Daniel Campos
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Encontrados 21 textos. Exibindo página 1 de 3.

20/11/2008 - Tá tudo molhado em mim

Tá tudo chovendo em mim. Tá tudo molhado, tudo encharcado, tudo alagado em mim. Como se o meu tempo fosse um temporal de mim. A água afundou meus pensamentos, meus sentimentos foram destelhados e só me resta os acenos de um barco de jornal que passa ao meu lado. A estrada virou enxurrada. E eu esqueci meu guarda-chuva em alguma chuva passada. E se a chuva for ácida? Eu sou filho da margem plácida...

Estou cheio de lama, estou de cama, estou pra lá de quem ama. A chuva é pranto e eu to sofrendo tanto, mas tanto. A chuva tombou a plantação de sonhos que brotara em mim. A chuva deixou vermelho meu lago interior. A chuva abriu buracos no meu terreno de dentro. A chuva derrubou as flores, estragou os frutos, carregou as sementes para longe, para longe, para longe dos meus sulcos. Que horas, que horas, que horas são ò cuco?...
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Tango na sapucaí

O calendário mudou, mas como diz a letra de um samba, nada de novo. Bin Laden continua desaparecido; Roseana Sarney continua sem conteúdo; Silvio Santos continua com o sorriso aberto; Índia e Paquistão continuam as ameaças nucleares... Com toda essa "continuação", se não se falasse tanto em carnaval, diria que ainda estamos em 2001.

Isso mesmo! Começaram os preparativos para o carnaval, ou melhor, para aquilo em que se transformou o carnaval (retomarei o tema num artigo futuro). Apesar do grande número de acontecimentos pendentes do ano passado, a mulata globeleza está no ar....
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Tanta espera que se finda

Tantas esperas. Tantas hipóteses. Tantos sonhos. Os últimos meses dedicados a esse momento. Vivi em função desse momento. A cada dia esse momento parecia mais próximo. A cada dia construía novos momentos dentro desse momento que começa a nascer agora. Um parto difícil, porém essencial. O momento precisa ganhar vida, uma vida concreta que vá além das minhas fantasias. Um momento que pode vir a ser tudo, ou nada ou ainda viver em função de alguma esperança. Num primeiro instante, o momento não visa conseqüências, apenas a causa. E embora pensem o contrário, estamos bem preparados para enfrentar esse momento. Não precisamos ter medo, ao contrário, devemos ter alegria em compartilhar esse momento. Momentos com essa proporção não existem a todas as criaturas. Somos privilegiados. Não devemos nos calar diante dele. Devemos deixar tudo de lado e viver esse momento de forma única, não se importando com o que venha a ocorrer depois. Infelizmente, o momento chegou de forma não prevista, mas quem é que prevê esses momentos? Queria fazer de outro jeito, mas agora terá de ser assim. Tudo que ouviu até agora foi dito por outras bocas. Tudo o que ouvi de você foi o silêncio. É mais do que necessário colocarmo-nos olhos nos olhos. Não adianta fugirmos desse momento e nos afogarmos num mundo de suposições. Sei que compreende o valor desse momento. O momento chegou. Sobre o momento, sei o mesmo que você. Momentos assim são espontâneos, não há como os definir com antecedência. Assim, teremos de enfrentá-lo juntos. Não me diga nada agora, o ambiente não é propício para isso. Se puder, o ideal é que esse momento nasça ainda hoje. Para o momento, só resta o parto. Não dá mais para adiar, o momento se faz presente. Acima de tudo, do que pensa sobre mim, do que falam sobre mim, sobre meus atos, saiba que creio em você.


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Tardes que tardam

O sol se põe em solidão. Não sei o que ocorre com as tardes, que são tristes por si só. As manhãs, as noites, as madrugadas... Todas podem ser tristes, mas as tardes não são por razão de escolha, são pela simples razão de ser. Nas tardes é que o corpo parece cansado de tanta vida. Na tarde é que surgem as lembranças. Na tarde surgem todas as dores passadas. Nas tardes é que inventamos de ouvir aquela música, que vamos ler aqueles escritos que ficam guardados esperando não sei o quê.

