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Encontrados 526 textos. Exibindo página 52 de 53.
Viagem ao espaço
Depois de um longo tempo sem emprego, foi contratada para fazer propaganda de uma multinacional. Quando pegou o imenso balão vermelho em suas mãos, pegou também uma dezena de sonhos e sabores que andavam caídos dentro de si. Sonhos de quando queria ir às estrelas, completar a volta ao mundo em um balão, testemunhar o sol mais de perto, sentir seu calor, seu suor.
Mas seu corpo, pelo regime de tantas ilusões, não conseguia suportar tanta força. E tantas vontades aliavam-se a um vento forte para arrastá-la para os céus. Os pés chegavam a derrapar no gramado ao lado da avenida onde tinha que ficar segurando a propaganda com um nome em inglês. ...
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27/02/2008 -
Viagem espacial
Hoje, vou colocar minha roupa de astronauta e explorar um planeta desconhecido. Um planeta que, de birita em birita, gira fora do eixo, praticamente, no mundo da lua. Se quiser embarcar comigo nesta viagem espacial, cuidado. A previsão dos especialistas é de que estamos sujeitos a uma chuva de meteoros. Afinal, este país nasceu do conflito entre o empregado e o patrão, entre o socialismo e o capitalismo, entre a miséria e o show business. A instabilidade é sua marca.
Entre translações e rotações, este planeta tem movimentos de roleta de cassino. Há ventos de apostas ventando para tudo quanto é lado. A cada perda, um terremoto emocional. A cada vitória, uma tempestade banhando o próprio ego. Também, o que dizer de um país que vive de palpites, de hipóteses, da famosa "fezinha popular"? Aponta no universo como jogo do bicho e vive o constante dilema do pregão da bolsa de valores: Comprar ou vender? Gastar ou poupar? Independentemente da resposta, é preciso jogar as fichas na mesa... ...
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Vida em folha morta
Dizem que meus escritos são tristes. Não me considero o senhor da tristeza. Digo e afirmo que nunca quis adotar um estilo trágico, sequer apoio o drama como forma de vida. Mas além de sofrer influências do mundo de sentimentos que me cerca, talvez eu tenha um toque natural de tristeza. Onde toco não vira ouro, vira tristeza.
Escrevo o que sinto - nada além nada aquém. Não disfarço os sentimentos, eles se afloram em mim na sua forma bruta para posteriormente serem lapidados. O ideal é que as palavras, mesmo refinadas, sejam fortes. Fortes na essência. Cada letra deve guardar algo, uma razão que possibilite a sua estada no contexto. As palavras não são os frutos de uma angústia nem de um contentamento, ao contrário, são produtos do momento. Procuro passar para o papel aquele momento. O estado é transitório. Transcrevo o instante. Escrevo no meu tom, não tenho culpa se o julgam como triste. ...
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05/11/2008 -
Vida quântica
Quantos projetos você já engavetou sem querer? Quantos sonhos você já teve de deixar pra trás? Quantos amigos já lhe traíram? Quantas vidas você já gastou? Quantos prazeres se transformaram em dor? De quantas chegadas só restam partidas? Quantas estrelas cadentes já passaram pela sua frente? Quantos pedidos já se realizaram? Quantas fantasias você precisou sufocar para poder continuar? Quantas às vezes em que já mudou o destino e perdeu?
De quantos remédios você precisa para sobreviver? Quantos mistérios você já desistiu de descobrir? Quantas histórias você deixou de contar, de ouvir, de viver? Quantos caminhos ficaram longos demais para você percorrer? Quanto de saudade você guarda no peito? Quanto de bom se transformou em ruim? Quantas certezas já não são tão certas assim? De quantos sóis o seu céu tem precisado? Quantas as noites em claro que você tem vivido?...
