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Encontrados 526 textos. Exibindo página 3 de 53.
11/12/2008 -
Onofre, nofeeeee
Sem quaisquer avisos, seu Antônio, um camponês de olhos doces e barriga avantajada, apareceu na vila, que fica lá detrás do mundo, trazendo um casal de bezerros recém desmamados. Até aí, nada de anormal. O intrigante dessa história é que uma menina de dois anos chamada Maria se apaixonou perdidamente pelos bichos, principalmente por Onofre. Isso mesmo, por distração ou pirraça, seu Antônio batizou o boi caramelo com o nome do coronel mais temido do local. E se dependesse da empolgação de Maria, o cabra saberia logo do acontecido e seu Antônio pagaria o pato. Mas como a história não é nem de cabra nem de pato, vamos dar a palavra ao Onofre. ...
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10/12/2008 -
Barbárie, barbárie
Quero um elmo, uma armadura, um escudo e um cavalo marchador. Não, não quero ser um cavaleiro da Távola Redonda ou um novo Dom Quixote de La Mancha, quero apenas passar incólume por essa multidão que não sabe para onde e nem por que o vai com esse passo desmedido, corrido, iludido. Quero blindar-me, quero isolar-me, quero exorcizar-me desta seita de passistas e motoristas e ciclistas e motociclistas - os artistas do caos. E enquanto as donzelas se fartam dos bárbaros que passam sobre suas janelas, as senhoras da sociedade expurgam: barbárie, barbárie! ...
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09/12/2008 -
Joga a âncora
Quem sabe na próxima eleição elege-se uma enguia ou uma ostra porque lula não dá pé. A água está pelo pescoço e o mar, como sempre, não está para peixe pequeno. E eu tenho medo do tu-tu-tubarão. Nosso salário anda mais apertado do que sardinha em conserva. Nosso desespero chega a dar choque tal qual peixe-elétrico. E toda esperança de mudança depositada no herói dos sete-mares se tornou tão ridícula quanto peixe-palhaço.
Toda hora jogam a tarrafa em nossos bolsos. Não respeitam nem a nossa piracema. Nossa jangada já virou e ninguém nos ensinou a nadar. O medo nos abraça, nos sufoca em seus tentáculos, nos intimida com seus olhos de polvo. Estamos a cada dia mais próximo de Atlântida, o reino submerso. Contra esse efeito naufrágio nós nos debatemos e até nadamos cachorrinho, mas os caldos são cada vez maiores....
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08/12/2008 -
É hora de superar Tristão e Isolda
É necessário que haja a vitória do sofrer para uma história de amor ser aplaudida? Este é o dilema que fez o filme Romance, protagonizado por Wagner Moura e Letícia Sabatella, revirar minha cabeça desde que deixei o cinema. Os atores dão vida aos personagens Pedro e Ana, que trazem à tona uma versão contemporânea do romance medieval Tristão e Isolda. Essa obra teria reinventado a idéia de amor, influenciando, inclusive, Romeu e Julieta. Ou seja, tudo o que vivemos em matéria de amor é resultado desta lenda celta. ...
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07/12/2008 -
Entre a lembrança e o esquecimento
Os sinos da catedral ainda tossiam o pigarro das dezoito badaladas quando ele lembrou que havia esquecido o aniversário de sua namorada. Estava na praça central da cidade e o mundo parecia girar contra suas vontades. Pegou o telefone para ligar para ela, que já devia estar num profundo mau-humor. Mas o nervosismo o fez esquecer o número do celular, do trabalho, da casa dela. Foi então que achou essa amnésia súbita um achado do destino, que lhe pedia algo a mais do que uma simplória ligação.
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06/12/2008 -
À procura de uma ama-seca
De camisa listrada, sem levar canivete no cinto ou pandeiro na mão, saí por aí. Também não bebi chá com torrada, tampouco tomei parati. Mas escutei muita gente dizendo: "sossega leão, sossega leão". Pudera, como ficar calmo diante de um mundo que virou de ponta-cabeça? Você pode ainda não ter reparado, mas tem acontecido de tudo ultimamente. É como se o grão-vizir tivesse decretado carnaval por tempo indeterminado e ninguém estivesse nem aí para nada nem ninguém. Não é a toa que um cabeludo gritou: "todos estão surdos". ...
