Daniel Campos
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Encontrados 24 textos. Exibindo página 1 de 3.

24/12/2008 - Véspera de um novo tempo

Hoje é o último dia em que Maria leva um novo tempo em sua barriga. A partir de amanhã, este novo tempo estará entregue aos braços do mundo. Hoje, Maria já sente as dores do parto. Nove meses depois da vinda do anjo anunciador, a jovem já se prepara para levar esse novo tempo no colo. Hoje é o dia em que as sombras do reinado de Herodes e a estrela de Belém se entreolham, preparando o confronto entre a luz e a escuridão.

É véspera de o ventre de Maria dar à luz um deus humano. É véspera de toda humanidade ter um deus que chora, que mama, que dorme. É véspera da peregrinação de um deus feito de carne. É véspera dos anjos cantarem no céu. É véspera dos pastores se ajoelharem ao menino. É véspera de um novo tempo nascer em uma manjedoura. É véspera dos magos do Oriente partirem em jornada. É véspera de um tempo de ouro, incenso e mirra. ...
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17/11/2008 - Vidaria

Quem falou que viver era fácil, mentiu. Viver é para poucos, a maioria mesmo não passa da linha da sobrevivência. E dá-lhe chicotadas no lombo dessa gente que caminha sem ter aonde chegar. É uma gente que está pra lá do estreito de Gibraltar. Viver é carregar pedras e subir montanhas sem fim. É amar em português e sofrer em mandarim. O encontro do desencontro afim. É comer arroz, feijão e pólvora e servir de estopim para uma civilização que diz não quando diz sim. E onde está o gênio da lâmpada de Aladim? Será só de mentira, de mentira, de mentira a caminhada da nossa estrada. Vida, vida se eu a tivesse lhe daria, vidaria. ...
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05/11/2008 - Vida quântica

Quantos projetos você já engavetou sem querer? Quantos sonhos você já teve de deixar pra trás? Quantos amigos já lhe traíram? Quantas vidas você já gastou? Quantos prazeres se transformaram em dor? De quantas chegadas só restam partidas? Quantas estrelas cadentes já passaram pela sua frente? Quantos pedidos já se realizaram? Quantas fantasias você precisou sufocar para poder continuar? Quantas às vezes em que já mudou o destino e perdeu?

De quantos remédios você precisa para sobreviver? Quantos mistérios você já desistiu de descobrir? Quantas histórias você deixou de contar, de ouvir, de viver? Quantos caminhos ficaram longos demais para você percorrer? Quanto de saudade você guarda no peito? Quanto de bom se transformou em ruim? Quantas certezas já não são tão certas assim? De quantos sóis o seu céu tem precisado? Quantas as noites em claro que você tem vivido?...
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21/10/2008 - Vinte e quatro anos de silêncio

O coração de Eloá ficou em silêncio. Mas não foi o silêncio eterno, tampouco o quase silêncio do coma. Foram 24 anos do mais puro silêncio. Com Eloá, ele viveu durante quinze anos. Poucas vezes deve ter pulsado tão rápido quanto nos dias em que ficou à mercê do ex-namorado e atual assassino. Diante das ameaças, um pulso desafinado. Diante do choro da mãe, um pulso sufocado. Diante do ataque da polícia, um pulso desesperado. Diante da solidariedade da amiga, um pulso consolador. Diante dos tiros, um pulso saudoso....
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02/10/2008 - Vai ter carnaval

Correu boato lá na rua de baixo que vai ter carnaval. O politicódromo é no domingo nacional. Carnaval da politiqueira, carnaval da politicagem, carnaval political no pleito municipal. Vai ter candidato pierrô chorando sobre o leite derramado. Vai ter candidato colombina traindo seu amor com o primeiro arlequim. Vai ter candidato que vai até as urnas em bloco e depois, segue sozinho com os lucros. Vai ter candidato desfilando em carro alegórico e candidato passista, rebolando para conseguir uma boquinha na prefeitura ou na câmara. Vai ter candidato discutindo harmonia, evolução e pedindo mais conjunto para seus apoiadores. Vai ter candidato porta-bandeira levantando seu pavilhão. Vai ter candidato no lança-perfume das promessas. ...
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24/09/2008 - Vale a pena ser feliz

Era um trapo, era um prato, era um pato na lagoa nadando a toa, boiando numa boa. Era um gira-mundo, era um vagabundo, era um moribundo ao vento querendo, se vendo, morrendo num sentimento fundo, mais que profundo. Era um manto, era um santo, era um canto de amor total ferindo, frigindo, agindo no furor letal de um carnaval que foi vindo num passo, indo num contrapasso e sumindo num compasso carnal de espaço sideral, de traço espiritual e de laço bucal.

