Daniel Campos
Inicio - Serviços - Contato

Linhas

Ou exibir apenas títulos iniciados por:

A  B  C  D  E  F  G  H  I  J  K  L  M  N  O  P  Q  R  S  T  U  V  W  X  Y  Z  todos

Ordernar por: mais novos   título

Encontrados 526 textos. Exibindo página 2 de 53.

16/11/2008 - De bandido a herói e de herói a bandido

Onde será que o pai escondeu meu vídeo-game? Já procurei em cima do armário da cozinha, no velho cofre que perdeu a tranca, na penteadeira da mamãe. Onde será que ele está? Estou de castigo, mas não posso ficar sem jogar. Esses três dias que fiquei longe do controle já fora o bastante. Além do mais, papai não precisa saber. Eu jogo um pouquinho e o escondo novamente, no mesmo lugar. Ele só vai voltar do trabalho no final do dia. Ainda faltam três horas e vinte e oito minutos. É o suficiente para eu matar minha vontade. Para minha sorte, mamãe foi resolver umas coisas na cidade e só vai voltar com ele. É a minha chance. Mas eu estou perdendo muito tempo. Precisava achá-lo logo. Quem sabe no guarda-roupa? Camisas, meias, cuecas, lenços, calças, cintos... Ah! Onde será que ele enfiou meu vídeo-game? Tudo porque eu tirei nota baixa na escola, matei o gato da vizinha, respondi mal aquela minha tia chata. Isso lá é motivo para me deixar sem vídeo-game? Se não bastassem as três chineladas que eu ganhei na perna, a bronca, a cara feia, eu tive que ficar sem uma das coisas que eu mais gosto. Ou seria a que eu mais gosto? Vestidos... não... essa já é a parte de mamãe do guarda roupa. Só se estiver no maleiro. Mas é muito alto. Eu não alcanço. Mas se eu pegar aquela cadeira do telefone e subir nas suas costas pode ser que dê certo. Antes tentar do que ficar sem meu joguinho. Nossa como a cadeira é pesada. Só mais um pouco, deixa-me esticar o braço. Pronto. Nossa! Mamãe vai me matar. Derrubei um monte de toalha, de roupa antiga. Também, estava tudo embolado, apertado aqui. Que bagunça. Depois, vou ter que guardar tudo. Quem sabe se eu procurar um pouco mais. Vou esticar um pouco mais meu braço. Parece que achei algo. Ta enrolado em um pano. É um pouco frio. Será meu vídeo-game? Não. É muito pequeno. Mas o que será? O que é isso. Ai meu Deus, to escorregando. Aiiiiiiiii. Cadeira traiçoeira. Ainda bem que cai em cima da cama. Mas o que é isso? Nossa mãe, isso é uma arma. Papai tem uma arma escondida em casa. Que legal. Jamais pensei que um dia pegaria numa dessas. Deve ser uma pistola automática ou será um calibre 38. Não entendo muito disso não. Deixa só o Diego me ver armado até os dentes. Vai ficar morrendo de inveja. Quero ver o Ricardo vir falar que não posso jogar no time da escola porque sou perna-de-pau. Ah! Posso fazer tantas coisas com essa arma. Nem preciso mais do vídeo-game. Agora eu sou o cara. Vou levá-la dentro da mochila e apontar para cara daquela professora idiota que foi me dedurar para meu pai. Vou acabar com ela. Melhor. Vou dar um tiro para o alto na hora do recreio e todo mundo vai ter medo de mim. Já pensou? Até o Gustavo vai se ajoelhar e pedir desculpas por ter me chamado de rato de laboratório. Só porque não sou forte e bronzeado como os meninos... Mas eles todos vão me pagar. Vou ter que agradecer muito ao meu pai por ter me dado esse presente. E ele não vai sentir nem falta se eu tomar emprestado seu revólver só um pouquinho. Estou me sentindo igual naqueles filmes que passam tarde da noite. Parece que estou ouvindo até mesmo aquela música de suspense. Vou arrepiar geral. Posso entrar naquela loja da esquina e sair de lá com a última geração do vídeo-game que eu quiser. O meu estava ultrapassado mesmo. E depois, posso pegar um monte de refrigerante, chocolate, sorvete... Mandar um taxista lá do ponto da praça me levar para o parque de diversão. Até a Aninha vai curtir esse meu poder todo e deixar o Gustavo de lado. Minha vida nunca mais será a mesma. Olhe eu lá no espelho da penteadeira da mamãe. Estou diferente, mais forte, mais bonito. Parece até que cresci um pouco mais. Virei homem. Só não posso deixar meu pai perceber que estou com o brinquedinho dele. Oh não, estão abrindo a porta. Mas quem será? Ainda não está na hora de meus pais chegarem. Será ladrão? Mas por que estou com medo? É só atirar e pronto. Vou ser herói. Vou matar o bandido que queria roubar a nossa casa. Meu pai vai me perdoar por tudo e ainda vai me colocar no colo, vai gostar de mim. Basta eu ficar calmo, apontando para a porta e esperar o momento certo. Quando a porta abrir, dou logo uns três tiros para não ter como errar. Os passos estão mais perto. Estão chegando. É um, é dois, é três... Nunca atirei, mas não deve ser difícil. Já fiz tanto isso no vídeo-game que devo estar craque. Basta pensar que é mais um daqueles carinhas do jogo que eu tenho que matar para passar de fase. Eu sei fazer isso. Eu posso. Eu consigo. E eu preciso mudar de fase. Atenção. A porta está abrindo. O suor escorre pela minha testa. Começo a tremer. Fecho os olhos e disparo. Um disparo, dois disparos... e antes do terceiro, um grito conhecido. Como é que o bandido fez para ficar com a voz do meu pai? Pausa. E agora? Estou entre o terceiro tiro e o abrir dos olhos. ...
continuar a ler


