Daniel Campos
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Encontrados 21 textos. Exibindo página 2 de 3.

Depois do apocalipse

Leões e lobos passeariam pelas principais avenidas da cidade como cidadãos comuns. Árvores romperiam à cerâmica e cresceriam dentro de nossas casas e ganhariam os ninhos das aves mais inusitadas. Sapos e jacarés infestariam as lagoas dos parques municipais. Monumentos, como o Cristo Redentor, seriam cobertos por alguma vegetação mais forte ou se esfarelariam como biscoitos nas mãos de uma criança. Os rostos dos presidentes dos Estados Unidos esculpidas em Rushmore seriam apagados. Caros leitores, não se assustem, afinal essas cenas não são do apocalipse. Elas são de depois do apocalipse....
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Desculpas

Peço desculpas. Desculpas por lhe amar demais. Desculpas por esse sentimento extravasado. Juro que o tentei controlar, mas foi tudo em vão, a situação fugiu das minhas mãos. Desculpas por ter trocado a minha vida pela sua vida. Desculpas pelos tantos olhares divagantes que lhe lancei sem sequer perceber. Desculpas pelas vezes em que velei a sua imagem no silêncio da insônia noturna. Desculpas por achar que em algum momento eu tinha razão. Desculpas por fazer da nossa amizade algo que você não tinha conhecimento. Desculpas pelos lábios que em sonhos deslizavam em sua boca. Desculpas pelos sonhos, que foram tantos, mais que tantos. ...
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04/04/2008 - Deus e o diabo na barbearia

"Quem é o diabo?" Em barbearia se escuta de um tudo, em se tratando de conversa fiada, mas essa pergunta, a queima roupa, surpreendeu-me. O dono do estabelecimento, um senhor de um longo topete grisalho, solta essa pergunta e, diante do silêncio do salão, responde a si próprio dizendo que o diabo é apenas um espírito não evoluído.

Em contrapartida, seu cliente, um negro de calça branca de linho e meias vermelhas, garante que não. Para ele, o diabo só perde no quesito evolução para Deus. Porém, de comandante-mor dos anjos de luz, tornou-se o chefe dos anjos das trevas. Enquanto prosseguiam a discussão, preferi ficar calado na cadeira ao lado. ...
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Dezembro mogimiriano

Dezembro. Ando pelas ruas de Mogi-Mirim. O trânsito ainda me causa estranheza, mas, quiseram assim. A cidade se enfeita timidamente. Por enquanto, alguns papéis metálicos coloridos e dependurados em algumas ruas do centro ditam a decoração (que está mais para fevereiro, ou seja, carnaval). Dizem que a aparência de uma pessoa reflete o seu "eu" interior. Talvez a decoração "apagada" da cidade seja o reflexo da sua administração.

E não é só a cidade (espaço físico), os mogimirianos (por hora, não vou falar em Brasil para não aumentar o drama) também estão desanimados. Ando e não vejo enfeites natalinos nas casas. E os que existem são tão tímidos quanto aos que são espalhados pela cidade. As vitrines das lojas passam despercebidas aos olhos que desejam a beleza de outros natais. Pelo ritmo atual, o clima deste natal promete deixar a desejar se comparado com o visto durante a última eleição. E olha que por aqui a campanha eleitoral foi quase nada....
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Diário de um super-homem às avessas

Sei horas da manhã. Não há galos que cantam, relógios que despertam... Só há um corpo que se levanta forçado pelo hábito. Lá esta ele, olhando os cantos da casa. Cada bibelô, cada grão de poeira, cada metro de chão ou de parede. Esfrega a mão na cabeça do filho pequeno entregue ao sono, por entre os cabelos, como quem faz uma prece. Uma prece para ninguém escutar. Toma um gole amargo de café. Apanha uma sacola, a mesma de todos os dias. Passa em frente da imagem de uma santa, benze-se. Olha para os olhos fundos da mulher, por alguns segundos estáticos. Olhos que se dão como duas estátuas. Um beijo leve. Um beije breve. Um beijo e mais nada. Faz tudo sempre igual. Abre a porta, o rangido de costume, com a mesma testa franzida, nervosa. Faz tudo como se fosse pela última vez. Ela diz para ele se cuidar. Ele engole seco e sem coragem de olhar para trás, sufoca o adeus....
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13/02/2008 - Divórcio já!

