Daniel Campos
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Encontrados 526 textos. Exibindo página 5 de 53.

19/11/2008 - Pechincha

Para quen é que eu peço um desconto nesta minha caminhada? Será para o Criador? Um abatimento na ordem de 20 por cento das pedras que rolam em meu caminho já me livraria de muita coisa desagradável. E este pedido deve ser legal, já que nesta feira livre chamada vida vale de um tudo. Muito é adquirido, muito é perdido, muito é passado para frente, muito é trocado... Na maioria das vezes, lucra quem grita mais alto, quem tem maior poder de ilusão, quem coloca tudo em liquidação ou, simplesmente, quem apele para a instituição da pechincha....
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18/11/2008 - Cuspidor de fogo

Era só mais uma fração de segundo. Era só mais um ato banal. Era só mais um dia depois de outro dia. E aquele cuspidor de fogo não podia falhar. Na sua cabeça, as náuseas das vezes que engasgou, que se machucou, que não levou aplausos. Agora tinha de ser diferente. Olhou à platéia, à vida, às feridas e soprou. Uma chama cortou o circo, queimou a lona, acabou até com o sorriso do palhaço que já andava sem graça. As crianças se assustaram, os garotos aplaudiram e as mulheres choraram de medo e dor....
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17/11/2008 - Vidaria

Quem falou que viver era fácil, mentiu. Viver é para poucos, a maioria mesmo não passa da linha da sobrevivência. E dá-lhe chicotadas no lombo dessa gente que caminha sem ter aonde chegar. É uma gente que está pra lá do estreito de Gibraltar. Viver é carregar pedras e subir montanhas sem fim. É amar em português e sofrer em mandarim. O encontro do desencontro afim. É comer arroz, feijão e pólvora e servir de estopim para uma civilização que diz não quando diz sim. E onde está o gênio da lâmpada de Aladim? Será só de mentira, de mentira, de mentira a caminhada da nossa estrada. Vida, vida se eu a tivesse lhe daria, vidaria. ...
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16/11/2008 - De bandido a herói e de herói a bandido

