Daniel Campos
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Encontrados 17 textos. Exibindo página 1 de 2.

Fábrica de rótulos

Apenas uma questão de tempo. Sem maiores cerimônias, conheceremos através dos noticiários televisivos, das capas de jornais, do burburinho das ruas,..., o primeiro clone humano. Alguns irão estourar champanhe, outros ranger os dentes e outros, simplesmente, calar-se-ão. Como proibir experiências científicas, quando a bomba atômica foi "testada" em uma cidade que não era fantasma. Querendo ou não, o clone humano está a caminho.

Não vou discutir o assunto tendo a visão presa às correntes clássicas. Peço licença aos papas e aos cientistas. Abram alas para a polêmica. O fruto proibido ou a glória? Tentarei me despir dos conceitos preestabelecidos e tanger a discussão para o lado que me atrai - o lado humano. ...
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Falatório

O sol ardia e gemia e subia e caia em nossos corpos febris. Um falatório sobre qualquer coisa que não fosse o sol. Ninguém esperava pela lua. Falava-se em mercado, em pesquisa, em credibilidade, só não se falava mesmo das coisas simples da vida. Uma sensação de falta de ar, embora alguns ventiladores ousassem imitar um vento que não existia. Uma gente se aglomerava e se confundia. Parecia que seus passos tinham as mesmas expressões e o mesmo desenho daquele sonho em rascunho. As flores secas queriam dizer algo que não se entendia. As luzes frias embaçavam os olhos que já acostumavam a não ver muito além. ...
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19/09/2008 - Fantasia, alucinação, miragem

Na ponta dos pés e calada, como quem quer aprontar alguma coisa, ela chegou. O relógio, entre voltas e cochilos, marcava três horas da manhã e doze minutos. A escuridão foi o melhor cenário para ela se aproximar sem ser vista. Quando a perceberam, ela já caia solta. Danada como só, pegou todos de surpresa. E o seu sabor foi, antes de tudo, fantasia, alucinação, miragem. E veio trazendo um frescor de camomila. Talvez ela se internasse nos últimos meses entre pés de camomila e agora, despejasse não só o aroma da flor, mas uma candura capaz de suavizar qualquer emoção. Uma candura refrescante, mas de natureza quente. ...
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24/04/2008 - Farta de apelação, a terra tremeu

Ninguém agüentava mais ser bombardeado pela falta de bom senso da televisão aberta, que nos últimos dias, obrigou-nos a engolir uma programação única: o caso Isabella. Vinte e quatro horas por dia a telinha nos mostrava imagens da menina, dos suspeitos, do passo a passo do crime. A notícia, com uma vírgula ou outra a mais ou a menos, se repetia em vários canais e, até mesmo, nos noticiários de uma mesma emissora.

Fizeram do caso, que é uma tragédia de proporções incalculáveis, um circo. Eu lamento profundamente a morte da menina, me revolto com a crueldade humana, mas não quero ser "macaca de auditório" para ficar na poltrona acompanhando milímetro a milímetro do desenrolar desse caso. Não quero compactuar com a teoria: explora-se a dor e banaliza-se o crime. Está claro a tentativa da televisão em transformar o fato em uma novela apelativa, que nos enrola em capítulos mil, só pelo bel prazer de aumentar a audiência....
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27/12/2008 - Farvel

Estou na Groenlândia. Aqui, os blocos de gelo rugem. É difícil diferenciar o que é gelo e o que é urso. O gelo é branco. O urso é branco. O tempo é branco. E tudo é tão frio quão vazio. Por aqui não passa trem, não há florada de ipê, não tem fogueira de São João. No Ártico, o dia parece não acabar nunca. E a noite é um sonho e um pesadelo. E os dinamarqueses ainda tiveram coragem de chamar essa branquidão de terra verde. Onde estão as árvores? Onde estão as plantações? Onde estão as ervas daninhas? ...
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Faz-de-conta nº 2


Queria que chovesse chocolate e que a enxurrada me levasse num barco de papel. Queria que telefone celular cantasse como passarinho, num tom miudinho. Queria que jornal fosse feito de historinhas de ninar. Queria que o trabalho fosse só pra gente grande (e que essa gente grande trabalhasse no que queria ser quando crescesse). Queria que carro tivesse asas e que avião chegasse até os anéis de Saturno. Queria que existisse perfume de bolo de fubá com café de coador de pano.

