Daniel Campos
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Encontrados 13 textos. Exibindo página 1 de 2.

03/09/2008 - Ramadã

Adilah olha para o céu de Ramadã, perdido entre o dia e a noite, e navega por milênios no ar. Quando não consegue distinguir mais uma linha branca de uma linha preta no horizonte é o sinal do começo de mais um jejum. Assim como Adilah, mais de um bilhão de muçulmanos já se entregaram aos rituais do mês sagrado, onde quase tudo é proibido em nome do sacrifício, da reafirmação e da aprovação da fé. Ninguém come, bebe, fuma ou namora do nascer ao pôr-do-sol. É hora de lembrar o envio dos céus do Alcorão a Maomé como meio de salvação de um povo que ora cinco vezes ao dia, dá esmolas e vai a Meca ao menos uma vez na vida. ...
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16/03/2008 - Ramos vindouros

Hoje é Domingo de Ramos. Em algum lugar, não muito longe daqui, há de haver uma procissão. Uma procissão de pessoas. Uma procissão de ramos. Uma procissão que vai cortando ruas, soltando fogos, abrindo caminho com preces e orações. Entre passos e cânticos, pessoas vão andando juntas, acreditando juntas, esperando juntas. Em suas mãos, levam ramos verdes. Folhas de coqueiro, de paineira, galhas de alecrim e até de samambaia. O cruzeiro, que vem na frente da procissão, vai puxando e espalhando todo esse verde por meio de um mundo sem cor. Cada um aperta suas folhas e segue pelo asfalto, pelas pedras ou pela terra batida. Carros param e motoristas e passageiros descem em sinal de respeito. Os moradores das casas por onde passa a procissão saem aos portões e as janelas para acompanhar, ver, ouvir e serem abençoados por esse cordão de fé. ...
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23/09/2008 - Ratatatá

O rato roeu a roupa do rei de Roma e agora está roendo uma bandeira verde e amarela que encontrou debaixo da linha do Equador. O rato roedor vai roendo o verde das matas que ainda restam em pé e o amarelo ouro das carteiras e bolsas dessa gente de fé que trabalha de suor a suor. O rato não poupa nem mesmo os azuis daqueles que ainda sonham com estrelas, céu e horizonte. E a faixa com a inscrição ordem e progresso já foi rasgada, triturada, tombada pelo rato que ora tem cabelos grisalhos, ora tem barba, ora tem óculos, ora veste saias e atende pelo nome de ratazana. Rato mora em palácio, come queijo suíço e faz ninho em linho egípcio. ...
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24/05/2008 - Re-consagração

Um menino acordou contente e nem sabia por que havia de estar tão sorridente. Pulou da cama, se benzeu, tomou café e agradeceu pelo sol, pelo sal, pelo farol que lhe guiava e por estar protegido de todo mal que o rondava. Ficou com vontade de correr e gritar ao mundo que hoje era o dia, o dia da alegria, o dia onde todos, dos anjos aos escaravelhos, dobram os joelhos e oram diante de uma senhora que por nós, sorri e chora.

De forma ardente o menino e a menina num mesmo beijo numa mesma re-consagração do amor, do amor presente em cada coração. Apaixonado e abençoado pelos céus, pegou a mão da menina como se pega um papel e numa troca de alianças escreveu um poema de bonança, unindo terra e céu. Versos de amor e ave-marias foram se misturando ao longo do dia em uma mais que completa fantasia. ...
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Receita de um cruzar de pernas

De repente, as cores da saia quebram as fronteiras com as cores da pele. As sombras e as faltas de sombra, num corpo de baile. Cenas de um movimento, de um contentamento, de um lamento se espalham. E há todo um jeito especial de se dar o encontro. Dependendo da intensidade desse encontro, eis o vento. O vento surgindo. O vento sumindo. O vento indo e me vindo.

Vidas cruzadas. Órbitas cruzadas. Taças cruzadas. Notas cruzadas. Cartas cruzadas. Insinuações cruzadas. Juras cruzadas. Chamas cruzadas. Retas cruzadas. Nuvens cruzadas. Pernas tombadas, debruçadas, trançadas,..., cruzadas sobre si próprias. ...
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Registro civil

- Em que posso ajudar?

