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Encontrados 526 textos. Exibindo página 6 de 53.
07/04/2008 -
Amor engarrafado
Antes de qualquer naufrágio ou sufrágio, ela amanheceu tão límpida. Dava pra ver, no seu olhar, as conchas de um mar azul que já não há pras bandas do sul. Quanta luz naqueles dois portais dispostos em cruz, que me levam como um veleiro pro lado de lá de um tempo que eu sabiá não sabia e, como uma vela ao vento, em sentimento ia.
Eram corais vermelhos de pudor e eram cardumes de desejos e galeões afundados em segredos. Ah! Tudo era cor, tudo era paz, tudo era flor a flor da pele. Sua boca se quebrava nas ondas da minha boca de areia e tudo era sol, tudo era sal, tudo era sereia em mi-bemol. E nós dois entregues às correntes marítimas, torrentes de vontades íntimas....
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26/09/2008 -
Amor esotérico
Eu vejo você no fundo da bola de cristal. Eu leio seu corpo na borra do café. Eu aposto nesse amor nas cartas de tarô. Eu me interno nas fendas dos seus búzios. Eu me desenho na conjunção de seus astros. Eu me banho em suas ervas. Eu me exorcizo em seus cristais. Eu sigo seu perfume, incenso solto pelo ar. Eu danço em passos indígenas, tupi, pataxó, karajá, em busca da sua chuva. Eu chego a alfa, beta, ômega em seus braços. Aos seus ouvidos, repito o mantra: te amo, te amo, te amo...
Eu me atiro às linhas da sua mão. Eu tento ser o seu anjo da guarda. Eu me insiro em seus sonhos. Eu apelo às simpatias para lhe ter perto e mais perto e mais perto. Eu queimo em vela para arder ao seu lado. Eu pergunto para o espelho mágico sobre seu paradeiro. Eu coloco a nossa sorte dentro de um biscoito chinês. Eu amo seu paraíso, seu purgatório e até seu inferno astral. Eu amarro você num trabalho sem volta. Eu consulto o oráculo e sigo seus passos. A cada noite, eu giro no ciclo da lua e desvendo-lhe bela e nua. ...
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03/12/2008 -
Andar sobre brasas
Hoje é seu aniversário. Talvez o mais dolorido de todos eles. Fica difícil lhe dar os parabéns e comemorar algo diante de uma perda tão recente. Definitivamente, hoje vai faltar o abraço de sua mãe. Aliás, hoje vão faltar todos os abraços que não foram dados em momentos bobos. Hoje vai faltar uma felicidade que escapou de suas mãos como um passarinho. Ah! De fato, ela morreu como uma ave. Por maiores os golpes, ela jamais deixou de abrir as asas e, mais do que voar, tentar salvaguardar o mundo sobre elas. E você sempre fez parte deste mundo. Hoje você vai sentir vontade de dar o primeiro pedaço de bolo para uma pessoa que, pela primeira vez, não vai estar presente em sua festa. Hoje vai ser tarde demais para muitos desejos......
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Ano novo, velhos sonhos
As borbulhas mergulhadas no interior das garrafas de champanhe guardam segredos inconfessáveis, ao menos, num primeiro momento. Não são simples bolhas de ar com uma densidade diferente. São guardiãs de sonhos que só podem ser realizados no instante em que a rolha é expulsa e as borbulhas se tornam livres da prisão da espera. Não é para menor encanto. Um jantar com a pessoa amada, o nascimento de um filho, a concretização de um grande negócio, enfim, em datas raras e ocasiões especiais, quando os sonhos se tornam de carne e osso, o líquido espumante se faz presente. Entretanto, numa dada época, a magia do champanhe se torna ?comum? e as borbulhas se multiplicam entre tantas promessas....
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28/12/2008 -
Antes de morrer
Antes de morrer, quero viver-te apenas mais uma vez. Antes de morrer, quero andar no teu barco de papel pela enxurrada. Antes de morrer, quero escrever em minha lápide o último verso deste amor que não finda. Antes de morrer, quero me entregar a essa doença incurável chamada sentimento. Antes de morrer, quero balançar em uma estrela. Antes de morrer, quero roubar-te mais um beijo. Antes de morrer, quero saltar de asa-delta sobre o teu céu. Antes de morrer, quero me enrolar em seus cabelos e fincar as unhas em suas costas para que ninguém me leve de você. ...
