Daniel Campos
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Encontrados 526 textos. Exibindo página 4 de 53.

18/12/2008 - A política do dito pelo não dito

Palavra dada deve ser cumprida a qualquer custo. Eis um legado que forjei junto ao meu avô em anos de convivência. Cumprir o que foi dito é mais do que uma obrigação, é um motivo de honra. Se eu digo que vou estar em algum lugar tal horário, pode ter certeza de que estarei lá minutos antes, vivo ou morto. Se eu digo que vou fazer algo, fá-lo-ei nem que isso me prejudique por inteiro. Assinaturas, fiadores, gravações não têm o mesmo valor de uma palavra empenhada. No entanto, nesse caos chamado sociedade moderna, o que impera mesmo é a política do dito pelo não dito....
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06/12/2008 - À procura de uma ama-seca

De camisa listrada, sem levar canivete no cinto ou pandeiro na mão, saí por aí. Também não bebi chá com torrada, tampouco tomei parati. Mas escutei muita gente dizendo: "sossega leão, sossega leão". Pudera, como ficar calmo diante de um mundo que virou de ponta-cabeça? Você pode ainda não ter reparado, mas tem acontecido de tudo ultimamente. É como se o grão-vizir tivesse decretado carnaval por tempo indeterminado e ninguém estivesse nem aí para nada nem ninguém. Não é a toa que um cabeludo gritou: "todos estão surdos". ...
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10/07/2008 - A revolta dos ratos

Não imaginava que as prisões de ratos banqueiros, ratos políticos, ratos mega-investidores, ratos adpetos das Ilhas Cayman iriam despertar a fúria de roedores pelo mundo afora. Até na terra de Hollywood, esses mamíferos estão revoltados. Eis que, caro leitor, uma multidão de ratos, praticamente uma facção criminosa e com alto poder de destruição, rumou determinada a invadir o trailer de uma mulher, de 43 anos, no norte da Califórnia. Talvez quisessem comida, espantar o frio, tomar um drinque, ter uma noite de amor em uma cama macia ou, simplesmente, vingar a operação que colocou atrás das grades alguns de seus amigos brasileiros. ...
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A tarde em um porta-retrato

Devagar, a tarde desliza nos confins do horizonte e sem atrasos, surge você. Surge sem escândalos, sem avisos, sem maiores explicações. Você (apenas) surge e a tarde se encarrega de acontecer. Você (apenas) surge e a tarde deixa de lado o que estava por fazer. Você (apenas) surge e a tarde passa a depender dos seus cabelos.

Se surgir com os cabelos soltos, as canções irão adormecer, lentamente, nos fios da ilusão. Canções inéditas. Canções de improviso. Canções que duram o tempo do seu passar. Os fios soltos no ar como pinturas abstratas. Os fios soltos no ar como caminhos ainda não descobertos. Os fios soltos no ar como riscos de giz. Pinturas sem nome. Caminhos sem volta. Riscos sem destino. Os fios dos seus cabelos e os fios de um destino ainda não traçado. ...
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15/04/2008 - A televisão não conseguiu voar

Pronto! Agora estou mais aliviado. Tirei um peso da alma. Não sabia que o fato de jogar a televisão pela janela me faria tão bem. Já estava ficando angustiado, nervoso, depressivo. Sou jornalista, mas não suporto o jornalismo da repetição. Ouvir uma vez já basta. Se nem filme de ficção eu suporto ver à exaustão, o que dizer de um pedaço de realidade. Isso sem falar que esses pedaços são crus e totalmente indigestos.

O caso dessa menina que foi assassinada e jogada do sexto andar de um prédio foi a gota d'água. Dia e noite, noite e dia, os telejornais só falam nisso. Uma verdadeira tortura para a família, para os amigos e para milhões de meros telespectadores como eu. Entrevista com mãe da vítima, com avô da vítima, com delegado, com procurador, com porteiro, com vizinho, com tia... chega!!!!!!! ...
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16/10/2008 - A totalidade caiu em desuso

De convulsões econômicas a uma nova mutação de répteis surgida em um povoado perdido na Oceania, eles dominam como ninguém. Ou, ao menos, dizem que entendem. Querem ser cientistas, filósofos, presidentes, reitores e até técnicos de futebol. E nem é mais preciso ter uma longa barba grande para fazer parte do clube de entendidos. O que era uma ordem de anciões virou uma legião de palpiteiros sem idade, sexo e endereço. Palpite para lá, palpite para cá, e o tico-tico está comendo todo o meu fubá.
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31/07/2008 - A vida seria blue

Concentre-se. Elimene de sua cabeça o desnecessário. Todas aquelas informações que você assistiu no último telejornal, todas as pendências do trabalho, todas as dívidas ativas ou inativas, todos os medos que lhe assombraram na última noite... Jogue tudo fora. Deixe sua mente vazia. Sinta seu coração pulsando por todo seu corpo. Não se preocupe em contar as batidas, apenas sinta-as. E vá se entregando aos sons e cheiros do espaço sideral.