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17/11/2008 -
Vidaria
Quem falou que viver era fácil, mentiu. Viver é para poucos, a maioria mesmo não passa da linha da sobrevivência. E dá-lhe chicotadas no lombo dessa gente que caminha sem ter aonde chegar. É uma gente que está pra lá do estreito de Gibraltar. Viver é carregar pedras e subir montanhas sem fim. É amar em português e sofrer em mandarim. O encontro do desencontro afim. É comer arroz, feijão e pólvora e servir de estopim para uma civilização que diz não quando diz sim. E onde está o gênio da lâmpada de Aladim? Será só de mentira, de mentira, de mentira a caminhada da nossa estrada. Vida, vida se eu a tivesse lhe daria, vidaria. ...
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Vidas que sangram
A natureza está morrendo. A frase parece banal ou óbvia demais, quando, na verdade, é de uma simplicidade forte. Uma morte silenciosa. Sem línguas de fogo ou gemidos de dor. Estamos em franca extinção. Não sorria ou ache que é mais uma profecia como tantas outras que não se cumprem. Não sou profeta. Sou apenas um observador dos sentimentos do mundo.
Você que agora lê essas pobres linhas, olhe a sua volta. Exceto se estiver num sítio, nos poucos que ainda sobrevivem, quase não encontrará o verde. As árvores restantes se contorcem entre fios, condenadas pelas podas criminais. Seus olhos, já cinzas, irão se encher de concreto. Ah! A dor dos olhos de concreto. Espere! Pare por alguns segundos a leitura e tente escutar o canto de algum pássaro. Não falo de pássaros engaiolados ou aqueles de aço. Silêncio... Onde estão os pássaros? Onde estamos??? Perguntas... O inverno passa sufocante, com febre e saudade do frio. A seca se alastra e, a cada novo ano, abraça mais dias do calendário. O céu é borrado em tantas cores artificiais que lhe roubam o azul. O meio ambiente é estuprado em praça pública. A palavra é forte, mas se faz necessária. Estupro!...
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21/10/2008 -
Vinte e quatro anos de silêncio
O coração de Eloá ficou em silêncio. Mas não foi o silêncio eterno, tampouco o quase silêncio do coma. Foram 24 anos do mais puro silêncio. Com Eloá, ele viveu durante quinze anos. Poucas vezes deve ter pulsado tão rápido quanto nos dias em que ficou à mercê do ex-namorado e atual assassino. Diante das ameaças, um pulso desafinado. Diante do choro da mãe, um pulso sufocado. Diante do ataque da polícia, um pulso desesperado. Diante da solidariedade da amiga, um pulso consolador. Diante dos tiros, um pulso saudoso....
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Vitrines
O sol, imenso e amarelo, ardia em febre. Perdia-se facilmente a conta entre os tantos graus Celsius. Aflito, deixava um pouco dessa febre nos caminhos por onde andava a procura de algo que não se sabia exatamente o quê. Enquanto procurava, a vida prosseguia com as suas tarefas de rotina.
O sol quente. Em uma espécie de tontura, ela apóia-se numa vitrine qualquer. Cabeça baixa. Pouco a pouco, a sensação de ver o mundo sem eixo, sem gravidade, sem juízo. Conforme respira lentamente, os olhos se enchem de sol e os mistérios se confundem. Os mistérios daquele sol e daqueles olhos, lado a lado. E numa falta de memória repentina, não sabia onde estava. A única coisa que sabia é que aqueles que lhe olhavam da vitrine, e que parecia conhecer de algum lugar, tinham uma tristeza qualquer. Aqueles olhos tristes, berçários de beleza. ...