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22/10/2008 -
Ao seu passo, a poesia vai longe
Ao seu passo, a poesia vai longe. A viagem mais longa parece ser quando ela deixa o interior de mim para ganhar o papel. No entanto, as palavras não param de correr mundo, nem mesmo depois de serem tatuadas em uma folha em branco. Dia desses, elas foram ao Rio de Janeiro, em plena tarde de sol. Pertinho da princesinha do mar Copacabana, do Cristo Redentor de braços abertos sobre a Guanabara, do cruzamento da Tom Jobim com a Vinícius de Moraes, elas foram parar na boca de Leda Nagle. A apresentadora do Sem Censura, exibido pela TVE Brasil, leu, ao vivo, uma crônica que há tempos escrevi sobre o cotidiano que a cerca. ...
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04/09/2008 -
Aqüífero
Além de brotar das minas, a poesia deveria sair das torneiras. Além de regar as plantas do jardim com uma boa prosa, já imaginou se ensaboar com versos que, pouco a pouco, impregnariam por todo o corpo? Ah! Mais do que cremes e outros cosméticos, a pele precisa de palavras. Muitas vezes o problema maior é a alma ressecada, mas nada que uma boa hidratação a base de estrofes sentimentais não resolva. As dores nas costas, o cansaço mental, a depressão - esses e outros males cotidianos seriam curados após a ingestão diária de copos de Quintana, Drummond, Vinícius, Pessoa... E isso não é simpatia, é medicina poética. ...
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15/08/2008 -
Arara Azul
A tara da arara azul é o céu de papel blue. O gingado do lado de lá da capoeira levantou poeira de cá. Ôo arara voou e a baiana suburbana arrastou a saia e deu um passo de arraia, que foi quebrar lá na praia da gandaia. E a arara azul voou no ritmo do pandeiro. Eê eu sou brasileiro. Tem povo guerreiro lá na minha aldeia. Ôo incendeia, é lua cheia. Ôo clareia, é rua de meia.
Lá na minha tribo, a vitória é régia, a história é prévia e o homem alado do sul é considerado inimigo da arara-azul. O pajé já perdeu a fé. O cacique usa aplique. E a índia de cá se deita pra lá do atlântico sul. Tem fitinha do Senhor do Bonfim no rosto do moço e pintura de carmim na louça da moça. A minha terra que tinha palmeiras, hoje tem clareiras e o frevo das madeireiras corre solto pelas ladeiras. ...
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Arrozal
Os cochichos de ave-maria se misturam ao ensaio do coral. As ministras, longe da Esplanada dos Ministérios, escolhem quem vão fazer as leituras, carregar as velas, o pão, o vinho, os cestos da oferenda... Os fiéis entram, ajoelham-se, benzem-se e rezam alguma coisa rápida. Depois dessa reza, ela senta-se e espera pelo início da missa. Ao deixar a mão cair sobre o banco de madeira, tateia alguns grãos de arroz. Arroz sem casca e sem cozer.
Grãos de arroz crus. Se juntasse o arroz daquele banco e o que estava no chão, certamente daria um punhado. E ela, sozinha ali, põe-se a imaginar. O tapete vermelho. A chama dos lustres, das velas, dos olhos. O arranjo dos copos de leite ou dos lírios de São José, como bem desejar, ao longo de um caminho tão perto quão longínquo. O vestido da noiva e a longa cauda, que arrastava levando os olhares de tantos. Ela, de braço dado, com o pai, que fizera questão de colocar seu melhor terno. Ela caminhava vendo rostos se misturarem, a emoção não dava para capturar detalhes. Quem estava ali de fato, ela só saberia na fila de cumprimentos ou no álbum de fotografias. ...
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11/03/2008 -
Assédio moral é imoral, ilegal e engorda
A escassez de emprego no mundo atual e, portanto, a necessidade de estar empregado faz com que o trabalhador seja obrigado a suportar situações diárias de constrangimento, de ofensa a sua dignidade, de discriminação ideológica, racial, social e sexual e, até, de tortura psicológica. Essa combinação de "humilhações", em doses homeopáticas, é o cimento para a arquitetura sombria do assédio moral. O que era um problema no trabalho, passou a ser questão de saúde pública.
No decorrer desta lenta tortura, surgem sintomas nada agradáveis: estresse, crises de choro, hipertensão arterial, perda de memória, dores generalizadas, insônia, distúrbios digestivos, falta de ar, ganho de peso e, sobretudo, depressão. Temendo perder o emprego, os trabalhadores se enclausuram dentro de uma bolha de frustração e medo, passando a sofrer de um sentimento de inutilidade. ...
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