Tarde. Talvez seja a sensação de que o dia se vai, o tempo passa contra a vontade e que não conseguimos fazer o que queríamos. A sensação de que não somos o que sonhamos ser. Sonho. Na tarde é que nos embriagamos de tantos sonhos e nos decepcionamos, talvez porque acordamos cheios de esperança, uma esperança que cai como grãos de areia numa ampulheta. ...
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Teatro de domingo

Sabe que dia é hoje? Não responda... Talvez a resposta possa ferir sua boca... Como são ácidos os domingos... Parecem dias insossos, bobos, preguiçosos, mas são ácidos... Ah! Domingo... Hoje não foi dos meus melhores dias... Eu sequer me dei ao trabalho de arrumar a cama... Está desarrumada até agora... Quase não a deixei hoje... E como você sabe, eu não durmo durante o sol... E hoje, mais uma vez, cumpri este escrito... Fiquei na cama, mas fiquei acordado... Acordado em sonhos... As únicas vozes que eu escutei foram por meio do telefone (de uma única ligação que fiz) ou dos discos... O telefone tocou algumas vezes, mas eu não o atendi... Para se ter idéia do meu domingo, eu fui para a cozinha e pus a perder todo o almoço... Não deu para aproveitar nada... Consegui a proeza de estragar tudo e isso já era perto do final da tarde... O que eu fiz? Comi a sobremesa e fiz almoço novamente... Quando terminei não estava mais com fome... Resultado... Jantei o que seria o meu almoço... Para se ter mais um pouco da idéia do meu domingo, fiz algo inédito desde que moro aqui... Não abri a porta de casa... Não virei à chave... Não sai nem no corredor do prédio... Fiquei aqui nesses metros quadrados o dia todo... O problema é que meus passos são triangulares e sempre me falta espaço... E, para agravar o grave, não pretendo sair até amanhã de manhã... Fiz disso aqui hoje uma espécie de casulo... Um casulo de poesia... O máximo que eu cheguei perto do mundo lá fora foi quando eu fui à varanda e vi que arrancaram a grama do jardim aqui da frente... A terra nua... Quantas lembranças me trazem a terra nua... E ainda jogaram um adubo esbranquiçado na terra... Parece neve... Parece sal grosso... Parece blush... Aiai... Domingos... Como eles me consomem... Quando é que a mulher amada chegará com a ilusão da cura... Para curar esse meu mal de domingo... Que ela afaste toda a depressão retida num domingo ou até que exorcize os fantasmas que assombram o domingo... Mas ela precisa chegar rápido, afinal, a cada novo domingo há uma perda... Uma perda de sonho, de esperança, de ânimo, de futuro, enfim, de um pedaço de mim... Os domingos, com seus dentes afiados, dilaceram-me mais e mais... Eles me atacam me abocanham me devoram e depois, deixam-me num canto como animal ferido... E não há como lutar ou resistir ou enfrentar... Os domingos me ameaçam como assassinos e me fazem entregar tudo o pouco que tenho... E se não bastasse todo o cinismo, os domingos debocham da minha espera pela mulher amada... Ah! Quando ela vai chegar, que horas vai bater, qual dia vai subir... É preciso chorar, é preciso gritar, é preciso gemer, posto que, hoje é domingo... E ainda faltam algumas horas para ele se ir de uma vez... E voltar daqui a sete dias... Ó minha amada, escrevo-lhe está carta, mas não sei seu nome, não seu endereço, não sei seu rosto... Só sei que existe... E é por essa certeza, que é mais um sentimento do que uma certeza, que ainda me levanto depois dos maremotos e furacões dos domingos... Domingos de seca, domingos de tempestade... Um dia ela, a mulher amada, há de chegar e me livrar dessa maldição chamada domingo... Há de quebrar o feitiço que uma bruxa me jogou... Mas só há um temor... Se ela chegar num dia de domingo... Como poderei confiar que ela é, de fato, a mulher amada... E se for miragem, e se for uma armadilha do domingo, e se for o próprio domingo num corpo de mulher... O domingo embaralha sentimentos como cartas de tarô... O domingo me dopa, me deturpa, me estupra, me vira de ponta cabeça... E se ela for o domingo, ou melhor, e se o domingo for a mulher amada... O que se há de fazer?... Que ela surja na segunda, na quinta, no sábado... Se ela surgir no domingo, corro o risco de não abrir a porta... E se abrir, corro o risco de não encontrá-la... E se encontrá-la, corro o risco de me perder de uma vez por todas... A mulher amada caminha em uma roleta... E entre o azar e a sorte, que essa roleta não pare na casa do domingo... Se a campainha tocar em pleno domingo e detrás da porta estiver a mulher amada... Que venha a morte, num súbito, posto que perdi...


