Daniel Campos
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Encontrados 40 textos. Exibindo página 1 de 4.

20/12/2008 - Elefantes não morrem

Elefantes não morrem, apenas desaparecem. Exceto se assassinado, você não encontra o corpo de um elefante. Você já encontrou algum? Há toda uma lenda que os animais sabem quando vão morrer e, perto desses dias, partem para um lugar sagrado - o cemitério dos elefantes. Diante disso, Olavo afirmou, para si próprio, com veemência, que queria ter o mesmo destino dos descendentes dos lendários mamutes. Coragem ou covardia? Dizem que elefantes não têm medo de nada.

Nesta decisão, foi réu e juiz e advogado do diabo ao mesmo tempo. Estava sentenciado. Teria o destino dos elefantes. Na noite anterior a sua ida, inventou uma história mágica para a filha de que ele era um elefante que se transformou em homem graças ao beijo de uma princesa. Seu corpo havia sido transformado, mas seu coração ainda continuava grande, feito o de um elefante. E era por isso que ele a amava demais. Ela sorriu, o abraçou e adormeceu. ...
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16/12/2008 - É o fim do mundo

Li, em algum lugar, que Chico Buarque tem estudado piano clássico, com direito a muito Chopin e Debussy, para limpar a cabeça da música popular brasileira. Dtylouaçqcouhxywsypcr (desculpe leitor, mas não há tradução para o sentimento provocado por tal notícia). Uma das principais pilastras do nosso cancioneiro resolveu dizer bye, bye. E por quê? Ainda não se sabe a causa, mas eu já sei as conseqüências dessa reviravolta. Os pagodeiros do tóxico, as cachorras do funk e a gritaria do axé vão dominar geral. ...
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08/12/2008 - É hora de superar Tristão e Isolda

É necessário que haja a vitória do sofrer para uma história de amor ser aplaudida? Este é o dilema que fez o filme Romance, protagonizado por Wagner Moura e Letícia Sabatella, revirar minha cabeça desde que deixei o cinema. Os atores dão vida aos personagens Pedro e Ana, que trazem à tona uma versão contemporânea do romance medieval Tristão e Isolda. Essa obra teria reinventado a idéia de amor, influenciando, inclusive, Romeu e Julieta. Ou seja, tudo o que vivemos em matéria de amor é resultado desta lenda celta. ...
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07/12/2008 - Entre a lembrança e o esquecimento

Os sinos da catedral ainda tossiam o pigarro das dezoito badaladas quando ele lembrou que havia esquecido o aniversário de sua namorada. Estava na praça central da cidade e o mundo parecia girar contra suas vontades. Pegou o telefone para ligar para ela, que já devia estar num profundo mau-humor. Mas o nervosismo o fez esquecer o número do celular, do trabalho, da casa dela. Foi então que achou essa amnésia súbita um achado do destino, que lhe pedia algo a mais do que uma simplória ligação.
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04/12/2008 - Enlatados

"Hoje, é um novo dia, de um novo tempo que começou. Nesses novos dias, as alegrias serão de todos é só querer. Todos nossos sonhos serão verdade"... Pára, pára, pára, como dizia minha professora de sociologia. Eu não lembro o nome dela, mas recordo-me dessa sucessão de gritos que ela encenava durante as aulas. Coitada, devia sofrer de algum tipo de fobia. Por falar nesse assunto, essa trilha da tv globo traz à tona a natalfobia. E atenção, natalfobíacos, a tal vinheta já começou...

Começou a época de fazer um balanço do que aconteceu e do que não aconteceu durante o ano. Época de fazer contas, compras e rever aqueles parentes indesejados. Época de ouvir discursos demagogos sobre solidariedade. Época dos inimigos secretos. Época de encontrar papais-noéis em cada esquina, tão felizes quão doidos para tirar aquela fantasia. Época das crianças esperarem que seus sonhos desçam por chaminés ou sejam deixados em meias. Época de mastigar aquela carne seca de peito de peru e engolir tantos sapos. Época de testemunhar os mesmos velhos especiais da televisão e sentir o gosto amargo da ilusão borbulhando no espumante. ...
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25/11/2008 - Eu quero a vida assim

Olha a multidão caminhando, chegando, gritando, querendo mais. As arquibancadas estão lotadas e todo mundo quer mais, mais do mesmo. Aplausos e vaias se confundem no refrão da mesmice. É o mesmo, do mesmo, do mesmo. É o mesmo, do mesmo, do mesmo. É só feijão com arroz, cadê o torresmo? O mundo que girava pelo mistério profundo, agora roda mecanicamente, automaticamente, comumente. A rotina é sempre igual. Até o tédio já é natural. E ainda dizem por aí que tudo isso é normal.

