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Encontrados 24 textos. Exibindo página 1 de 3.
08/05/2008 -
V de vitória
"Ayrton Senna vem passando, completa 70 voltas. Aí vem Senna, é a volta de número 71, é o Brasil na frente. Aí vem Ayrton Senna. Aí Ayrton Senna na metade da última volta. Ele já viu a câmera posicionada e fez um sinal de 'v' de vitória. Aí vem Senna, o Brasil na frente. Ayrton Senna está no S, Ayrton Senna vai pro Bico de Pato. Bandeiras verde-amarelas agitadas em todo o circuito. Ele dá um tchauzinho pra câmera. Últimas curvas para Ayrton Senna. Ele vem pela subida. Mihali Hidasi aguarda com a bandeira quadriculada. Aí vem Senna na reta. É o final da prova. Ayrton Senna na ponta dos dedos. Ayrton, Ayrton, Ayrton Senna do Brasil. Ayrton Senna do Brasil. Ele pega a bandeira, repete o ritual. Aí Ayrton Senna, vai a loucura a arquibancada em Interlagos..."...
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04/07/2008 -
Vá em paz, Waldick
"Vou partir para distante
Vou viver pensando em ti
Vou morrendo de saudade
Ai quem me dera poder ficar aqui"
Em poucos episódios da história, música e compositor alcançaram tamanha sintonia atemporal. Assim como esse trecho da canção "Minha Despedida", os versos quarentões "eu não sou cachorro não, para viver tão humilhado" parecem ter sido compostos nesse exato instante por Waldick Soriano. Lutando contra um câncer de próstata desde 2006, o cantor, considerado um dos ícones da música brega, tem de conviver com o diagnóstico erudito dos médicos de que sua morte é irreversível. ...
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02/10/2008 -
Vai ter carnaval
Correu boato lá na rua de baixo que vai ter carnaval. O politicódromo é no domingo nacional. Carnaval da politiqueira, carnaval da politicagem, carnaval political no pleito municipal. Vai ter candidato pierrô chorando sobre o leite derramado. Vai ter candidato colombina traindo seu amor com o primeiro arlequim. Vai ter candidato que vai até as urnas em bloco e depois, segue sozinho com os lucros. Vai ter candidato desfilando em carro alegórico e candidato passista, rebolando para conseguir uma boquinha na prefeitura ou na câmara. Vai ter candidato discutindo harmonia, evolução e pedindo mais conjunto para seus apoiadores. Vai ter candidato porta-bandeira levantando seu pavilhão. Vai ter candidato no lança-perfume das promessas. ...
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24/09/2008 -
Vale a pena ser feliz
Era um trapo, era um prato, era um pato na lagoa nadando a toa, boiando numa boa. Era um gira-mundo, era um vagabundo, era um moribundo ao vento querendo, se vendo, morrendo num sentimento fundo, mais que profundo. Era um manto, era um santo, era um canto de amor total ferindo, frigindo, agindo no furor letal de um carnaval que foi vindo num passo, indo num contrapasso e sumindo num compasso carnal de espaço sideral, de traço espiritual e de laço bucal.
Era um dia, era uma alegria e era uma fantasia tomando a avenida da vida de poesia lida, vivida, sentida. Era um nó, era um dó e era um só numa era de felicidade que vai, ai quem dera se não existisse a saudade e se a fera não insistisse na vaidade de uma vontade primavera. Era um mar, era um lar, era um luar no meio da rua, no meio da lua, no meio da tua ciranda que anda e desanda sem parar. Era um fio, era um arrepio, era um rio correndo, moendo, doendo na gente, de repente, tão somente a gente. ...
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Vatinga, meus aplausos
Que este artigo não tarde os meus aplausos. Não pensem que eu parabenizo os moradores da Vatinga por terem "ganhado" uma cadeia no quintal de casa. Faço-o pelos abalos que causaram às estruturas da política local. Adiantaram o trabalho dos carunchos.
Fez-se a vez de um povo que dificilmente alguém escuta. Um povo desprezado e que por ironia da vida, sustenta o nosso país. Falam em indústrias, mas o que move o país é a agricultura. Envergonhar-se da terra, tratá-la mal, são gestos que prefiro nem comentar. Para os que acham que cultivar a terra é coisa de país subdesenvolvido, vale lembrar que a França ganhou o título de celeiro europeu. Subdesenvolvidos são aqueles que não se preocupam com a vida que surge da terra, com os calos das mãos dos agricultores. Para a maioria dos políticos, que nada fazem pelo povo durante o mandato, a terra só serve para erguer construções de concreto, estas, um mostruário eleitoreiro barato. ...