Comentar Seja o primeiro a comentar

18/09/2008 - À beira da jabuticabeira

No fim de um caminho de pedras arrebitadas, por entre um pé de primavera e espadas de São Jorge, eis uma jabuticabeira. No correr de suas galhas, um único exemplar da negra fruta. Minhas mãos pedem licença ao dono das frutas, que não estava por ali, e apanham a jabuticaba. Tão logo a possuo, minha boca se transforma em um engenho, tirando todo o doce daquela espécie de açúcar do desejo. Os olhos procuram, reviram, vasculham e nada de encontrar outras bolinhas-de-gude penduradas naquela árvore de traços infantis. Só havia aquela que já percorria os sulcos de meu corpo provocando divinas reações químicas, físicas, psíquicas. ...
continuar a ler


Comentar Seja o primeiro a comentar

A capital do átimo ou o átimo da capital

Num átimo, os alísios desviam as naus com 1.500 descobridores comandados por Cabral. Num átimo, línguas portuguesas e tupis se misturam num mesmo beijo. Num átimo, a Ilha de Vera Cruz se veste de Terra de Santa Cruz que se tranveste de Brasil numa quadrilha à moda de Drummond. Num átimo, JK se sente desafiado a erguer a capital federal em pleno cerrado. Num átimo, Niemayer rabisca Brasília. Num átimo, a capital ganha as asas de um Lucio sem acento. Num átimo, os fabianos, sinhás vitórias e baleias de Graciliano Ramos se encontram com os severinos de João Cabral. Num átimo, suor e esperança na mesma argamassa da Esplanada. Num átimo, o concreto se alastra. Num átimo, malandros de contrato, gravata e capital, que nunca se dão mal. Num átimo, os poetas simétricos não rimam árvores tortas com praças de pedra. Num átimo, as flores do cerrado são colhidas nos camelôs da Catedral, onde, num átimo, encena-se um balé de anjos suspensos e propensos a milagres. Num átimo, o general Costa e Silva revira pelo avesso as bacias mais democráticas do país. Num átimo, o irmão do Henfil parte num rabo de foguete. Num átimo, gregos e troianos deixam-se levar pelo romantismo brega chick das fontes da Torre. Num átimo, estrelas salpicam e incitam e suscitam olhos candangos. Num átimo, o lago Paranoá vira praia, mar, oceano e se deixa povoar por biquinis, varinhas de bambu, jet sky, velas e barcos de néon. Num átimo, turistas se perdem no labirinto das tesourinhas. Num átimo, centenas de pessoas invadem seis pistas de piche, com tênis, cachorros, bicicletas, patins, velotróis e celebram o domingo. Num átimo, sol e lua flertam-se, olhos nos olhos, no céu esgarçado de Brasília. Num átimo, saboreia-se o churrasquinho de gato ou o frango esfumaçado das entrequadras. Num átimo, Dom Bosco é uma profecia, uma visão, um santuário. Num átimo, os fossos dos palácios se transformam em espelhos d?água. Num átimo, a torre Eiffel se transforma na Torre de TV. Num átimo, os jardins suspensos da Babilônia ganham à assinatura de Burle Marx. Num átimo, as pirâmides do Antigo Egito se transformam num templo ecumênico. Num átimo, Garrincha vira um estádio de arquibancadas tortas. Num átimo, a Catedral se transforma num feixe de trigo. Num átimo, o Paraguai cabe numa feira. Num átimo, três arcos olímpicos abraçam a terceira ponte. Num átimo, para se chegar a Villa-Lobos é só descer