- Eu queria registrar meu filho.

- Você é o pai?

- Sou sim senhor?

- Parabéns, mas não me parece muito contente.

- É... Eu tenho dó dele.

- Desculpe-me, mas ele tem algum problema, não é sadio?

- Tem não seu moço. É um menino forte, encorpado, lindo.

- Então?

- Eu tenho pena é do futuro dele. Agora que ele tá mamando tá tudo bem, mas daqui um tempo a mué fica sem leite e ele já vai começar a chorá de fome. Sabe, eu tenho um empreguinho, mas é coisa pouca, depois com o tempo, já vai precisá de remédio, médico, brinquedo, roupa e essas coisas todas. Depois não sei se ele vai conseguir estudo, se vai arranjá emprego, se vai tê onde morar, se vai tê dinheiro para sustentá seu filho......
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Renascimentos

Quantas vezes você já nasceu? A pergunta pode parecer absurda, mas pense, por alguns instantes, quantas vezes você já nasceu e quantas ainda vai nascer. A vida é um nascimento constante. Alguns renascimentos são mais visíveis, como no caso da lagarta que renasce borboleta, da lua minguante que renasce cheia e da cigarra que renasce com outro esqueleto e até da famosa fênix que renasce do fogo. Outros, são mais discretos, como acontece com a espécie humana e o sol. Você acredita que o sol nascente de hoje é o mesmo sol poente de ontem? No caso dos humanos, na maioria das vezes, cada um dos bilhões de seres espalhos por esse mundo tem infinitas razões próprias e íntimas para renascer....
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Retrato da poesia

Agradeço a poesia. Esta chama que se esconde em meu corpo e se expõe ao mundo no momento exato. Sem mais cerimônias ou demasias. A poesia, o fruto de toda a fantasia, que quebra as fronteiras com o impossível e turva a realidade. Fonte da miragem quase concreta finge que é concreta. Finge que é real. Finge e só finge.

Poesia. Sobrepõe-se a frigidez cotidiana e constrói uma nova cena no antigo desejo dos meus olhos. Essa chama, quando oculta, em meu corpo, notada somente por mim, conforta-me diante da materialização mundana. A poesia não é fingimento ou hipocrisia. A poesia, embora triste, tenta ser felicidade. A poesia tenta, mesmo leiga, compreender a existência e o destino da razão, em seu singular e em seus plurais. A poesia busca os sonhos, ou melhor, a idealização da vida....
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Roda-gigante

Um leve toque do indicador era o suficiente para chamar o elevador. E era mais que suficiente para libertar aquela mulher que tivera uma manhãa estressante no trabalho. O chefe não gostava do seu tempo, do seu trabalho, de nada que fazia. Mas aquele toque não foi o suficiente para levar, de uma vêz por todas, aquela mulher dali. O elevador demorava para subir ou descer. Ela esta no sexto andar. Na metade do prédio. Então, ela caminha e seus olhos se depararam com a paisagem da janela. Depois de quatro anos trabalhnado ali essa era a primeira vez que ela reparava na paisagem da janela....
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Rosa benta

Como que numa tradição, passada de geração em geração, ela, com sua idade ainda cheirando a adolescente, caminhava. Como já caminhou sua mãe, sua avó, sua bisavó. Caminhava por um caminho feito de calçadas de pedra e ruas tortas levando uma rosa em suas mãos. Levava uma rosa branca. E pelo caminho ia encontrando outras meninas, moças, mulheres, senhoras e até alguns homens com rosas nas mãos.

Rosas de todas as cores e tamanhos, algumas ainda em botão. De outras, vindas em mãos de crianças, faltavam algumas pétalas. E ela, como na fábula de joão e maria tinha vontade de ir jogando as pétalas pelo chão para marcar o caminho de volta. Era a primeira vez que ia sozinha. Tinha euforia. Tinha medo....
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