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Vela em riste
Quando o fósforo acalorado por duas unhas tão esmaltadas quão longas esfrega-se nas laterais escuras de uma caixa sem samba, uma explosão em chama acende o pavio lânguido de uma vela. À luz dessa explosão, o mundo abre seus ouvidos. A vela é posta nas costas de um piano como um vaso solitário. Vaso de cera. Vaso em chamas. Vaso de cera. E os dedos das unhas daquela mulher, ainda com fragmentos de pólvora do fósforo, causavam inúmeras outras explosões. Algumas maiores, outras menores e outras ainda não diagnosticadas. Explosões vindas das teclas esmaltadas de um piano longo como um daqueles vestidos de baile....
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Versos tatuados
Não sabia as horas, tampouco a data. Sabia apenas que o céu, como se de luto, cobria-se de negro e que aquele era o melhor momento para encontrá-la. A mulher, de sorriso leve, pouco a pouco, tornava-se mais a vontade diante dos olhares de algas marinhas que lhe olhavam do espelho. A cada novo encontro, o sorriso parecia mais leve e os olhares mais surpresos.
Na beira do cais, nos campos de girassóis, na rua mais famosa da cidade, num quarto escuro... Não havia lugar certo para se dar o encontro. Depois de quebrar todos os relógios e rasgar todos os calendários, ninguém mais tinha consciência se ela se atrasava ou não... Eu, uma embarcação a deriva no tempo, apenas navegava em suas ondas. Ela, o próprio tempo....
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24/12/2008 -
Véspera de um novo tempo
Hoje é o último dia em que Maria leva um novo tempo em sua barriga. A partir de amanhã, este novo tempo estará entregue aos braços do mundo. Hoje, Maria já sente as dores do parto. Nove meses depois da vinda do anjo anunciador, a jovem já se prepara para levar esse novo tempo no colo. Hoje é o dia em que as sombras do reinado de Herodes e a estrela de Belém se entreolham, preparando o confronto entre a luz e a escuridão.
É véspera de o ventre de Maria dar à luz um deus humano. É véspera de toda humanidade ter um deus que chora, que mama, que dorme. É véspera da peregrinação de um deus feito de carne. É véspera dos anjos cantarem no céu. É véspera dos pastores se ajoelharem ao menino. É véspera de um novo tempo nascer em uma manjedoura. É véspera dos magos do Oriente partirem em jornada. É véspera de um tempo de ouro, incenso e mirra. ...
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Vestida de baile
Com um vestido de baile que nunca dançou, saiu pela cidade afora. Saltos nas mãos, pés na grama úmida, olhos para além dos anéis de saturno. Vestido cor de peixe, saltos cor de lua, grama cor do mar que não havia ali e olhos cor de céu em noite de cometas. Passos de campari. Ora mais pra lá ora mais pra cá de uma linha imaginária. Assim como a bebida, seus passos eram vermelhos e vinham num doce-amargo. Em seus passos folhas, caules, raízes, frutos e flores dos quatro continentes.
Não levava cigarros na boca ou na bolsa, aliás, não levava bolsa nem o toque de um celular. Mas levava preocupações. Era o trabalho da faculdade, o crediário de três ou quatro necessidades fúteis ou futilidades necessárias, era o mau-humor do chefe, era o sono, era o vizinho, era o começo da gripe, era o ciúme do pai, era a tosse da mãe, era a histeria da irmã, era a estripulia de um cachorro, era o relógio quebrado, era a roupa manchada, era um disco emprestado, era a azia do jantar, era o cunhado bêbado, era o carro enguiçado, era a falta de tempo, era a segunda-feira, era a falta de algo ou de alguém, era o fim da festa antes do fim. Festa? ...
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Viagem ao espaço
Depois de um longo tempo sem emprego, foi contratada para fazer propaganda de uma multinacional. Quando pegou o imenso balão vermelho em suas mãos, pegou também uma dezena de sonhos e sabores que andavam caídos dentro de si. Sonhos de quando queria ir às estrelas, completar a volta ao mundo em um balão, testemunhar o sol mais de perto, sentir seu calor, seu suor.
Mas seu corpo, pelo regime de tantas ilusões, não conseguia suportar tanta força. E tantas vontades aliavam-se a um vento forte para arrastá-la para os céus. Os pés chegavam a derrapar no gramado ao lado da avenida onde tinha que ficar segurando a propaganda com um nome em inglês. ...
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