Daniel Campos
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Encontrados 14 textos. Exibindo página 1 de 2.

30/12/2008 - Queima de fogos

Eu quero uma queima de fogos completa, com direito a beijos de artifício. Quero me acabar no céu da sua boca, em uma chuva de rubi. Quero me iluminar em seu corpo, em um efeito mais que especial. Os rojões subindo, explodindo, espatifando-se em luzes por entre a noite escura. Ah! Quero beber champanhe em seus olhos coloridos de prosperidade. E, por entre os ruídos e as cores dos fogos, quero amar-te num amor pirotécnico.

Seja na sacada, na areia, no asfalto, no píer, quero queimar junto a cada fagulha de seu ser. Eu quero derreter como vela que abre caminho, quero deslizar como oferenda que vai de mansinho, quero me embrenhar pelo rastinho de seu carinho. Eu quero que sejamos palco, um do outro. Um palco octogonal e vazado, visto de todas as direções, a ponto dos fogos nos cruzarem em lanças de fogo e luz. ...
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24/10/2008 - Queritude

Quero andar ao seu lado. Quero andar abraçado. Quero colocar a minha mão em seus ombros, em suas costas, em sua cintura. Quero saber da conversa das vértebras da sua coluna. Quero brincar em suas costelas. Quero sentir sua pele correndo feito rio. Quero lhe levar como em contradança. E quero que esta dança seja tango, valsa, bolero. Quero fazer de seu corpo o norte de minha bússola. E eu quero andar pelo seu norte, seja qual for o caminho. Quero me surpreender com seus arrepios. Quero sentir sua respiração em minha respiração. Quero ser siamês, de carne e alma. ...
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18/10/2008 - Quem nunca...

Quem nunca caiu andando de bicicleta? Quem nunca parou para pensar no que há depois da morte? Quem nunca pegou fruta no pé? Quem nunca pulou uma cancela? Quem nunca sorriu sem motivo? Quem nunca comeu manga de se lambuzar? Quem nunca debruçou os olhos na janela e voou longe? Quem nunca saiu do ar? Quem nunca chorou por alguém? Quem nunca acreditou no impossível, no improvável, no invisível? Quem nunca tentou desvendar o amor, então sonhou, sonhou, sonhou...

Quem nunca cantou debaixo do chuveiro? Quem nunca se escondeu do espelho? Quem nunca desejou um belo sorvete com calda de chocolate em plena madrugada? Quem nunca esteve grávido de algum sonho? Quem nunca quis um milagre à pronta entrega? Quem nunca comeu maçã do amor e andou de roda-gigante? Quem nunca passou um domingo inteiro debaixo das cobertas? Quem nunca viajou planetas por meio dos acordes de uma canção? Quem nunca amou além da conta, então sonhou, sonhou, sonhou......
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05/09/2008 - Que se chamava Alfredo

Vai indo longe lá vai o tempo do ceifador, que passa pelos campos de trigo ceifando o dourado amor. Sob seu corte, a flor do pão nasce depois da morte. Sob seu corte, o sangue de seu consorte. Sob seu corte, um passo firme e forte. Sob seu corte, a fé moldada em recorte. Sob seu corte, o caminho segue para o norte. Sob seu corte, ser primavera ou inverno é uma questão de sorte. Sob seu corte, o entrecorte do horizonte que vai indo longe lá vai...

Corte a corte, o ceifador vai ponteando as horas de um vento que chora a dor de não poder levar à frente as sementes do alvorecer. No meio do trigo, o ceifador encontra abrigo. Com a tinta do trigo, o ceifador escreve seu artigo. Na solidão do trigo, o ceifador encontra seu castigo. No cair do trigo, o ceifador é um desejo antigo. No dourar do trigo, o ceifador espreita o perigo. Com sete pés de trigo, o ceifador faz seu jazigo e vai indo longe lá vai......
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21/08/2008 - Que história é essa, Caymmi?

Caymmi, eu não lhe entendi em nada desta vez. Como é que você foi morrer longe do mar de São Salvador? Você sempre cantou com aquela voz trovejante que seria doce morrer no mar e agora, nem deu oportunidade para ele se despedir de você. Essa história de morrer no concreto da cidade e ser enterrado em terra firme não lhe caiu tão bem. Afinal, o que é que a baiana tem? Além de saia engomada, sandália enfeitada e brincos de ouro, ela tem um jeito todo Caymmi de ser.

