Ou exibir apenas títulos iniciados por:
A  B  C  D  E  F  G  H  I  J  K  L  M  N  O  P  Q  R  S  T  U  V  W  X  Y  Z  todosOrdernar por: mais novos título
Encontrados 526 textos. Exibindo página 7 de 53.
30/10/2008 -
Olhos de peixe morto
Os olhos tristes do peixe na banca da feira são tão profundos quão o mundo que está ao nosso redor. Olhos de uma tristeza que aflora às escamas. Olhos parados, cansados de tanta guerra. Olhos vidrados, que não enxergam o anzol por detrás da isca. Olhos molhados, cujas lágrimas de sal nunca foram vistas. Olhos enlaçados por redes, cortados pela lâmina fria de um sangue que já não jorra. Olhos de peixe grelhado, ao molho, ensopado, ao azeite, assado, cru. Olhos de peixe cru. Olhos de peixe morto. ...
continuar a ler
29/10/2008 -
Chuvareiro
No próximo temporal, vou quebrar tua sombrinha e meu guarda-chuva. No próximo temporal, vou levantar vela em plena enxurrada e convidar-te a partir. No próximo temporal, quero ser apedrejado e apedrejar na mesma proporção. No próximo temporal, vou conhecer a boca do lobo. No próximo temporal, vou chover ao vento. No próximo temporal, vou cair com as árvores. No próximo temporal, vou me revirar com as telhas. No próximo temporal, vou molhar a tua roupa, no teu varal ou no teu corpo.
No próximo temporal, vou cheirar a capim. No próximo temporal, vou fazer estátuas de barro e esperar que Deus venha soprá-las. No próximo temporal, vou atolar seu carro. No próximo temporal, vou me sujar como as crianças. No próximo temporal, quero um beijo molhado. No próximo temporal, vou inundar teu quarto, tua cama e teus sonhos mais distantes. No próximo temporal, vou chover canivete só para cortar a saudade que me corta. No próximo temporal, vou lamber-te num pé de vento e sair assoviando por aí. ...
continuar a ler
28/10/2008 -
No meio da estrada...
No meio da estrada tinha uma vaca. No meio da estrada tinha uma vaca, uma novilha, dois bezerros e três cabritos. Parei o carro para dar passagem àquela pequena comitiva. Os animais sem pressa, batiam os cascos no chão de terra encaroçada. Olhavam para o carro e, acostumados com a civilização, ignoravam a minha presença. Pena que não havia uma máquina fotográfica ali. O registro de um Brasil caipira, de um Brasil de anos atrás, de um Brasil da minha infância ficou apenas no fundo da retina empoeirada....
continuar a ler
27/10/2008 -
Coração partido sim
O coração tem marcas. Marcas de humilhações, marcas de desespero, marcas de dor. O coração de quem ama não é liso, perfeito, intocável. O coração de quem ama é partido para sempre. Porque o coração da criatura amada é apenas a parte de um todo, o qual se pode chamar de felicidade. Afinal, só se completa quando ao lado de outro coração. E por ser parte, de um projeto maior, dói. Dói a dor da saudade, que o marca a ferro e a fogo. Dói o silêncio de pulsar sozinho o seu pulso. Dói a intensidade do sangue jorrado. Dói de prazer. ...
continuar a ler
26/10/2008 -
O crime do padre
Com olheiras roxas, dignas de um vampiro de ressaca, ele foi para a cama. Mas não conseguiria dormir. As últimas noites foram tomadas pelo misterioso assassinato do padre Felício. Rolava de um lado para o outro, mas a cena do pároco morto, aos pés do altar, não lhe deixava a cabeça. O fato de ser devoto de São Jorge, o santo guerreiro patrono daquela igreja, intrigava-o ainda mais. Quem teria cometido o crime e por qual razão? Triplicou o seu consumo de cigarro e passou a roer unhas. Um homem formado daquele roendo unhas? Delegado há 28 anos, poucas coisas mexeram tanto com ele quanto essa tragédia. ...
continuar a ler
25/10/2008 -
Cenarius
Farelos de pão sobre a mesa. Um cheiro de café solto no ar. Uma aranha tecendo a teia, nas conversas que ficaram por terminar. Uma cadeira vazia chorando alguém. O silêncio do pires. A xícara ainda tonta com os lábios que pousaram ali. E um pescador tentando fisgar um pouco de tempo, de tempo, de tempo. Ah! O mundo não pára. Mesmo sem querer, continua nos levando nas pás dos teus moinhos que vão moendo vidas de mansinho.
