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Encontrados 12 textos. Exibindo página 1 de 2.
N'água
Os sonhos de Antonio deram n`água. O casamento de Tereza se perdeu na água. As economias de seu João afundaram n`água. A boneca de Rafaela foi brincar em outras águas. O orgulho de César caiu por água. O bolo de laranja de dona Carmela foi engolido pela água. A canção de seu Oscar desafinou n`água. O vestido de Laura foi levado pela água. A pinga de Atílio virou água. As lágrimas de Mariazinha salgaram a água.
Os latidos de Valente se calaram n`água. Os chinelos de Abigail correram pela água. O desespero de Nelson se misturou n`água. O medo de Clarice cresceu n`água. As histórias de seu Pedro desfolharam n`água. Os peixinhos de Aninha nadaram em outras águas. Os sapatos de Antenor sapatearam n`água. O televisor de Olga só exibiu água. O caldo do feijão ficou só água. O jardim ficou abaixo d`água. O flerte de Leonor acabou em m`água....
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Não acabou
Ando pelas ruas com passos lentos. Embora queira correr, movo-me como se fosse uma animação de um filme. Um filme que só conseguia ser exibido em câmera lenta. Quadro a quadro. Quero fugir de algo que não sei o que é. Todos fugimos de alguma coisa, não importa do que. O que interessa é que fugimos. E nesse momento eu ainda não sei do que fujo.
O céu está cinza. Talvez da poluição ou talvez de nuvens de chuva ou talvez porque deus resolveu acordar de mau-humor, sem nenhuma dose inspiração. Eu estou ansioso. Não consigo me deter em detalhes. O céu não é detalhe, mas... Ando e ando e ando e estou sempre no mesmo lugar....
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Não dá mais para segurar
Ele tinha tudo para se calar. Ele tinha tudo para não dar certo. Ele tinha tudo para ser mais um. Entretanto, venceu. Venceu e ultrapassou os limites da vida. Aliás, foi maior que ela. Tudo começou em 1945, no morro de São Carlos, Estácio de Sá. Nem é preciso dizer que estamos no Rio de Janeiro. Tempos de Getúlio Vargas. A única lembrança da mãe era uma foto amarelada e o medo de morrer tuberculoso como ela. Do pai, conhecia solidão, o abandono, a pobreza do carinho e o nome na certidão de nascimento. Cresceu com dois pais de criação. O menino foi tomando o universo da favela para dentro de si. Menino que soltava pipa e, carregava sacolas nas feiras e, no carnaval, escapulia para a avenida. A música lhe chegara com a forma de samba....
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Não deu tempo
Nuvens grávidas de escuridão. Entre lagos, a esperança vestia as arquibancadas e se misturava à torcida pela chuva. Intimidado, o vento soprava calado diante do ronco dos motores. Eram graves e agudos invadindo os ouvidos. As capas de chuva eram colocadas e tiradas como o ritual de uma dança indígena. O céu de enchia das ameaças de relâmpagos. Mas, por alguma maldição, o deus da chuva foi aprisionado. A previsão dos meteorologistas e as ameaças dos céus estavam demorando demais para vingar. Os olhos nus pediam a ajuda de binóculos para ver se enxergavam algum vestígio de nuvem molhada perdido no horizonte. Rezava-se. Implorava-se. Angustiava-se. Faltavam onze voltas quando ele entrou na reta dos boxes com o pé embaixo. Os olhos de caçador gritaram por aquele ataque cego à curva. De repente, um trovão seco ecoa pelos céus. Uma saída de traseira faz com que todo o azul do FW 116 ficasse de costas para meus olhos nublados. Ayrton Senna não conseguiu esperar pela chuva.
23/10/2008 -
Não existo
Um banco, uma árvore e uma marmita. A comida é fria, como as almas dos que passam por ali. Os carros vão passando em uma orquestra de buzinas. As bicicletas vão passando com suas rodas de aros e raios. Os pedestres vão passando em seu direito de ir e vir. E eu vou ficando, no pano de fundo, no plano do mundo, num pranto vagabundo como personagem coadjuvante de um livro sem fim. Até os pássaros cantam fora do tom que brota em mim. Eu não existo. Eu não existo. Eu não existo.
