Daniel Campos
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Encontrados 526 textos. Exibindo página 4 de 53.

30/11/2008 - Neve???

Espera aí, estica um pouco mais para esse lado de cá. Quem sabe se eu prender a respiração ou virar um pouco mais o braço esquerdo para oeste. Só mais alguns segundos deste contorcionismo devem bastar. Um, dois, três pulinhos. Pronto. Ficou perfeito, ou quase. Quem mandou comer todas aquelas feijoadas com torresmo. Por pouco essa roupa não entra em mim. Meu Deus, que barriga é essa. Agora só falta colar a barba. Esses pelos fajutos coçam como brotoeja das brabas. E por falar em coceira, essa peruca dá um calor. Calma, Nestor, tudo é questão de costume. Costume? Um sol do tamanho do Maracanã lá fora e eu tendo que andar de luvas, botas e gorro. Eu, reclamo, reclamo, reclamo, mas todo fim de ano me transformo em papai-noel....
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29/11/2008 - A mulher sentada na janela

A mulher sentada na janela quer ser paisagem de si mesma. A mulher sentada na janela quer, ao mesmo tempo, se jogar dali e ser amparada. A mulher sentada na janela quer seguir junto aos carros, ônibus, caminhões, aviões. A mulher sentada na janela cobre e encobre edifícios. A mulher sentada na janela quer criar asas de pássaro. A mulher sentada na janela tem sonhos azuis. A mulher sentada na janela tem desejos de nuvem. A mulher sentada na janela, feito veneziana ao tempo, é consumida pela ferrugem. ...
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28/11/2008 - A lua não há

Que a dona lua influencia em muitas áreas, como a maré e a plantação, eu já sabia, no entanto, olha só a previsão zodiacal para este período: lua nova em sagitário semeia agudas tensões internacionais nos próximos dias. Estamos diante de uma lua que revira as bolsas de valores, eleva a cotação do dólar e derruba os investimentos. Será que a pobre da lua vai levar a culpa por essa crise financeira? Será que ela vai ser condenada à prisão perpétua ou ao pelotão de fuzilamento? Ou será que tudo vai acabar em pizza? ...
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26/11/2008 - Bem-casado

Mais uma vez, canto-te esse cântico que me habita e palpita sob o signo coração. Mais uma vez, sou teu soldado, a pólvora que explode ao teu lado e o teu canhão, a te defender, a te proteger, a te socorrer. Mais uma vez, mato em teu nome. Mais uma vez, sacias a minha fome. Mais uma vez, dorme enquanto sonho o dia em que a poesia será de todo dia. Mais uma vez, aporto em teu porto e cavalgo pelos teus campos como um potro que vem recém-nascido, recém-crescido, recém-querido por alguém.

Mais uma vez, bendigo o teu umbigo no meu e te abrigo, brigo-te e mordo o figo da tua boca. Mais uma vez, devoro e sou devorado por essa paixão louca. Mais uma vez, a eternidade é pouca para essa saudade que menina, alucina e fascina. Mais uma vez, estou a esquecer o mundo, sou teu rei vagabundo e teu poder de mulher. Mais uma vez, bem-te-quero e bem-me-quer. Mais uma vez, eu te espero, e berro e me incendeio como Nero. Mais uma vez, te sou, me vou, me desespero....
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25/11/2008 - Eu quero a vida assim

Olha a multidão caminhando, chegando, gritando, querendo mais. As arquibancadas estão lotadas e todo mundo quer mais, mais do mesmo. Aplausos e vaias se confundem no refrão da mesmice. É o mesmo, do mesmo, do mesmo. É o mesmo, do mesmo, do mesmo. É só feijão com arroz, cadê o torresmo? O mundo que girava pelo mistério profundo, agora roda mecanicamente, automaticamente, comumente. A rotina é sempre igual. Até o tédio já é natural. E ainda dizem por aí que tudo isso é normal.

