Daniel Campos
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Encontrados 18 textos. Exibindo página 1 de 2.

02/08/2008 - Baile de debutante canino

Por mais absurdo que pareça, eis que está na moda fazer festa de aniversário para cachorro. E não falo de qualquer festinha. É festa de arromba mesmo. Com direito a comes e bebes, decoração requintada, lembrancinhas caninas, música ao vivo e notas em colunas sociais. As emergentes da alta sociedade - as socialites - querem que suas "filhinhas" tenham tudo do bom e do melhor. As amigas vão e levam os cãovidados. É pedigree para cá, é amestrador para lá. É um luxo só.

Ao contrário de jogar a comida no chão e deixar a cachorrada presa no quintal, os cães são tratados como estrelas. Para se ter idéia, as festas são temáticas. De preferência, os aniversariantes escolhem os 101 Dálmatas. Tem bolo de ração, brigadeiro de ração, aperitivo de ração. Para beber, tem caldo de carne. Cães de todas as raças se dividem entre o jardim, a piscina e o interior da casa. E os cachorros vão todos produzidos. Tomam banho, cortam o cabelo e fazem as unhas. Além do salão de beleza, ganham uma massagem relaxante e um laço para realçar o pêlo. ...
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12/02/2008 - Balde de água fria

Há sempre um balde de água fria para uma empolgação acalorada. Essa frase ainda não entrou para a galeria de ditados populares, mas é forte candidata. Uma das mais recentes vítimas desta máxima foi o estardalhaço em torno do biocombustível. O próprio Lula abraçou essa fonte de energia como um trampolim para o Nobel da Paz, assim como Clinton.

Diante de discursos inflamáveis, o biodiesel virou mania nacional a ponto de o desmatamento amazônico ser "justificável". Depois de três anos de redução, a taxa de derrubadas disparou em 2007. A verdade é que os oportunistas estão usando o discurso de planeta saudável para encher a Amazônia de soja (usada para produzir o eco-combustível). ...
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10/12/2008 - Barbárie, barbárie

Quero um elmo, uma armadura, um escudo e um cavalo marchador. Não, não quero ser um cavaleiro da Távola Redonda ou um novo Dom Quixote de La Mancha, quero apenas passar incólume por essa multidão que não sabe para onde e nem por que o vai com esse passo desmedido, corrido, iludido. Quero blindar-me, quero isolar-me, quero exorcizar-me desta seita de passistas e motoristas e ciclistas e motociclistas - os artistas do caos. E enquanto as donzelas se fartam dos bárbaros que passam sobre suas janelas, as senhoras da sociedade expurgam: barbárie, barbárie! ...
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02/03/2008 - Beba Vinícius de Moraes

A lua me devora no céu. Tropeço em páginas escritas, mal-escritas e em branco. Corro para a sala. Caio entre versos de amor e de amor demais. Abro a porta da estante. Garrafas e mais garrafas. Preciso encontrá-la. Vinhos, conhaques, espumantes, vodkas... Ela tem de estar aqui... Eu tenho certeza de que ela... Ninguém mexeu aqui... Preciso ser rápido... Ah! Lá está ela... Uma garrafa de uísque quinze anos. Não há tempo para pensar. Tiro o lacre e despejo aquele líquido quente e encorpado em um copo largo. O vidro espesso e octogonal vai perdendo toda a transparência. Aquele álcool escocês escorre pelas bordas. Por maior o desejo, não o bebo. Eu não poderia... Não aquele uísque. Ofereço aquele líquido a um altar improvisado. Ao contrário de imagens, um livro de poemas. Seja como for, ofereço aquele uísque aquela espécie de orixá. ...
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05/07/2008 - Bebendo Darcy Ribeiro

Mesmo diante do advento da lei seca e do bafômetro rolando de boca em boca igual paixão em época de carnaval, não tenho com o que me preocupar. Afinal, só bebo Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Garcia Marquez, Carlos Drummond, Fernando Pessoa e tantos outros 20 anos blues. Hoje mesmo vou beber uma dose caprichada de Darcy Ribeiro e o convido, caro leitor, a sentar-se nessa mesa sociológica comigo.

Para começar, vamos nos embebedar daquela famosa máxima darcyniana: "só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar". Assim como o filósofo mineiro, não vou me resignar nunca. E o Brasil deveria fazer o mesmo. Não deveríamos renunciar ao direito de ser feliz, de ter esperança, de sonhar com um mundo melhor, de amar numa mais que completa falta de limites... Por que vamos deixar que coloquem travas, freios, amarras, barreiras ao nosso desejo de "ser"?...
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05/05/2008 - Béééééééé!