Eu quero revolução. Eu quero o mundo de ponta cabeça. Eu quero folia, desordem, inversão. Eu quero a outra versão da história. Eu quero que o cotidiano trinque, rache, quebre para a alegria nascer. Eu quero a inconstância do prazer. Eu quero a falta de limites do querer. Eu quero o fim dessa vida robótica. Eu quero que os sentimentos extrapolem, que os pensamentos virem pólen e que as rotinas se enrolem e rolem vida abaixo. Eu me perco, eu me acho. ...
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12/11/2008 - Especulação nuclear

A notícia de que os Estados Unidos perderam uma bomba nuclear na Groenlândia apavorou a comunidade dos ursos polares. Já ameaçados pela caça predatória e pelas mudanças climáticas, o pânico só fez aumentar. Associações e sindicatos representantes dos ursos prometem organizar um ato público expondo as mazelas da extinção da espécie, bem como entrar com uma ação por dano ambiental contra o governo americano. O noticiário da TV Ártica não fala em outra coisa.

Há quem diga que o conteúdo dessa bomba já vazou, matando milhares de animais. Os ursos que perderam parentes de 1968 (data que a bomba foi perdida) até hoje, por morte misteriosa, demonstram grande indignação. Há quem pretenda organizar ataques contra o Pentágono e, até mesmo, a Casa Branca. Como será que Barack Obama vai lidar com essa questão? Vale dizer que o presidente eleito defende a exploração de petróleo em reservas e a internacionalização da Amazônia....
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10/10/2008 - Eu sou o bom, o bom, o bom

Quero ser o político mais votado nas próximas eleições. Quero ser o cara mais rico do mundo. Quero ser o maior comedor de hambúrguer da lanchonete da esquina. Quero ser o primeiro colocado no concurso público. Quero ser campeão de remo, vôlei, esgrima e arremesso de cuspe. Quero ser nota 10 na escola. Quero ser o número 1 do futebol. Quero ter o melhor corpo. Quero ganhar um Oscar e um Grammy por ano. Quero ter o melhor carro de todos. Quero ser o dono da festa. Quero ser o artista mais famoso. Quero ser artilheiro do campeonato. Quero ser a menina mais bonita do colégio. Quero ser au concur. Quero ser o bom, o bom, o bom....
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08/10/2008 - Estradeiro

Tem dias em que uma vontade de correr mundo nos invade. Vontade de pegar um trem, um carro, um avião, um ônibus, um barco, uma bicicleta e sair pelos rumos de uma bússola quebrada e de um mapa-astral. Ai meu Deus que bom, quero me guiar pela conjunção de Marte com Plutão e me alimentar de lua cheia que congestiona a estrada. Quero escalar as montanhas do desconhecido, pular o trópico de Capricórnio e me equilibrar num monociclo pela linha do Equador.

Quero revirar os fusos horários pelo avesso e mostrar ao mundo que o tempo não tem hora para acontecer. Quero fazer uma rota marejando pelos olhos de um senhor chamado destino, que ora é velho ora é menino. Menino dos meus dias. Menina da minha poesia. Quero sentir o sabor da poeira estradeira em minha língua e a chuva me transformando em enxurrada. Ah! Quero amar e esquiar pelos cabelos da amada e me enterrar vivo em sua avalanche. ...
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05/08/2008 - Êxodo

O ar é seco. Desce rasgando pela garganta e maltrata o pulmão faminto. O vento, tal e qual quem não toma banho há semanas, corre sujo pelos céus. A poluição deixa de ser um índice científico e se transforma em um gosto indesejado em nossa boca. Ao contrário de água, a chuva é de fuligem. A popular "queimada" vai descendo dos céus e rabiscando nossos rostos e roupas de carvão. Os bois emagrecem nos pastos. O sertanejo chora diante da flor da seca que brota em espinhos na sua lavoura.

As matas ardem em fogo. Plantas e animais têm queimaduras de primeiro, terceiro, quinto graus. Os rios secam e expõe seu leito cheio de rachaduras. Os peixes, que ainda não aprenderam viver fora da água fria, morrem. Os pingüins não resistem e esquentam até morrer. O berro de fome da cabra mexe com os nervos da gente. A cada novo inverno seco, o mundo fica mais extinto de vida. A paisagem deixa de ser colorida e se colore em tons pastéis. A grama se desmancha em nosso caminhar. Tudo virá pó e a poeira dança em nosso caminho. ...
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