Queria que toda casa fosse construída nos galhos da árvore e que os cachorros dessem cambalhotas como no cinema. Queria que a vida fosse cor de rosa, azul, verde... e não essa coisa cinzenta que anda por ai. Queria que os heróis e as mocinhas saíssem dos livros e fossem viver seus romances lá na praça. Queria que a fome não passasse de mais uma das tantas abstrações que habitam os discursos políticos. Queria que os gansos passassem no meio da rua, só pra acalmar o trânsito. ...
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18/02/2008 - Febre vermelha

A dengue e a febre amarela fizeram à festa no governo Lula. Mas o número de vítimas desses mosquistos foi pequeno perto daqueles que caíram com a febre vermelha. O mosquito Aedes Escandalits causou uma epidemia, sem proporções, de escândalos.

Não é preciso viajar no tempo para comprovar o poder de destruição desse vírus. Vou me deter apenas aos escândalos desse final de semana. Uma ONG ligada ao PT recebeu R$ 4,6 milhões do governo e não prestou contas. Vale dizer que um dos fundadores desta ONG é o ex-tesoureiro Delúbio Soares....
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08/04/2008 - Feijão com arroz

Eu e você, jardim e flor, céu e lua, barco e mar. Eu e você, chama e luz, arco e cor, andaluz e estrada de amor. Eu e você, sangue e coração, goiabada com queijo, arroz e feijão. Arroz e feijão? Pode parar! Que raios de poesia há nisso? Ora, ora não seja preconceituoso! Por mais que os contemporâneos reneguem, arroz e feijão combinam como ninguém. Será?

Para quem não vive sem essa mistura bem brasileira, uma boa notícia: os cientistas da nutrição acabam de eleger o arroz e o feijão como o par-perfeito. Talvez, o casal do ano, ou melhor, da década ou, melhor ainda, da história. E põe importância nisso, enquanto o arroz é responsável por alimentar mais da metade da população do planeta, o feijão já era utilizado como voto político no Império Romano (um feijão branco significava sim, um feijão preto, não). ...
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Fez-se o colapso

A crise de energia que assola o Brasil é um tema gasto, porém temas só se desgastam quando fazem parte constante do nosso cotidiano e este precisa ser retratado. Falar de apagão é traçar um caminho que leva à mesmice, todavia há sempre um jeito novo para tratar "coisas velhas". É como se várias bocas contassem a mesma história, esta, entretanto, ganha um sabor diferente em cada boca.

Apagão? Pairam dúvidas e suposições enquanto a verdade permanece escondida. Desde o momento em que a crise no setor energético passou a ser mencionada, fez-se o apagão. Ele, infelizmente, ganhou vida própria em nossa realidade. Deixou de ser hipótese para se tornar um corpo concreto. Um corpo feito de watts, racionamento e mistério....
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28/08/2008 - Fim de agosto

Agosto se despede. O mês do agouro, da seca, da loucura se despede nos braços dessa ventania desvairada que lhe é característica. Os ventos de agosto não trazem chuva. Os ventos de agosto não trazem sementes. Os ventos de agosto não trazem bons presságios. Ao contrário, trazem gemidos, arrastar de correntes, portas e janelas que batem sem parar. Há certa tristeza no ar neste mês que nos aproxima do final do ano. Há muito futuro e muito passado, enquanto o tempo presente é tragado por um clima de opulência. Pudera, este mês foi batizado em homenagem ao primeiro imperador romano, César Augusto, que lutou cruelmente pelo poder. Sem escrúpulos e autoritário, agosto, assim como quem lhe deu nome, segue seus dias de guerra. ...
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