Agora, imagine-se entrando em uma nave. Seu assento é confortável, o banco reclina e permite até um cochilo. O barulho do lançamento e aquela fumaça toda ficaram para trás assim como o aceno daquela pessoa especial, que você tanto gosta. Tire o cinto e note que a gravidade começa a faltar. Faça cambalhotas pelo ar. Respire fundo e olhe para o lado de fora. Ao alcance de seus olhos, meteoritos, poeira espacial e filhotes de estrela chorando luz. O azul do céu ficou negro como o infinito. O sol está mais próximo. Sinta o calor e tome uma daquelas pílulas sabor churrasco. ...
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Abacateiro

Lá no sítio, no terreiro da primeira casa de um recém-casal, um abacateiro é testemunha do casamento que completa hoje cinqüenta anos. Há 50 anos, um casal chegava de mãos dadas naquela terra vermelha, onde casariam seus destinos, suas lutas, suas vidas. Nesses 50 anos, quantos galos cantaram pra eles a chegada de um novo dia. Quantas valsas seus corpos rodopiaram ao longo desses 50 anos. Quantas roupas foram colocadas pra quarar. Quantos almoços foram feitos em plena madrugada. Quanto de suor foi derramado por esses rostos. Ao longo desses 50 anos, quantas vezes esses lábios choraram e esses olhos sorriram. Quantos sonhos queimaram à luz de um lampião. Quantas vezes a égua Faísca os levou pela estrada afora. Quantas plantas, quantos animais, quantas pessoas fizeram parte de suas vidas ao longo desses 50 anos. Quantos foram os encontros e quantas foram as despedidas. Quantas dificuldades, quantas saudades, quantas vontades se misturaram ao longo desses 50 anos. Quantas vidas germinaram dessas mãos no decorrer desses 10, 20, 30, 40, 50 anos. A cada novo ano completado, uma nova semeadura, uma nova floração, uma nova colheita. Quantos dias nasceram, lado a lado, por entre o ubre das vacas. Quantos dias anoiteceram, lado a lado, na brasa do fogão. Quanta fé, quanta devoção, quanta reza ao longo desses 50 anos. Assim como o tronco daquele abacateiro, as mãos que agora recebem as alianças de bodas de ouro guardam marcas que o tempo não conseguiu esquecer. Mãos de Liberato e Adélia. Mãos de seu Líbio e dona Délia. Mãos de trabalhadores que cuidam da roça e cuidam da casa. Mãos de vencedores que cuidam dos filhos, dos netos e agora, de um bisneto. Mãos de sonhadores que cuidam um do outro, num amor à moda deles. 50 anos depois, mesmo com os galhos mais retorcidos e com as folhas mais desbotadas, aquele abacateiro oferece seu tronco para que a vida escreva ali mais uma página da história de ouro de um casal feito de terra, de esperança e de amor.


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29/12/2008 - Abelharuco

Lá vem o abelharuco-europeu tingindo o céu no seu colorido. Tem uma coroa marrom-avermelhada. Tem uma máscara preta. Tem um peito turquesa. Tem penas na garganta cor de sol entardecido. Lá vem ele tão lindo quão cruel. Para lhe valer o nome, come da abelha não o mel, mas o seu veneno. Lá vem o assaltante das colméias. Corram abelhas, corram do abelharuco, corram ovelhas, corram para ver o céu colorido de abelharucos. Abelharucos da Espanha ao Cazaquistão.

Lá vem o abelharuco da primavera enamorando o abelharuco do verão criando os filhotes e uma outra coloração. Lá vem o abelharuco à procura de colméias. Caçando abelhas e se esquivando do falcão e atravessando o estreito de Gibraltar. Lá vem o abelharuco espanhol acasalando com a fêmea africana, lá vem o abelharuco húngaro amando a italiana. Lá vem a jovem ave na contradança mais colorida dos céus buscando amores, parceiros e o amor para alimentar sua sede fel. ...
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07/09/2008 - Abracadabra

- Respeitável público, com vocês o maior espetáculo da face da Terra, o inacreditável, o incomparável, o insuperável palhaço Abracadabra.

- Ei, seu apresentador, Abracadabra é nome de mágico e não de palhaço!

- Senhoras e senhores, queiram desculpar a intromissão do moleque de camiseta amarela ali da terceira fila. Ram-ram... Com vocês o inacreditável...

- Chega de embromação e chama logo esse palhaço!

- Mas não é possível?!

- Abaixa aí seu Oswaldo, que eu vou jogar esse tomate maduro na cara desse apresentador sem graça! ...
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