suas vontades ao resto do planeta. É como se o mundo fosse ditado pelas mãos de meia dúzia de ditadores. O exemplo concreto é o discurso que envolve a ALCA (Associação de Livre Comércio das Américas). Fala-se de união, mas nas entrelinhas do discurso de Bush esconde-se uma Cuba que ficará de fora da associação e um protecionismo voltado para os produtos americanos. Irão vender milhões de litros de Coca-Cola, de lanches do Mc?Donalds, de carros da Ford ao longo do continente americano, mas continuarão as inúmeras restrições relacionadas aos produtos de outros países no território do Tio Sam. E é assim com a França, a Inglaterra, a Alemanha... ...
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Grão de mostarda

Era um rosto ou uma parede aquilo que se equilibrava sobre seu pescoço? Essa era a pergunta que andava na cabeça dos bêbados de sol, de fome e de outros tóxicos. Um rosto duro instransponível homogêneo. Como se ela tivesse nascido da muralha da china. Nenhuma maquiagem. Nenhuma expressão. Só uma longa extensão de nada com coisa alguma. Assim, ela corria por entre as mesas de um restaurante de duas, no máximo, três estrelas.

O lugar era condizente com o rosto daquela mulher. Enquanto escondia o rosto, misturando boca, nariz e olhos num mesmo plano, sem profundidade ou relevo, levava seu umbigo sempre à mostra. Não tinha piercings, tatuagens ou qualquer outro marketing. Só o umbigo. E embora pequenino, perdido naquela falta de barriga, surgia como um estrondo diante dos olhos desavisados. Pudera, aquele umbigo tinha mais expressão que seus olhos. ...
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Grávida

Grávida, ela teria o andar equilibrista de sempre. Grávida, ela caminharia um pouco mais devagar. Grávida, existira o cuidado, o zelo, mas os saltos teriam a mesma altura. Grávida, ela traria os últimos botões desabotoados. Grávida, os cabelos viriam presos, não sei por qual razão, mas viriam presos. Grávida, ela passaria a conversar ainda mais consigo mesmo. Grávida, os sobressaltos seriam mais raros. Grávida, misturar-se-ia à barriga numa cena digna de filme europeu. Grávida, ela se pegaria lendo as mesmas páginas de um romance qualquer. Grávida, ela ficaria horas a fio, tentando adivinhar o sexo do bebê, a partir de seus movimentos, embora tivesse a resposta na ponta da língua. Grávida, encher-se-ia de segredos. Grávida, ela iria mergulhar ainda mais em si. Grávida, ela teria todos os motivos e justificativas para deixar escapar uma lágrima. Grávida, ela seria manhosa. Grávida, tantos sonhos seriam gerados com a criança. Grávida, ela procuraria um lugar para se esconder longe de qualquer civilização. Grávida, ela se fingiria carente. Grávida, ela acreditaria em fadas. Grávida, ela dançaria com a barriga, escondida de qualquer testemunha, uma música que há tempos não ouvia. Quem sabe Phill Colins. Grávida, a feminilidade lambuzaria os seus lábios. Grávida, seus sorrisos seriam ainda mais longos. Grávida, ela teria vontade de tantas coisas que não existem. Grávida, ela iria deixar ser tocada pelo sol. Grávida, ela pediria conselhos para a lua. Grávida, ela se tornaria mais arisca. Grávida, ela faria visitas a tantas portas que ela mesma havia trancado. Grávida, ela se sentiria mais forte. Grávida, as contrações não seriam maiores do que nenhuma outra dor. Grávida, o parto seria calmo, sem gritos ou gemidos. Grávida, o maior medo seria ver o bebê deixar o seu corpo. Grávida, agarraria a criança, como sempre tentou agarrar o mundo. No entanto, mesmo com unhas compridas, o bebê escaparia e deixaria a despedida em suas mãos. Grávida, ela se entregaria aos sonhos....
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