Ah! Algodão, o mar dos pescadores e de tantos sonhadores queria tocar mais uma vez esses seus cabelos grisalhos. A Bahia queria reencontrar pela última vez um de seus criadores, mas... Você, como poucos, colocou um quê a mais na terra do Senhor do Bonfim, mas... Já tinha jangada no mar esperando para lhe ver, mas... Para desespero dos orixás, você foi velado na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro e enterrado em um cemitério carioca. Isso não tem nada a ver com Dorival Caymmi. Seu corpo deveria ser velado em uma rede, trançada em dois coqueiros, e, depois, sob a ovação dos berimbaus e das baianas, ser entregue ao mar. Você, com esse estilo tão comum de ser, surpreendeu a todos. ...
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16/08/2008 - Que país?

Rússia... Geórgia... Brasil... Tem país que pari e país que mata. Tem país que ama e tem país que nunca ouviu falar disso. Tem país que adota e outros, que são pura anedota. Tem país que abandona, levando o filho a lona em nocaute. Tem país que sabe que é país e tem filho que há muito não sabe o que é ter país, mesmo ele estando ali, próximo, debaixo de nossos pés.

Tem país que dá presente, e país que dá porrada. Tem país por acaso e país que só cria caso. Tem país que não se preocupa com o filho e país que educa. Tem país que não tem tempo, tem país que sofre, tem país que esquece. Tem país que assume e que rejeita a sua missão. Tem país que acaricia e afaga, e outro que alicia e chama a cria de praga. Tem país que só pensa no ócio. Tem país que acha que a nação é um negócio. ...
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21/06/2008 - Quero uma cela

Falta o quê? Eis o espanto quando passo os olhos pelo noticiário e vejo que as autoridades da CPI do Sistema Carcerário estão indignadas porque faltam 180 mil vagas em presídios brasileiros. Pobres coitados presos. Seria necessária essa enxurrada de vagas para que eles não fiquem tão apertados. Enquanto o Congresso Nacional se preocupa em dar mais conforto aos presos, outros milhares de brasileiros inocentes não têm onde morar. Por mais absurdo que pareça, a lógica por aqui parece ser a de beneficiar os ladrões, os seqüestradores, os assassinos, os corruptos. O problema não é a lotação do sistema carcerário, mas o que o leva a estar nessas condições, ou seja, a cultura do beneficiamento de quem anda fora da lei. ...
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03/05/2008 - Quero uma cama no meio do nada

Quero uma cama no meio do nada. E que esse nada tenha, ao menos, algumas palmeiras para ofuscar o sol. Que o silêncio deste nada cante o som de um riacho correndo ao fundo e, vez ou outra, de alguns grilos por ente a terra molhada. Ah! É essencial que a terra esteja recém-umedecida por uma chuva lenta. E que haja um pouco de mato florido para perfumar isso tudo. E se não for pedir demais, quero um canário e um cavalo. Esses serão meus únicos dois luxos. Enquanto o canário estrala forte, o cavalo galopa manso na imensidão. ...
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24/02/2008 - Quando eu morrer

Há quem deixe testamentos ou confesse suas últimas vontades à meia-voz. Eu, nessas linhas, escancaro o meu desejo. Quando eu morrer, não quero velórios, funerais, cemitérios. Não há nada mais sem graça do que aqueles túmulos um do lado do outro. Aquelas lápides frias, aquela terra pesada, aquele silêncio todo. Dá uma vontade de gritar, de sair correndo e mal-dizendo quem inventou tudo aquilo. Não estou blasfemando, posto que não acredito que as almas ficam por ali. Ao menos, as almas de luz. No fundo, cemitério é um depósito de corpos. É uma espécie de prova que você não existe mais. Há algo mais ridículo do que isso?...
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Quadro a quadro

Os passos demoravam a mudar. Tinham a lentidão de uma terra que demorava vinte e quatro horas para dar uma volta em torno de si. Era tempo demais para quem sempre levou a vida de forma ligeira. Naquele corpo farto de tempo, a pressa do mundo. Andou com sete meses e três semanas. Nasceu com oito meses. Foi gerada uma semana antes do casamento de seus pais, num ato escondido, no celeiro da fazenda. Falou antes de completar um ano. Foi a primeira de sua turma de amigas a beijar. Foi correndo embora de casa quando ouviu o primeiro convite de amor eterno. Escapuliu dos olhos do pai no lombo do cavalo mais veloz da fazenda. ...
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