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05/12/2008 -
Sentimentaria
Lordose cervical, lordose lombar, cifose dorsal, escoliose, hérnia de disco, bico de papagaio. A coluna entorta, enverga, dobra, pende e se rende em dor. Dói ao andar, ao deitar, ao falar, ao espreguiçar, ao sonhar... Dores agudas, pontudas, obtusas. E a culpa de tudo isso é do mundo, que anda cada dia mais pesado de se carregar. Tenho apenas uma coluna e todo o sentimento do mundo a se debruçar sobre ela, não é Drummond? Pois é poeta, como eu posso carregar tanto amor nestas costas finas, esquálidas? Se ao menos eu soubesse equilibrar latas na cabeça como as lavadeiras... Ou se eu tivesse asas para conseguir voar acima disso todo. ...
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04/12/2008 -
Enlatados
"Hoje, é um novo dia, de um novo tempo que começou. Nesses novos dias, as alegrias serão de todos é só querer. Todos nossos sonhos serão verdade"... Pára, pára, pára, como dizia minha professora de sociologia. Eu não lembro o nome dela, mas recordo-me dessa sucessão de gritos que ela encenava durante as aulas. Coitada, devia sofrer de algum tipo de fobia. Por falar nesse assunto, essa trilha da tv globo traz à tona a natalfobia. E atenção, natalfobíacos, a tal vinheta já começou...
Começou a época de fazer um balanço do que aconteceu e do que não aconteceu durante o ano. Época de fazer contas, compras e rever aqueles parentes indesejados. Época de ouvir discursos demagogos sobre solidariedade. Época dos inimigos secretos. Época de encontrar papais-noéis em cada esquina, tão felizes quão doidos para tirar aquela fantasia. Época das crianças esperarem que seus sonhos desçam por chaminés ou sejam deixados em meias. Época de mastigar aquela carne seca de peito de peru e engolir tantos sapos. Época de testemunhar os mesmos velhos especiais da televisão e sentir o gosto amargo da ilusão borbulhando no espumante. ...
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03/12/2008 -
Andar sobre brasas
Hoje é seu aniversário. Talvez o mais dolorido de todos eles. Fica difícil lhe dar os parabéns e comemorar algo diante de uma perda tão recente. Definitivamente, hoje vai faltar o abraço de sua mãe. Aliás, hoje vão faltar todos os abraços que não foram dados em momentos bobos. Hoje vai faltar uma felicidade que escapou de suas mãos como um passarinho. Ah! De fato, ela morreu como uma ave. Por maiores os golpes, ela jamais deixou de abrir as asas e, mais do que voar, tentar salvaguardar o mundo sobre elas. E você sempre fez parte deste mundo. Hoje você vai sentir vontade de dar o primeiro pedaço de bolo para uma pessoa que, pela primeira vez, não vai estar presente em sua festa. Hoje vai ser tarde demais para muitos desejos......
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01/12/2008 -
Serpenteia
A serpente não tem asas, mas voa pelo chão. A serpente serpenteia engolindo ratos, gentes, mundos e fundos... A serpente serpenteia serpenteando pelo estradão. E seu corpo é sua estrada. E seu corpo é sua perdição. E seu corpo é sua faca amolada. A serpente não tem dono ou razão de ser, apenas um destino: destilar o veneno coração com seu guizo sincopado, com seu gingado de olhar envenenado. A serpente caiu dos céus feito cavalo que não aceita cela, mas nem o diabo pode com ela.
A serpente é o ciúme. A serpente é o cume do amor. A serpente é o perfume do sonhador. A serpente é a cria da árvore do conhecimento, é o bem e o mal num mesmo rastro. A serpente traz a maçã entre os dentes. A serpente é o amanhã dos penitentes. A serpente é o que há de doente em mim, em ti, em nós. A serpente é o fim da inocência e a eterna queda. A serpente é a punição, a tentação, a esculhambação da humanidade, que se arrasta com saudade de um paraíso perdido, esquecido, mal-vivido. ...
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