Onde será que o pai escondeu meu vídeo-game? Já procurei em cima do armário da cozinha, no velho cofre que perdeu a tranca, na penteadeira da mamãe. Onde será que ele está? Estou de castigo, mas não posso ficar sem jogar. Esses três dias que fiquei longe do controle já fora o bastante. Além do mais, papai não precisa saber. Eu jogo um pouquinho e o escondo novamente, no mesmo lugar. Ele só vai voltar do trabalho no final do dia. Ainda faltam três horas e vinte e oito minutos. É o suficiente para eu matar minha vontade. Para minha sorte, mamãe foi resolver umas coisas na cidade e só vai voltar com ele. É a minha chance. Mas eu estou perdendo muito tempo. Precisava achá-lo logo. Quem sabe no guarda-roupa? Camisas, meias, cuecas, lenços, calças, cintos... Ah! Onde será que ele enfiou meu vídeo-game? Tudo porque eu tirei nota baixa na escola, matei o gato da vizinha, respondi mal aquela minha tia chata. Isso lá é motivo para me deixar sem vídeo-game? Se não bastassem as três chineladas que eu ganhei na perna, a bronca, a cara feia, eu tive que ficar sem uma das coisas que eu mais gosto. Ou seria a que eu mais gosto? Vestidos... não... essa já é a parte de mamãe do guarda roupa. Só se estiver no maleiro. Mas é muito alto. Eu não alcanço. Mas se eu pegar aquela cadeira do telefone e subir nas suas costas pode ser que dê certo. Antes tentar do que ficar sem meu joguinho. Nossa como a cadeira é pesada. Só mais um pouco, deixa-me esticar o braço. Pronto. Nossa! Mamãe vai me matar. Derrubei um monte de toalha, de roupa antiga. Também, estava tudo embolado, apertado aqui. Que bagunça. Depois, vou ter que guardar tudo. Quem sabe se eu procurar um pouco mais. Vou esticar um pouco mais meu braço. Parece que achei algo. Ta enrolado em um pano. É um pouco frio. Será meu vídeo-game? Não. É muito pequeno. Mas o que será? O que é isso. Ai meu Deus, to escorregando. Aiiiiiiiii. Cadeira traiçoeira. Ainda bem que cai em cima da cama. Mas o que é isso? Nossa mãe, isso é uma arma. Papai tem uma arma escondida em casa. Que legal. Jamais pensei que um dia pegaria numa dessas. Deve ser uma pistola automática ou será um calibre 38. Não entendo muito disso não. Deixa só o Diego me ver armado até os dentes. Vai ficar morrendo de inveja. Quero ver o Ricardo vir falar que não posso jogar no time da escola porque sou perna-de-pau. Ah! Posso fazer tantas coisas com essa arma. Nem preciso mais do vídeo-game. Agora eu sou o cara. Vou levá-la dentro da mochila e apontar para cara daquela professora idiota que foi me dedurar para meu pai. Vou acabar com ela. Melhor. Vou dar um tiro para o alto na hora do recreio e todo mundo vai ter medo de mim. Já pensou? Até o Gustavo vai se ajoelhar e pedir desculpas por ter me chamado de rato de laboratório. Só porque não sou forte e bronzeado como os meninos... Mas eles todos vão me pagar. Vou ter que agradecer muito ao meu pai por ter me dado esse presente. E ele não vai sentir nem falta se eu tomar emprestado seu revólver só um pouquinho. Estou me sentindo igual naqueles filmes que passam tarde da noite. Parece que estou ouvindo até mesmo aquela música de suspense. Vou arrepiar geral. Posso entrar naquela loja da esquina e sair de lá com a última geração do vídeo-game que eu quiser. O meu estava ultrapassado mesmo. E depois, posso pegar um monte de refrigerante, chocolate, sorvete... Mandar um taxista lá do ponto da praça me levar para o parque de diversão. Até a Aninha vai curtir esse meu poder todo e deixar o Gustavo de lado. Minha vida nunca mais será a mesma. Olhe eu lá no espelho da penteadeira da mamãe. Estou diferente, mais forte, mais bonito. Parece até que cresci um pouco mais. Virei homem. Só não posso deixar meu pai perceber que estou com o brinquedinho dele. Oh não, estão abrindo a porta. Mas quem será? Ainda não está na hora de meus pais chegarem. Será ladrão? Mas por que estou com medo? É só atirar e pronto. Vou ser herói. Vou matar o bandido que queria roubar a nossa casa. Meu pai vai me perdoar por tudo e ainda vai me colocar no colo, vai gostar de mim. Basta eu ficar calmo, apontando para a porta e esperar o momento certo. Quando a porta abrir, dou logo uns três tiros para não ter como errar. Os passos estão mais perto. Estão chegando. É um, é dois, é três... Nunca atirei, mas não deve ser difícil. Já fiz tanto isso no vídeo-game que devo estar craque. Basta pensar que é mais um daqueles carinhas do jogo que eu tenho que matar para passar de fase. Eu sei fazer isso. Eu posso. Eu consigo. E eu preciso mudar de fase. Atenção. A porta está abrindo. O suor escorre pela minha testa. Começo a tremer. Fecho os olhos e disparo. Um disparo, dois disparos... e antes do terceiro, um grito conhecido. Como é que o bandido fez para ficar com a voz do meu pai? Pausa. E agora? Estou entre o terceiro tiro e o abrir dos olhos. ...
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15/11/2008 - O mundo na barriga

Já havia passado do prazo dado pelas suas contas, pelos médicos e pela natureza. O menino estava a cada dia mais forte, cansando-lhe o corpo. A maratona de hospital-casa, casa-hospital já havia virado rotina. As dores do parto, as contrações, a eliminação de líquido eram mais que suficientes para ela acreditar no nascimento e rumar para a maternidade. No entanto, os médicos diziam que a dilatação não era aquela, que as contrações eram psicológicas, que o bebê estava bem. Coisas de primeira gravidez. Ah! Ela era mãe pela primeira vez e a culpa de tudo parecia estar nesse fato....
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14/11/2008 - Brasas e cinzas

Nada está no lugar. Tudo ficou para trás. À frente, a estrada é escura e fria. Será que eu vou ter de ir sozinho? Apocalipse. Juízo Final. Pedras na cruz. Onde está o fim de tudo isso? Quantos passageiros já passaram? Quantas estrelas cadentes já caíram? Quantos ventos já ventaram por essa estrada, doída e cega? Quem vai acreditar, nesse andarilho sem tempo nem lugar. Andarilho que anda pelos trilhos no estribilho de um verso maltrapilho de si mesmo.