Era um dia, era uma alegria e era uma fantasia tomando a avenida da vida de poesia lida, vivida, sentida. Era um nó, era um dó e era um só numa era de felicidade que vai, ai quem dera se não existisse a saudade e se a fera não insistisse na vaidade de uma vontade primavera. Era um mar, era um lar, era um luar no meio da rua, no meio da lua, no meio da tua ciranda que anda e desanda sem parar. Era um fio, era um arrepio, era um rio correndo, moendo, doendo na gente, de repente, tão somente a gente. ...
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04/07/2008 - Vá em paz, Waldick

"Vou partir para distante
Vou viver pensando em ti
Vou morrendo de saudade
Ai quem me dera poder ficar aqui"

Em poucos episódios da história, música e compositor alcançaram tamanha sintonia atemporal. Assim como esse trecho da canção "Minha Despedida", os versos quarentões "eu não sou cachorro não, para viver tão humilhado" parecem ter sido compostos nesse exato instante por Waldick Soriano. Lutando contra um câncer de próstata desde 2006, o cantor, considerado um dos ícones da música brega, tem de conviver com o diagnóstico erudito dos médicos de que sua morte é irreversível. ...
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02/07/2008 - Vontade de Milton Nascimento

Vontade de pegar a boléia de um caminhão e dar um baile nos bailes da vida. Vontade de escalar as várias pontas de uma estrela. Vontade de abraçar o mundo na ternura e na dor. Vontade de jogar bola de meia, bola de gude. Vontade de cantar uma canção da América. Vontade de trabalhar o sal no amor e no suor que me sai. Vontade de chegar ao clube da esquina e ver que a vida se cansa na esquina. Vontade de não entender a saudade de um caminho que há muito se acabou. Vontade de ter um coração de estudante para falar de uma coisa que deve estar dentro do peito ou caminha pelo ar. ...
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26/05/2008 - Vou a marte

Vou amar-te e para sempre amar demais. Vou amar e amar-te de tanto ardor. Vou amar o que virá de nós e o que ficou para trás a sós. Vou amar-te e tentar chorar só a felicidade desse amor. Vou amar-te e voar por este céu lilás. Vou amar-te como semente entre lençóis. Vou amar-te poente em tantos sóis. Vou amar-te entre o frio e calor que sobem às espinhas. Vou amar-te como minha. Vou amar e fazer-te a maior das rainhas.

Vou amar-te e cantar teu canto. Vou amar-te e enxugar teu pranto. Vou amar por todo encanto e quiçá, colocar-te quebranto. Vou amar-te em cada texto e fazer-te o meu pretexto de infinito. Vou amar-te e adorar-te e glorificar-te como meu sonho mais bonito. Vou amar-te além mar do teu perfume. Vou amar-te e me torturar em teu ciúme. Vou amar-te e bradar-te como meu querer bem. Vou amar e prostrar-te em amém. ...
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19/05/2008 - Voltei

Para aqueles que se preocuparam com minha ausência, estou vivo. Ou revivo, depois de ser alimentado por mergulhos profundos e vôos longos. Depois de uma viagem pelo interior do interior do interior de mim, estou de volta a este espaço. Peço desculpas pela minha retirada súbita durante alguns dias, mas a desconexão foi não só precisa, mas necessária e irreversível. Não queria deixar esse lugar ao léu durante esses dias, mas não teve outro jeito.

Passados à parte, o importante é que eu voltei em ritmo de futuro. Futuro do presente. O tempo mais-que-imperfeito do perfeito. E voltei com a poesia aguçada e revigorada. Depois desses dias de mordaça, ganhei fôlego nesta caminhada literária. Mais uma vez, estou aqui. E agora, nada vai me impedir. Eu vou gritar aos quatro ventos que a poesia me habita e escorre de meus poros formando uma estrada vermelha a minha frente. ...
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