Entre um bocado e outro, vou feito um operário em construção. O suor no rosto, a fome batendo no coração. Não há mesas, velas, arranjos de flor, só há os dentes roendo e rasgando a carne escura. Os mendigos passam por mim e não me mendigam. Os pedintes passam por mim e não me pedem. As esperanças passam por mim e não me esperam. Os cachorros passam por mim e urinam no meu sapato, borrando a graxa. E a vida passa sem graça. E eu não existo. E eu não existo. E eu não existo....
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11/06/2008 -
Não tenho medo da morte
Fiquei preocupado. O nosso ministro da música, Gilberto Gil, submeteu-se recentemente a uma cirurgia para tirar pólipos de uma corda vocal e a mídia já o especula sobre um possível câncer na garganta. Ele nega os boatos, dizendo que os pólipos eram benignos e está em recuperação. No entanto, depois de onze anos sem nos presentear com um disco de inéditas, Gil o faz falando de morte, da dor, do terror, de buraco negro, do oco do mundo. E sabe qual o nome da música central? "Não tenho medo da morte"....
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Nem mais nem menos
Sem quaisquer cumprimentos, ela vem, como vinha todos os dias, e senta-se na mesa de sempre. Nem perto da porta, nem perto dos pratos quentes, nem perto da parede, nem perto do banheiro, nem perto do balcão de frios, nem perto do garçom, nem perto da cozinha. Em seus traços, um quê de uma Itália abrasileirada. Em seu prato raso, um pouco de alface e cenoura. Como se tivesse um combinado com o garçom, ao sentar-se um refrigerante, que tentava imitar o gosto de uva, já estava borbulhando em seu copo. Emburrada, come da forma mais lenta possível. Parece não ter mais nada para fazer em seu horário de almoço senão mastigar os ponteiros do relógio. ...
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30/11/2008 -
Neve???
Espera aí, estica um pouco mais para esse lado de cá. Quem sabe se eu prender a respiração ou virar um pouco mais o braço esquerdo para oeste. Só mais alguns segundos deste contorcionismo devem bastar. Um, dois, três pulinhos. Pronto. Ficou perfeito, ou quase. Quem mandou comer todas aquelas feijoadas com torresmo. Por pouco essa roupa não entra em mim. Meu Deus, que barriga é essa. Agora só falta colar a barba. Esses pelos fajutos coçam como brotoeja das brabas. E por falar em coceira, essa peruca dá um calor. Calma, Nestor, tudo é questão de costume. Costume? Um sol do tamanho do Maracanã lá fora e eu tendo que andar de luvas, botas e gorro. Eu, reclamo, reclamo, reclamo, mas todo fim de ano me transformo em papai-noel....
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09/07/2008 -
No inferno não há estrelas
O rádio da viatura policial chama naquele conhecido tom de interferência. O que não se poderia imaginar era que o prenúncio de noite anunciado no céu fosse trágico ao ponto de ninguém olhar estrelas. Um dos policiais sufoca o pedal do carro com seu coturno e acelera. O outro pensa no dia horrível que teve e procura o tal suspeito, criminoso, bandido. Pelas ruas da mais carioca das cidades começam a perseguir um carro preto. A sirene grita ora vermelha, ora azul, abrindo caminho naquele final de domingo. De repente, um carro reduz a velocidade e encosta no meio fio. Será que os bandidos iriam se render ou preparavam uma armadilha para os policiais? ...
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28/10/2008 -
No meio da estrada...
No meio da estrada tinha uma vaca. No meio da estrada tinha uma vaca, uma novilha, dois bezerros e três cabritos. Parei o carro para dar passagem àquela pequena comitiva. Os animais sem pressa, batiam os cascos no chão de terra encaroçada. Olhavam para o carro e, acostumados com a civilização, ignoravam a minha presença. Pena que não havia uma máquina fotográfica ali. O registro de um Brasil caipira, de um Brasil de anos atrás, de um Brasil da minha infância ficou apenas no fundo da retina empoeirada....
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