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Encontrados 526 textos. Exibindo página 53 de 53.
Vidas que sangram
A natureza está morrendo. A frase parece banal ou óbvia demais, quando, na verdade, é de uma simplicidade forte. Uma morte silenciosa. Sem línguas de fogo ou gemidos de dor. Estamos em franca extinção. Não sorria ou ache que é mais uma profecia como tantas outras que não se cumprem. Não sou profeta. Sou apenas um observador dos sentimentos do mundo.
Você que agora lê essas pobres linhas, olhe a sua volta. Exceto se estiver num sítio, nos poucos que ainda sobrevivem, quase não encontrará o verde. As árvores restantes se contorcem entre fios, condenadas pelas podas criminais. Seus olhos, já cinzas, irão se encher de concreto. Ah! A dor dos olhos de concreto. Espere! Pare por alguns segundos a leitura e tente escutar o canto de algum pássaro. Não falo de pássaros engaiolados ou aqueles de aço. Silêncio... Onde estão os pássaros? Onde estamos??? Perguntas... O inverno passa sufocante, com febre e saudade do frio. A seca se alastra e, a cada novo ano, abraça mais dias do calendário. O céu é borrado em tantas cores artificiais que lhe roubam o azul. O meio ambiente é estuprado em praça pública. A palavra é forte, mas se faz necessária. Estupro!...
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Vitrines
O sol, imenso e amarelo, ardia em febre. Perdia-se facilmente a conta entre os tantos graus Celsius. Aflito, deixava um pouco dessa febre nos caminhos por onde andava a procura de algo que não se sabia exatamente o quê. Enquanto procurava, a vida prosseguia com as suas tarefas de rotina.
O sol quente. Em uma espécie de tontura, ela apóia-se numa vitrine qualquer. Cabeça baixa. Pouco a pouco, a sensação de ver o mundo sem eixo, sem gravidade, sem juízo. Conforme respira lentamente, os olhos se enchem de sol e os mistérios se confundem. Os mistérios daquele sol e daqueles olhos, lado a lado. E numa falta de memória repentina, não sabia onde estava. A única coisa que sabia é que aqueles que lhe olhavam da vitrine, e que parecia conhecer de algum lugar, tinham uma tristeza qualquer. Aqueles olhos tristes, berçários de beleza. ...
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Vocabulário do sítio
Jabuticaba. Carambola. Pitanga. Amora. Manga espada. Goiaba vermelha. Ninho de pomba. Samambaia em penca. Tijolo à vista. Rádio caipira. Flor de erva-doce. Capim gordura. Caco de telha. Água de poço. Lagoa de mina. Flor do brejo. Canário da terra. Cobertura de salitre. Ovo de angola. Canto choco. Fumo de rolo. Ronco de trator. Gato no telhado. Torresmo no caldeirão. Amarelo girassol. Cacho de banana. Bainha de canivete. Chapéu de palha. Pedra de amolar. Torrão de terra. Barranco para pescar. Touceira de bambu. Enxada de duas libras. Olho de vaca. Lenha no fogão. Porteira aberta. Arame farpado. Rama de abóbora. Roupa para quarar. Assobio para chamar. Imagem de santo. Caveira de boi. Ameixa amarela. Parreira de chuchu. Mastro de São João, Santo Antônio e São Pedro. Buraco de tatu. Barulho de abelha. Travesseiro de paina. Mandioca pão. Casca de mexerica. Chão de folhas. Rastro de rastelo. Carreiro de formiga. Sinal de chuva. Cheiro de mato. Canto de cigarra. Brabeza de galo. Canto de sapo. Rede de retalhos. Café de coador de pano. Pastel de palmito. Marmita embrulhada no jornal. Conversa no poço. Cavalo marchador. Arado de boi. Leite no mangueiro. Goiabada cascão. Sombra fresca. Causo de assombração. Rapadura no tacho. Apito de trem. Mosquito porva. Palma benta. Cachorro brejeiro. Formiga saúva. Garrafa com sete ervas. Orquídea olho-de-boneca. Criança sapeca. Calça rancheira. Carreta de milho. Caipirinha de