Entre a decepção e o ódio, nasceu um estado de choque. Pudera, foram séculos de uma traição diária. Ela não se perdoava. Para piorar, seus olhos estavam marejados de um choro obeso. De repente, quis sair correndo, pular do 10º andar, comer açúcar de colheradas, quebrar a tela do computador onde soubera de tudo.

Ao contrário de poetizar a beleza, ela era adepta de sua padronização. Era mais uma vítima da ditadura da balança. Para alcançar as "medidas ideais", mergulhou fundo em uma vida dietética. Riscou a glicose de seu cardápio e se entregou de corpo e alma aos adoçantes. Em gotas ou em pó, eles foram seus mais fiéis companheiros. ...
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31/10/2008 - Doces ou travessuras

Um antigo celta disse-me para tomar cuidado. Com a barba por fazer e um sotaque inglês, contou-me um segredo. Na verdade, uma antiga lenda de seu povo. Segundo ele, no dia 31 de novembro, véspera do Dia de Todos os Santos e antevéspera do Dia de Finados, todos os que desencarnaram ao longo do ano vigente descem a terra à procura de corpos vivos. O propósito está em encontrar um corpo para invadir e usar pelo próximo ano.

Eu ri e ele fechou a cara, já fechada, dizendo que essa era a única forma de haver vida após a morte. A receita para não ser possuído era um tanto esdrúxula, mas dava resultado. Na noite do dia 31, é bom apagar todas as luzes de sua casa. Quanto mais fria e sem graça ela estiver, melhor para afastar os mortos. Para completar, coloque fantasias de monstros e saia pelas ruas fazendo muito barulho, na tentativa de assustar os espíritos. ...
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Dois dedos de prosa

Fim de tarde. Fim de inverno. Fim de campanha eleitoral. Toca o telefone. Do outro lado, uma voz frágil e, ao mesmo tempo, forte:

- Daniel?!

- Sou eu...

- Não reconhece mais a voz do irmão do Henfil?

- Não acredito... Betinho! É você? Quanto tempo!

- Pois é, quanto tempo!

- Hummm deixe-me adivinhar. Você me ligou para dizer, em primeira mão, que graças a sua intervenção aí em cima, o todo-poderoso vai fazer um milagre e acabar com a fome....
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Domingo de champanhe

Hoje é domingo, mas e daí? Ontem foi sábado e amanhã será segunda, depois virá a terça, a quarta... Domingo, nada mais do que um dia qualquer. Porém um pouco mais triste, mas nada que o afaste do comum. Triste? Comum? Ninguém (ou quase ninguém) trabalha, as camas são arrumadas mais tardes, dia de bares lotados, dia de clubes, praias, campos, dia de churrascos, espaguetes, feijoadas,..., dia de lembranças.

Bons tempos aqueles em que acordávamos no amanhecer dos domingos e tomávamos café em frente à televisão. Domingos de Interlagos, de Mônacos, de Silvertones... Tempos de hino nacional, de emoções, de torcida, de Galvão Bueno, de Ayrton, Ayrton, Ayrton Senna do Brasil!!! ...
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01/07/2008 - Durvinha "quebrou o rei"

Nos anos 20 e 30 do século passado, um grupo de justiceiros ou, melhor, cangaceiros, assombrava o nordeste brasileiro. Era época de Lampião e Maria Bonita, a versão sertaneja de Romeu e Julieta. Mas atrás das duas estrelas do cangaço, vinha um bando de causar medo em qualquer valentão. Juntos, eram paixão e destruição. Se uma vila negasse dinheiro ou, comida ou, apoio, ou fosse lá o que queriam, botavam para quebrar. Os cangaceiros seqüestravam crianças, incendiavam fazendas, matavam rebanhos, estupravam, assassinavam e torturavam. Se fossem atendidos em suas reivindicações, organizavam bailes e davam parte do que roubaram para a população local. ...
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