A nossa política financeira anda em ritmo de tartaruga, cochila feito urso em período de hibernação e tem o ânimo de uma preguiça. A nossa política monetária, com os maiores juros de todo o mundo, é puramente recessiva e vive para restringir investimentos e o consumo baseado em crediário. A nossa política fiscal é absurda a ponto de não permitir expansões como em países civilizados. A política cambial é uma ilusão, posto que tenta, a uma preço alto, manter o câmbio valorizado, prejudicando, sobretudo, a indústria e a agricultura....
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Beijo de aspartame

Pernas longas deixam quase vazias as pernas do jeans azul. O par solitário de uma sandália salto agulha dá mais magreza ao seu corpo. A blusa preta redimensiona seu colo, suas costas, seu útero,..., para uma resolução ainda menor. O cabelo escorre longo e indígena. Aquela mulher que se escora em sua própria longitude é de uma verticalidade fora do comum.

Se de perfil ou de frente ou de costas, não importa, tem a mesma sombra. Quase não tem carne. E seus ossos parecem ocos, dando-lhe a sensação de vôo em seu andar. Não tem o andar pesado das modelos de passarela, mas um andar gravitacional. Quase gaivota. Quase astronauta. Quase folha ao vento. E como que uma doença seus olhos são magros. Seu sorriso é magro. Até a bolsa é pequena demais para suas alças. Não deve usar biquíni. Deve ter vergonha. E pela sua pouca conversa tem pensamentos magros. ...
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26/11/2008 - Bem-casado

Mais uma vez, canto-te esse cântico que me habita e palpita sob o signo coração. Mais uma vez, sou teu soldado, a pólvora que explode ao teu lado e o teu canhão, a te defender, a te proteger, a te socorrer. Mais uma vez, mato em teu nome. Mais uma vez, sacias a minha fome. Mais uma vez, dorme enquanto sonho o dia em que a poesia será de todo dia. Mais uma vez, aporto em teu porto e cavalgo pelos teus campos como um potro que vem recém-nascido, recém-crescido, recém-querido por alguém.

Mais uma vez, bendigo o teu umbigo no meu e te abrigo, brigo-te e mordo o figo da tua boca. Mais uma vez, devoro e sou devorado por essa paixão louca. Mais uma vez, a eternidade é pouca para essa saudade que menina, alucina e fascina. Mais uma vez, estou a esquecer o mundo, sou teu rei vagabundo e teu poder de mulher. Mais uma vez, bem-te-quero e bem-me-quer. Mais uma vez, eu te espero, e berro e me incendeio como Nero. Mais uma vez, te sou, me vou, me desespero....
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Bem-vindo ao caos

Na mitologia grega, antes da criação do mundo, existia o caos. Milênios depois, eu acredito que voltamos ao caos. E nem vou falar do mundo em geral, onde mulheres e homens-bombas explodem o que restou de suas vidas. Vou falar do nosso país, onde o presidente se enche de discursos franceses, enquanto mulheres desse mesmo país, numa pobreza tamanha, trocam o absorvente pelo sabugo de milho. Caos, triste realidade.

O caos, ou seja, a bagunça, a confusão, a desordem é o resultado de uma falta de política. A nossa política sempre privilegiou uma parte minúscula da população. Uma política que visa o dinheiro. Pergunto: como sobrevivem os não ricos? Sobrevivem no caos. ...
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Boca chabernet

Onze horas da manhã. O cabelo molhado, emaranhado e colado ao início das costas. O olhar varre o guarda-roupa. Depois de tanta procura, descalça e de hobby, vai para a sacada. Seu olhar ganha a linha paralela do horizonte. Paralela? Paralela com tantas coisas. Lembranças brincam de correr por aquela linha, brincam de escorrega, brincam de gangorra, brincam de pique - esconde. Lembranças.

Por debaixo daquela linha, paralela a um mundo distante, os olhos quase se afogam em um lago. É preciso ter cuidado e equilibrar o olhar naquela linha. Embora de águas calmas, ninguém sabe os perigos que habitam aquelas águas azuladas. Seres fantásticos podem existir ali. E talvez seja em busca desses seres que aquela mulher entrega olhares à varanda. Quase 12h e as piscinas do hotel, que se acabam antes do lago, continuam vazias. Nenhuma criança, nenhuma cena de beijo, nenhum copo carente de sol. Ninguém. ...
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