as escadas do Teatro Nacional. Num átimo, a Praça dos Três Poderes ganha a simbologia e a hemorragia das pombas. Num átimo, zebrinhas vermelhas cortam a cidade. Num átimo, o vocabulário ganha verbetes cartesianos: SQS 400, QL 2, CLN 115, SCS, SDN, SHLN, MI 3, SRTVS, SIA. Num átimo, Brasília se torna fria lírica úmida distante de uma forma tão atimica. Num átimo, crianças brincam debaixo do bloco. Num átimo, amoras, mangas, acerolas, goiabas e tamarindos perfumam as quadras. Num átimo, o amarelo e o roxo dos ipês roubam à cena do branco de Niemayer. Num átimo, comemora-se a primeira chuva de setembro. Num átimo, invasões de luxo e de miséria. Num átimo, a estrutura do pós-modernismo se quebra nas quebras da Estrutural. Num átimo, Glauber Rocha, Pedro Almodóvar e Frederico Fellini caminham pela Academia de Tênis. Num átimo, foliões colecionam bocas na micarecandanga. Num átimo, a W3 se transforma em L2 num grande circular. Num átimo, corpos submergem e imergem em piscinas de água mineral. Num átimo, nasce uma lei e um fora-da-lei. Num átimo, o vermelho do pau-brasil mancha o chão do Areal e as curvas do Blue Tree Alvorada. Num átimo, Ceilândia e Cinelândia se confundem. Num átimo, cidades deixam de ser satélites para serem planetas. Num átimo, alguém ama e mata em um setor, seja comercial, bancário, de hotéis, de mansões, de autarquias, de diversões ou de indústrias gráficas. Num átimo, come-se tapioca, pastel, pato no tacupi, vatapá, bombom de cupuaçu e algodão-doce na mesma feira. Num átimo, o Brasil passa a ser a capital de Brasília. Num átimo, a solidão nos cerca. Num átimo, a equação distância/ tempo se materializa e tem-se a impressão de que os alísios do Paranoá trarão a esquadra de um novo Cabral. Num átimo, novos descobridores da capital do átimo ou do átimo da capital....
continuar a ler


Comentar Seja o primeiro a comentar

22/06/2008 - A cinderela e o bêbado fulano de tal

São três horas da manhã. A cidade dorme. E pelas ruas, um bêbado fulano de tal caminha com uma sandália nas mãos à procura de sua cinderela. Ó noite fria! Ó busca bela! Como soluços compassados, os carros passam com faróis atordoando os olhos já atordoados do bêbado que tropeça sem chapéu e sem bengala por linhas que a cigana charlatã não dá conta de ler. Não, não era Chaplin ou qualquer outro personagem famoso de cinema ou teatro. Era um astro das calçadas, mas não passava de um anônimo fulano de tal com a promessa de um romance nas mãos....
continuar a ler


Comentar Seja o primeiro a comentar

08/06/2008 - A extinção das cartas

Estou a ler um livro de cartas enviadas e recebidas por Vinícius de Moraes, organizado por Ruy Castro. Cartas escritas para a família, para os amigos, para as mulheres amadas. O livro foi um presente de meu pai. Trouxe-o comigo do nosso último encontro há quase um mês e, por diversas vezes, já o visitei. Debruçado sobre este livro, descobri que o mundo perdeu muito com o advento do telefone, da internet e de outros meios de comunicação do chamado tempo moderno. Não vou citar números, para não deixar o texto um daqueles relatórios chatos, mas as cartas foram praticamente extintas de nosso cotidiano. ...
continuar a ler


