Daniel Campos
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Encontrados 14 textos. Exibindo página 2 de 2.

Quando em seu colo

Quando em seu colo, nada mais existe. Eu me absorvo e me sorvo de mim mesmo, quando em seu colo. Quando em seu colo, o mundo perde um pouco de seu azul e fica mais lilás - a mais feminina das cores. Quando em seu colo, ouço os gritos da fêmea que há em você. Quando em seu colo, sinto-me numa espécie de casulo, de cápsula, de semente... tenho a sensação de que vou ganhar um novo mundo a qualquer momento. Quando em seu colo, sinto o perfume de romã de sua boca rompendo todas as minhas manhas e manhãs. Quando em seu colo, a dor desaparece. Os pecados passam de sete quando em seu colo. Quando em seu colo, sou um pouco mago, feiticeiro, bruxo de mim mesmo. Quando em seu colo, acredito no amanhã. Quando em seu colo, os sabores são mais intensos. Quando em seu colo, sinto-me no meio de uma plantação de morangos. Os trens, os navios, os cavalos param por respeito ou por medo, quando em seu colo. ...
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Quatro paredes

Os batimentos cardíacos parecem mais nítidos. O silêncio, definitivamente, está encarcerado. O espaço é pequeno. As pernas, por mais que queriam, não conseguem ir além de três passos. E os passos andam e andam, em círculos, e estão sempre no mesmo lugar. Depois de gastar os pés no concreto áspero e mal acabado do chão, o corpo decide sentar-se. O cansaço é de angústia. Não há mais sapatos embebidos de cera, calças finas, camisas de mangas cumpridas... O que existe são trapos e um corpo exposto. As lembranças surgem ao meio das baratas que ficam paradas nos dos cantos que me cercam. A barata me olha com olhos de sabe-se lá o quê. Não sei se elas sentem alguma coisa ou se elas só desejam um farelo do pão que quebra no canto da boca. Queria ouvir alguma música, mas meus discos estão mudos. As palavras estão caladas. Daqui não vejo a lua em nenhuma de suas fases, apenas um tucho negro invade o ambiente. O cheiro de mofo aumenta a cada aparição dessas sombras. Nas encostas já há alguns musgos que crescem viçosos. Do meu lado, amarrado por correntes, os ossos de um romântico que dizem ter morrido de amor. Amou quem não podia. Amou como não podia. Amou quando não podia. Dentre tanta miséria, um copo de cristal ainda resta em minhas mãos. O cristal fino e frágil. O copo, que não sei se vazio ou cheio de sangue, continua debruçado sobre a poeira. Chega! Não irei mais inventar histórias para traduzir a solidão de quatro paredes a qual eu me condeno... O meu sul é uma parede de pedra. O meu norte tem tijolos. O meu leste tem rachaduras. O meu oeste tem teias de aranha. Quatro paredes de um mundo que por mais que eu tente escapar, romper, pular, derrubar... Prendem-me à ilusão da mulher amada. ...
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Quem somos?

Quem somos? Somos milhões de brasileiros a procura de uma razão de ser. Milhões de brasileiros perdido num oceano repleto de promessas e ilusões. Náufragos que nadam, nadam no vazio de um destino incerto, sem conseguir encontrar no horizonte a imagem de um porto seguro.

Milhões de brasileiros que não se encontram consigo mesmo, tampouco com os outros, convivendo com uma ausência de ideais, ou melhor, tomados por interesses indesejados numa inconsciência cotidiana, que se manifesta de forma tão natural. Onde estão nossos projetos, nossa vida, a utopia que sempre nos ajudou a sobreviver. Hoje, caminhamos com lenços e documentos, nos embriagamos nos cálices que não envolvem, contrariando chicos e caetanos num gesto que nega o que pouco temos....
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Quinta-feira

No calendário oficial, uma data qualquer. No calendário extra-oficial, também nada de relevante. Apenas mais uma quinta-feira a ser preenchida em uma página em branco na agenda. Enquanto azul, a quinta-feira, segue o caminho de tantas outras. Um azul comum, de um céu comum, com deuses comuns. Nada de nuvens, de fuligens, de cometas, de naves espaciais e de balões grenás.

De repente, ela surge avassaladora como a rainha da Mesopotâmia. Ela surge e a quinta-feira ganha seu nome e o azul escorre pelas frestas da mesmice. E do azul, faz-se à noite num escuro cintilante. Rapidamente, são chamadas as estrelas ainda dormentes. E a taça onde o sol reinava absoluto como uma rodela de laranja se enche de noite. Todos os encantos, lendas e suspenses são postos e depostos naquela taça. E ela se transforma em líquido. Um líquido que escancara e amortece e encara e aquece os lábios. Nos lábios, o cheiro da noite. Cheiro de brisa, de orvalho, de infinidade....
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