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Vocabulário do sítio
Jabuticaba. Carambola. Pitanga. Amora. Manga espada. Goiaba vermelha. Ninho de pomba. Samambaia em penca. Tijolo à vista. Rádio caipira. Flor de erva-doce. Capim gordura. Caco de telha. Água de poço. Lagoa de mina. Flor do brejo. Canário da terra. Cobertura de salitre. Ovo de angola. Canto choco. Fumo de rolo. Ronco de trator. Gato no telhado. Torresmo no caldeirão. Amarelo girassol. Cacho de banana. Bainha de canivete. Chapéu de palha. Pedra de amolar. Torrão de terra. Barranco para pescar. Touceira de bambu. Enxada de duas libras. Olho de vaca. Lenha no fogão. Porteira aberta. Arame farpado. Rama de abóbora. Roupa para quarar. Assobio para chamar. Imagem de santo. Caveira de boi. Ameixa amarela. Parreira de chuchu. Mastro de São João, Santo Antônio e São Pedro. Buraco de tatu. Barulho de abelha. Travesseiro de paina. Mandioca pão. Casca de mexerica. Chão de folhas. Rastro de rastelo. Carreiro de formiga. Sinal de chuva. Cheiro de mato. Canto de cigarra. Brabeza de galo. Canto de sapo. Rede de retalhos. Café de coador de pano. Pastel de palmito. Marmita embrulhada no jornal. Conversa no poço. Cavalo marchador. Arado de boi. Leite no mangueiro. Goiabada cascão. Sombra fresca. Causo de assombração. Rapadura no tacho. Apito de trem. Mosquito porva. Palma benta. Cachorro brejeiro. Formiga saúva. Garrafa com sete ervas. Orquídea olho-de-boneca. Criança sapeca. Calça rancheira. Carreta de milho. Caipirinha de limão galego. Vestido para quarar. Tilápia, traíra e lambari. Lagarta e borboleta. Casa sem forro. Bolo de fubá. Frango no terreiro. Conhaque pra quebrar a friagem. Carreador. Fiapo de manga. Arapuá, abelha de caixão, tapagüela e marimbondo vermelho. Cobra coral. Sinal de raposa. Espinho de ouriço. Casa de joão de barro. Caroço de abacate. Espinho de carneiro. Folha de alface. Ronco de chuva de pedra. Vento de três dias. Lua com círculo de seca. Pão sovado. Queijo meia-cura. Mel em favo. Arroz do diabo. Véu de noiva. Guanxuma. Coquinho. Macaúba. Baqueara. Laço de corda. Moda de viola. Estrada de pedregulho. Morcego. Galinha carijó. Pimenta de arder. Garça, paturi e mergulhão. Mourão de cerca. Bagaço de laranja. Jatobá. Vestido de jabuticaba. Boca de amora. Toucinho no defumador. Gordura de porco. Cana no facão. Lima limão. Balãozinho e beija-flor. Sombra de figueira. Conversa sem pressa. Vôo de gavião quero-quero. Pio de coruja. Preguiça de cachorro. Galho no caminho. Remendo na camisa. Pasto e cupim. Invernada em pleno verão. Medo de geada. Paiol. Casca de cigarra. Ferradura de sete buracos. Tomate cereja. Mastro de São José. Canteiro de alface. Caminho de barro. Sal grosso em cruz. Palha de milho. Folha de coqueiro. Cancela de oito fiadas. Leite de mamão. Pontilhão. Visita pra chegar. Conversa de grilo. Milho de cural. Leite no mangueiro. Mamangava de maracujá. Alho em réstia. Broto de couve. Pena de galinha. Ovo azul. Musgo na calçada. Verde abacate. Brancura de algodão. Abraço de cipó. Saudade caipira. ...
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19/05/2008 -
Voltei
Para aqueles que se preocuparam com minha ausência, estou vivo. Ou revivo, depois de ser alimentado por mergulhos profundos e vôos longos. Depois de uma viagem pelo interior do interior do interior de mim, estou de volta a este espaço. Peço desculpas pela minha retirada súbita durante alguns dias, mas a desconexão foi não só precisa, mas necessária e irreversível. Não queria deixar esse lugar ao léu durante esses dias, mas não teve outro jeito.
Passados à parte, o importante é que eu voltei em ritmo de futuro. Futuro do presente. O tempo mais-que-imperfeito do perfeito. E voltei com a poesia aguçada e revigorada. Depois desses dias de mordaça, ganhei fôlego nesta caminhada literária. Mais uma vez, estou aqui. E agora, nada vai me impedir. Eu vou gritar aos quatro ventos que a poesia me habita e escorre de meus poros formando uma estrada vermelha a minha frente. ...
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