Eu quero revolução. Eu quero o mundo de ponta cabeça. Eu quero folia, desordem, inversão. Eu quero a outra versão da história. Eu quero que o cotidiano trinque, rache, quebre para a alegria nascer. Eu quero a inconstância do prazer. Eu quero a falta de limites do querer. Eu quero o fim dessa vida robótica. Eu quero que os sentimentos extrapolem, que os pensamentos virem pólen e que as rotinas se enrolem e rolem vida abaixo. Eu me perco, eu me acho. ...
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24/11/2008 - Cântico de Maria

Ò minha mãe, Auxilium Christianorum, perdoa as minhas faltas, os meus descaminhos e às vezes que eu não entendi os espinhos que colocaste em meus caminhos. Sou fraco, pecador, trapo, humano-sonhador, mas olha o amor que me há a vos adorar. Eu não mereço vosso colo, mas tenha misericórdia ao me lançar este vosso olhar de dolo. Perdão, Altíssima, pelas vezes que não dobrei os joelhos, a voz e os espelhos do meu eu diante de vós. Confesso a vós o meu desespero, o meu atropelo, o meu destempero de viver sem saber sofrer. ...
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23/11/2008 - Torre de esmeralda

Todo fim de tarde é a mesma história. Praticamente, um ritual cumprido religiosamente. Uma menina de nove anos aproveita que a mãe se perde nas contas do terço e deixa a parte central da igreja com a desculpa de brincar com as outras crianças, que correm pela pracinha de paqueras e pipoqueiros. No entanto, seus passinhos tomam outro destino - a torre da igreja. O sino está desativado há alguns anos, mas a vista da cidade dali de cima é capaz de dobrar, badalar, ensurdecer corações. Ela já havia contado. É preciso enfrentar cento e oitenta e três degraus para se chegar ao topo daquele seu castelo de cartas. ...
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22/11/2008 - Um portal aos seus pés

Muitos se perguntam sobre um portal mágico, cujo destino é uma outra dimensão, uma espécie de paraíso perdido, uma manjedoura de sonhos. Todos perseguem, mas ninguém dá notícia deste lugar. E todos nós temos acesso a ele e nem percebemos. Afinal, você já parou para pensar o ralo do banheiro? Esse inofensivo mecanismo instalado sob seus pés tem a missão de levar suas expectativas, suas lágrimas, seus suores, as marcas de seu corpo, seus medos, as conversas que não se calaram, o dia que passou e o que ainda não chegou para um outro mundo....
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21/11/2008 - Sofrendo enfarte ou fazendo arte

Amo amar-te e adorar-te, seja em Sartre ou em Marte, sofrendo enfarte ou fazendo arte. Amo amar e deixar esse sentimento azul me levar ao vento sul, como que querendo chegar a algum lugar, a algum altar, a algum patamar do coração onde ninguém insista no não, tampouco exista solidão. Amo amar de me querer ao teu lado por todo instante, sem pressa, sem promessa, sem flecha, mas com Eça e Di Cavalcanti. Cante, espante e siga avante neste amor a Vinícius de Moraes, que ora é amor ora é amor demais. ...
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20/11/2008 - Tá tudo molhado em mim

Tá tudo chovendo em mim. Tá tudo molhado, tudo encharcado, tudo alagado em mim. Como se o meu tempo fosse um temporal de mim. A água afundou meus pensamentos, meus sentimentos foram destelhados e só me resta os acenos de um barco de jornal que passa ao meu lado. A estrada virou enxurrada. E eu esqueci meu guarda-chuva em alguma chuva passada. E se a chuva for ácida? Eu sou filho da margem plácida...

Estou cheio de lama, estou de cama, estou pra lá de quem ama. A chuva é pranto e eu to sofrendo tanto, mas tanto. A chuva tombou a plantação de sonhos que brotara em mim. A chuva deixou vermelho meu lago interior. A chuva abriu buracos no meu terreno de dentro. A chuva derrubou as flores, estragou os frutos, carregou as sementes para longe, para longe, para longe dos meus sulcos. Que horas, que horas, que horas são ò cuco?...
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