Comentar Seja o primeiro a comentar

17/08/2008 - A extinção do brasileiro vencedor

Brasileiro só aceita título se for de campeão, e eu sou brasileiro! Embora eu pense exatamente assim, essa frase não é minha, mas do tricampeão mundial de Fórmula-1, Ayrton Senna. No entanto, essa frase perdeu o sentido ou, melhor, a prática. Nas Olimpíadas de Pequim os atletas tupiniquins estão felizes da vida com seus excelentes maus resultados. O que tem de verde-amarelo radiante por estar entre os últimos não é brincadeira. Será que Freud explica o contentamento de estar abaixo da expectativa? ...
continuar a ler


Comentar Seja o primeiro a comentar

04/08/2008 - A geração do caos

Seja em casa, no trabalho, nas ruas, o mundo está cada dia mais sem educação. E qual a causa dessa explosão de modos condenáveis? Embora possa parecer loucura, a verdade é que o respeito perdeu em muito com a explosão de direitos. A própria base familiar foi destruída. Hoje, pai e mãe têm que obedecer aos próprios filhos, sob risco de morte. Filho pode tudo. A todo instante, leis e regras podam o poder de educação dos pais. Os jovens aprendem de forma muito mais fácil o caminho da delegacia do que o da escola. Afinal, é mais fácil protestar em favor da liberdade que o mundo lhe confere do que aceitar uma suposta disciplina. ...
continuar a ler


Comentar Seja o primeiro a comentar

09/09/2008 - A guerra é genética

A palavra paz cai muito bem em livros históricos e religiosos. Porém, quando o assunto é vida real ela se torna abstrata como uma montanha de sorvete de passas ao rum no meio do deserto do Saara. Aqui e lá, ali e acolá, a espécie homo sapiens está sempre inventando um jeito de desestruturar o já tão desestruturado estado de paz vigente no mundo. Seja nos relacionamentos de casal ou, de família ou, de vizinhos ou, de estados ou de países há sempre uma pré-intenção de briga. Ao contrário do barro, somos feito de pólvora e adoramos riscar um fósforo no pavio alheio. ...
continuar a ler


Comentar Seja o primeiro a comentar

A humanidade precisa ser humana

Filhos matam os pais motivados por paixões adolescentes. Crianças brincam de mocinho e bandido lado a lado com traficantes. Negros ainda são vistos sob os olhos do preconceito. Casebres se equilibram nos morros. Mulheres continuam vítimas de um país machista. Mãos se espalham e até competem nas calçadas em busca da sobrevivência. Infelizmente, essas não são cenas vistas apenas nas telas do cinema.

Enquanto os primeiros artigos da Constituição Brasileira de 1988 defendem a igualdade de direitos para os cidadãos e o exercício da liberdade, a realidade se manifesta de outra forma. A fome e a violência são duas provas de que os sonhos dos discursos se perdem numa vida sem maquiagem. Terras a se perder de vista e uma multidão de famintos. As pessoas que brincam juntas no carnaval são as mesmas que se matam na próxima esquina. Frente ao enorme contraste social, a vida dos discursos é esquecida. ...
continuar a ler


Comentar Seja o primeiro a comentar

07/07/2008 - A ilusão do carro na tomada

O TwinDrive Golf, carro elétrico apresentado pela Volksvagem, em Berlim, virou rapidamente manchete nos principais jornais do mundo. Pudera, vivemos o pavor do fim do mundo de modo que qualquer novidade positiva parece reacender a luz no final do túnel. No entanto, carros elétricos não são, propriamente, novidades. O primeiro carro elétrico foi construído em 1837. O que fez essa idéia não vingar durante esse tempo todo ainda é mistério. Mas pode ter certeza de que passa pelo forte lobby em torno do petróleo. ...
continuar a ler


Comentar Seja o primeiro a comentar

Primeira   Anterior   1  2  3  4  5   Seguinte   Ultima