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27/09/2008 - Telemarketing? Eu não!

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Tem de ser hoje

Hoje é especial. Hoje é melhor do que ontem e até que não chegue o amanhã o certo é se fartar de hoje. Hoje é especial porque é só hoje. Acorde com um bom-dia na cara. Um bom-dia daqueles declarados e não tenha vergonha do que irão pensar. Hoje é o dia que aquele sonho que você perseguiu a vida toda lhe espera logo ali. Logo ali do lado da felicidade. Hoje é o seu dia de sorte. Os astros dizem isso em algum lugar. Hoje é dia de sair de casa assobiando aquela música. Dia de comer aquela comidinha feita com todo carinho. Hoje é dia de abraços e beijos. Hoje é o dia de se viver tudo o que se tem direito. Dia de pegar o telefone e falar com alguém que você não fala há muito tempo. Hoje é dia de deixar todos os problemas num galho de arruda. Dia de comprar e receber flores. Dia de dizer para si e para todos: Eu amo. Eu amo. Eu amo. E tudo mais é conseqüência.


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30/03/2008 - Tempo nosso

Sou do tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça, em que vassoura era dourada de trigo e o ferro ardia nas mãos das passadeiras que sopravam suas brasas. Sou do tempo em que se benzia passando terços pelo nosso corpo, uma, duas, três vezes. Sou do tempo em que se achava água de mina no quintal, bandido era coisa de cinema e o amor era etcetera e tal. Sou do tempo em que o mundo era dividido entre uma águia capitalista e um urso comunista. Sou do tempo em que cigarra cantava para chover, gato caia em pé e algodão era uma flor. Sou do tempo em que o disco rodava na ponta de uma agulha e o café, depois de ser torrado e socado no pilão, escorria negro pelo coador de pano. ...
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28/09/2008 - Tempo, temporais

No fundo da minha retina surge uma quarta-feira amarelada, perdida no tempo de uma cidadezinha com cheiro de capim molhado. Entre o vai-e-vem do dia, o relógio confecciona as fiadas da tarde. Estou no centro da cidade. Já passei por lojas, carros, agências bancárias, banca de revista, palmeiras, bancos de madeira, coreto e um chafariz seco. As águas coloridas só chegam à época do Natal. E estou longe do dia 25 de dezembro. Não sei se é outono ou inverno. Estou em uma outra estação. E meu trem já está partindo, indo entre memórias e pensamentos....
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22/05/2008 - Tempos de Corpus Chirsti

"E, tomando um pão, tendo dado graças, o partiu e lhes deu, dizendo: Isto é o meu corpo oferecido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este é o cálice da Nova Aliança no meu sangue derramado em favor de vós." (Lucas 22:19-20)

Tudo começou com um sonho. Há 900 anos, onde hoje fica a Bélgica, uma freira sonhou com uma lua completamente negra. Estávamos na Idade Média, na época das trevas. Reza a história, que a freira procurou o padre da cidade e contou-lhe a mensagem que havia por detrás do sonho: era preciso celebrar o corpo de Cristo. O padre passou a comandar um cortejo de ação de graças pelas ruas do lugar para agradar aos céus....
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