limão galego. Vestido para quarar. Tilápia, traíra e lambari. Lagarta e borboleta. Casa sem forro. Bolo de fubá. Frango no terreiro. Conhaque pra quebrar a friagem. Carreador. Fiapo de manga. Arapuá, abelha de caixão, tapagüela e marimbondo vermelho. Cobra coral. Sinal de raposa. Espinho de ouriço. Casa de joão de barro. Caroço de abacate. Espinho de carneiro. Folha de alface. Ronco de chuva de pedra. Vento de três dias. Lua com círculo de seca. Pão sovado. Queijo meia-cura. Mel em favo. Arroz do diabo. Véu de noiva. Guanxuma. Coquinho. Macaúba. Baqueara. Laço de corda. Moda de viola. Estrada de pedregulho. Morcego. Galinha carijó. Pimenta de arder. Garça, paturi e mergulhão. Mourão de cerca. Bagaço de laranja. Jatobá. Vestido de jabuticaba. Boca de amora. Toucinho no defumador. Gordura de porco. Cana no facão. Lima limão. Balãozinho e beija-flor. Sombra de figueira. Conversa sem pressa. Vôo de gavião quero-quero. Pio de coruja. Preguiça de cachorro. Galho no caminho. Remendo na camisa. Pasto e cupim. Invernada em pleno verão. Medo de geada. Paiol. Casca de cigarra. Ferradura de sete buracos. Tomate cereja. Mastro de São José. Canteiro de alface. Caminho de barro. Sal grosso em cruz. Palha de milho. Folha de coqueiro. Cancela de oito fiadas. Leite de mamão. Pontilhão. Visita pra chegar. Conversa de grilo. Milho de cural. Leite no mangueiro. Mamangava de maracujá. Alho em réstia. Broto de couve. Pena de galinha. Ovo azul. Musgo na calçada. Verde abacate. Brancura de algodão. Abraço de cipó. Saudade caipira. ...
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Vou lhe amar
Vou lhe amar a sós e tão só, mas tão só que nada reste em mim senão o amor que lhe sinto. Vou lhe amar até quando esse amor resistir, mesmo sabendo que amor grande assim não morre, apenas cresce. Vou lhe amar e quando esse amor se fizer demais, vou lhe amar mais e mais. Vou lhe amar e que a solidão tenha o seu rosto. Vou lhe amar e fazer desse amor a minha dor e a minha anestesia. Vou lhe amar e respeitar todas as suas vontades. Vou lhe amar sem lhe causar qualquer tipo de preocupação. Vou lhe amar mesmo sem você saber que eu (ainda) a amo. ...
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Vou lhe esperar
Vou lhe esperar até o amor desistir de se fazer de amor. Vou lhe esperar sem marcar datas em agendas para não ter que contar dias ou remarcar datas. Vou lhe esperar sem ter as mãos algemadas. Vou lhe esperar como nunca ousaram usar o verbo esperar. Vou lhe esperar sem prazo determinado. Vou lhe esperar para além dos trópicos. Vou lhe esperar de um jeito que nem o tempo saiba entender. Vou lhe esperar, mas vou precisar de alguns olhares pelo caminho (olhares seus). Vou lhe esperar tendo a companhia de tinta e papel. Palavra por palavra, vou lhe esperar. ...
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Vou passar
Vou passar. Vou passar pelas cinzas de uma quarta-feira que ficou. A bagunça não acabou, o bloco dos políticos está na rua. Vou contra esse bloco, na solidão de um samba. Vou passar no sentido contrário desse imenso carnaval político que nunca acaba.
Vou passar pelos políticos que não tiram as máscaras (até outubro será cada vez mais maquiagem). Vou passar pelas eternas promessas. Vou passar pelas fantasias jogadas num canto e ver a miséria pintada no rosto dos foliões. Vou passar pelos coronéis. Vou passar pelas madames. Vou passar pelos que fazem política em benefício, unicamente, próprio. Vou passar pelas letras dos analfabetos. Vou passar pelas ruínas de uma cidade. Vou passar pelos palanques da mentira. Vou passar pelos sem-vergonha e sem-caráter. Vou passar. ...
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