O perfume do amor sobre a cama. Lençóis amassados, molhados de sexo e suor. Os travesseiros sufocando os últimos gemidos. As colchas cruzando suas cores. A penumbra querendo enxergar ali de si própria. As cortinas comentando como duas fofoqueiras de beira de muro. E um pescador tentando fisgar um pouco de tempo, de tempo, de tempo. Ah! O mundo não pára. Mesmo sem querer, continua nos levando nas pás dos teus moinhos que vão moendo vidas de mansinho....
continuar a ler
24/10/2008 -
Queritude
Quero andar ao seu lado. Quero andar abraçado. Quero colocar a minha mão em seus ombros, em suas costas, em sua cintura. Quero saber da conversa das vértebras da sua coluna. Quero brincar em suas costelas. Quero sentir sua pele correndo feito rio. Quero lhe levar como em contradança. E quero que esta dança seja tango, valsa, bolero. Quero fazer de seu corpo o norte de minha bússola. E eu quero andar pelo seu norte, seja qual for o caminho. Quero me surpreender com seus arrepios. Quero sentir sua respiração em minha respiração. Quero ser siamês, de carne e alma. ...
continuar a ler
23/10/2008 -
Não existo
Um banco, uma árvore e uma marmita. A comida é fria, como as almas dos que passam por ali. Os carros vão passando em uma orquestra de buzinas. As bicicletas vão passando com suas rodas de aros e raios. Os pedestres vão passando em seu direito de ir e vir. E eu vou ficando, no pano de fundo, no plano do mundo, num pranto vagabundo como personagem coadjuvante de um livro sem fim. Até os pássaros cantam fora do tom que brota em mim. Eu não existo. Eu não existo. Eu não existo.
Entre um bocado e outro, vou feito um operário em construção. O suor no rosto, a fome batendo no coração. Não há mesas, velas, arranjos de flor, só há os dentes roendo e rasgando a carne escura. Os mendigos passam por mim e não me mendigam. Os pedintes passam por mim e não me pedem. As esperanças passam por mim e não me esperam. Os cachorros passam por mim e urinam no meu sapato, borrando a graxa. E a vida passa sem graça. E eu não existo. E eu não existo. E eu não existo....
continuar a ler
22/10/2008 -
Ao seu passo, a poesia vai longe
Ao seu passo, a poesia vai longe. A viagem mais longa parece ser quando ela deixa o interior de mim para ganhar o papel. No entanto, as palavras não param de correr mundo, nem mesmo depois de serem tatuadas em uma folha em branco. Dia desses, elas foram ao Rio de Janeiro, em plena tarde de sol. Pertinho da princesinha do mar Copacabana, do Cristo Redentor de braços abertos sobre a Guanabara, do cruzamento da Tom Jobim com a Vinícius de Moraes, elas foram parar na boca de Leda Nagle. A apresentadora do Sem Censura, exibido pela TVE Brasil, leu, ao vivo, uma crônica que há tempos escrevi sobre o cotidiano que a cerca. ...
continuar a ler
21/10/2008 -
Vinte e quatro anos de silêncio
O coração de Eloá ficou em silêncio. Mas não foi o silêncio eterno, tampouco o quase silêncio do coma. Foram 24 anos do mais puro silêncio. Com Eloá, ele viveu durante quinze anos. Poucas vezes deve ter pulsado tão rápido quanto nos dias em que ficou à mercê do ex-namorado e atual assassino. Diante das ameaças, um pulso desafinado. Diante do choro da mãe, um pulso sufocado. Diante do ataque da polícia, um pulso desesperado. Diante da solidariedade da amiga, um pulso consolador. Diante dos tiros, um pulso saudoso....
continuar a ler