Ah! Quanto tempo faz que eu amei demais e continuo amando, adorando e me entregando a esse amor terrestre. Você é o muro e eu sou o cipreste, que vai crescendo, envolvendo, sufocando, aprisionando, abraçando o mundo entre nós dois. Ah! E o mundo sem você é uma falta de lugar, é um des-porquê, é um desesperar. Minhas pegadas bóiam na falta de fé, porque não há mais de seu chão para meus pés. Meu olhar é noite eterna, procurando-te em meio à escuridão que me deixou....
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13/11/2008 - Chover em paz

A tarde vai caindo e com ela, uma chuva inesperada. Uma chuva fina, fria, bailarina. Cai em pontas, mas como uma delicadeza capaz de arrancar aplausos. Aos poucos, o sol torna-se negro e cede espaço para a água. Agora, não sei se ele deixa o tablado por ato de cavalheirismo ou por medo de se molhar. O fato é que aos poucos a chuva vai calando a rua, entre o concreto e o imaginário, dando um ar daqueles filmes europeus ao nosso tropicalismo.

Com a mudança de clima, as sombrinhas e guarda-chuvas aparecem às pencas. E o que era para dar mais cor e classe ao espetáculo das águas torna-se um ato melancólico. As sombrinhas trombam uma nas outras, as varetas dos guarda-chuvas espetam o rosto alheio, a água acumulada é chacoalhada em cima dos outros passantes... Um verdadeiro circo de horrores acaba com a beleza da chuva entardecida que, envergonhada, vai embora. ...
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12/11/2008 - Especulação nuclear

A notícia de que os Estados Unidos perderam uma bomba nuclear na Groenlândia apavorou a comunidade dos ursos polares. Já ameaçados pela caça predatória e pelas mudanças climáticas, o pânico só fez aumentar. Associações e sindicatos representantes dos ursos prometem organizar um ato público expondo as mazelas da extinção da espécie, bem como entrar com uma ação por dano ambiental contra o governo americano. O noticiário da TV Ártica não fala em outra coisa.

Há quem diga que o conteúdo dessa bomba já vazou, matando milhares de animais. Os ursos que perderam parentes de 1968 (data que a bomba foi perdida) até hoje, por morte misteriosa, demonstram grande indignação. Há quem pretenda organizar ataques contra o Pentágono e, até mesmo, a Casa Branca. Como será que Barack Obama vai lidar com essa questão? Vale dizer que o presidente eleito defende a exploração de petróleo em reservas e a internacionalização da Amazônia....
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11/11/2008 - Borboleta amarela

Quando uma borboleta amarela pousar no teu ombro é sinal de que o dia já vem. Mas não o dia dos relógios, dos calendários, dos cotidianos. Falo de um dia especial, que não sabe se é sol ou lua. Quem sabe os dois dividindo o mesmo céu ou a mesma terra ou o mesmo mar. Ah! Enquanto voa, essa borboleta de asas amareladas vai mexendo com as marés, com as sementes, com os cabelos que são de pólen, que são de néctar. Asas de ouro, asas de trigo, asas de mel.

Magicamente, o pó de suas asas cega nossos olhos para tudo o que não for poesia. E aquele balé no céu vai deixando cada vez mais clara a poética da vida. E eu aprendi na escola que amarelo com azul dá verde. E verde é a esperança que se espalha pelas chuvas de novembro. Pena que muitas não vivem mais do que um dia. Pena que muitas são seduzidas pelas redes dos caçadores. Pena que muitas sintam o alfinete afixando seu corpo a um quadro morto. ...
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10/11/2008 - Há sempre alguém

Há sempre alguém feliz a andar por aí. Alguém que canta feito passarinho. Alguém que espanta os males. Alguém que acredita na santa e vai, com fé, mesmo a pé, aonde Deus quiser. E é uma gente que se contenta com pouco, afinal o sonho maior é estar vivo. E o melhor desse carnaval é que essa gente agradece pelo que tem e pelo que não tem. É uma gente farta de sorriso e cor, pronta para distribuir amor, seja para que lado for.

É uma gente que vive de dentro para fora, oferecendo-se para o mundo. Uma gente que ajuda, que auxilia, que se põe de guia. Uma gente que não pede nada em troca. Uma gente que é feliz de nascença e marca presença. Uma gente que vibra pela vitória alheia, que comemora cada amanhecer e que faz da alegria um bem-viver. E o sofrer? Bem, o sofrimento é só mais um sentimento a ser destilado pelo teu pensamento. ...
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