Daniel Campos
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Encontrados 526 textos. Exibindo página 9 de 53.

11/11/2008 - Borboleta amarela

Quando uma borboleta amarela pousar no teu ombro é sinal de que o dia já vem. Mas não o dia dos relógios, dos calendários, dos cotidianos. Falo de um dia especial, que não sabe se é sol ou lua. Quem sabe os dois dividindo o mesmo céu ou a mesma terra ou o mesmo mar. Ah! Enquanto voa, essa borboleta de asas amareladas vai mexendo com as marés, com as sementes, com os cabelos que são de pólen, que são de néctar. Asas de ouro, asas de trigo, asas de mel.

Magicamente, o pó de suas asas cega nossos olhos para tudo o que não for poesia. E aquele balé no céu vai deixando cada vez mais clara a poética da vida. E eu aprendi na escola que amarelo com azul dá verde. E verde é a esperança que se espalha pelas chuvas de novembro. Pena que muitas não vivem mais do que um dia. Pena que muitas são seduzidas pelas redes dos caçadores. Pena que muitas sintam o alfinete afixando seu corpo a um quadro morto. ...
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14/11/2008 - Brasas e cinzas

Nada está no lugar. Tudo ficou para trás. À frente, a estrada é escura e fria. Será que eu vou ter de ir sozinho? Apocalipse. Juízo Final. Pedras na cruz. Onde está o fim de tudo isso? Quantos passageiros já passaram? Quantas estrelas cadentes já caíram? Quantos ventos já ventaram por essa estrada, doída e cega? Quem vai acreditar, nesse andarilho sem tempo nem lugar. Andarilho que anda pelos trilhos no estribilho de um verso maltrapilho de si mesmo.

Ah! Quanto tempo faz que eu amei demais e continuo amando, adorando e me entregando a esse amor terrestre. Você é o muro e eu sou o cipreste, que vai crescendo, envolvendo, sufocando, aprisionando, abraçando o mundo entre nós dois. Ah! E o mundo sem você é uma falta de lugar, é um des-porquê, é um desesperar. Minhas pegadas bóiam na falta de fé, porque não há mais de seu chão para meus pés. Meu olhar é noite eterna, procurando-te em meio à escuridão que me deixou....
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Brasil sem rosto

"Eu vi o menino correndo, eu vi o tempo brincando ao redor daquele menino". Menino que nasceu no finalzinho do século passado e ainda não encontrou o seu rosto. Menino que se vê frente a frente com uma tecnologia avançada, cada vez mais longe do humano. Menino, analfabeto de informática. Menino que fala "I love you" e não sabe o que é amar.

Menino da liberdade de pensamento, de expressão, de comunicação. Menino que não sabe a ditadura. Militares, exílios, lutas, ideais,..., ficaram presos nas histórias que não contam mais. Menino que se acha envolto de paz. Menino que nunca cantou pela liberdade com Geraldo Vandré. Menino que sempre esteve livre. Os pássaros são livres até que se debatam contra os arames da gaiola. Menino, prisioneiro de um mundo de mentiras....
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Brasil: a grife da miséria


"Reze pelo Haiti, chore pelo Haiti, o Haiti é aqui, o Haiti não é aqui". Como esquecer os versos de Caetano quando o sentimento é o mesmo. Haiti? Brasil: país emergente, país do futuro, país das promessas e do crescente abismo social. Ricos, pobres (antigamente conhecidos como classe média) e miseráveis. Três classes, três sinas, três faces e um país.

Caro(a) leitor(a), creio que nunca sentiu a fome consumindo seu corpo, ainda tem um lugar para morar e uma renda que lhe permite viver, independentemente de quais forem as condições, mas permite. Entretanto deve ter percebido que a miséria está mais próxima. Basta andar pelas calçadas, principalmente as do centro da cidade, para perceber que não terá mais o mesmo passo despreocupado enquanto pensa longe ou admira alguma vitrine. Ao caminhar somos obrigados a desviar, não das pessoas que andam na direção contrária, mas das que fazem da calçada um ?ponto de esmolas?. Quantas as mãos estendidas, vazias e ociosas que pendem em nossa direção em busca de centavos de reais. Mãos da esmola....
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28/07/2008 - Burocratizaram o mundo!

Antigamente, o ato de viver era bem mais simples. Hoje, há burocracia para todos os lados que se olhe. Há algumas décadas, chovia sem qualquer pretexto. Rezava a lenda que bastava São Pedro querer para a água cair do céu. Agora, tem uma história de frente fria, de massa de ar quente, de vento inter-tropical que sopra do continente para o mar. Enfim, burocratizaram a chuva. Outrora, vestia-se de acordo com o espelho e pronto. Hoje é preciso seguir a moda, a tendência, o contemporâneo.

Antigamente, um único médico dava jeito em tudo quanto era doença. Hoje, é preciso ir ao especialista do especialista do especialista. O paciente, tal e qual uma peteca, é jogado para lá, para cá, para acolá sem conseguir resolver o seu problema. O olhar clínico foi substituído por exame disso e daquilo. Em outros tempos, uma palavra ou um aperto de mão selava um acordo ou um contrato. Agora, faz-se necessário vários fiadores, testemunhas, consultas de crédito, antecedentes criminais, comprovações de salário, reconhecimentos em cartório... ...
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16/02/2008 - Caçador de estrelas

Era certo. Lá pelas sete e meia da noite, depois de jantar no rabo do fogão a lenha, ele corria para o terreiro. Seus pais, já acostumados, não falavam nada. Afinal, àquela hora as lidas da roça já estavam feitas. As viagens daquele menino de onze anos tinham pouso certo. Perto da cerca do curral, do pé de araçá, do arado velho.

Toda noite, sentava-se ali, na espinhela do arado, para vigiar o céu de estrelas. Dizia que elas se movimentavam e até cantavam baixinho. Sem saber as figuras zodiacais, enxergava vacas, bodes, anjos, galinhas e peixes naquele céu negro. Ficava mudo e estático para não assustar suas estrelas. Apenas as espreitava. De repente, partia em carreiro em busca de uma luz cadente. ...
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03/08/2008 - Cada dia nasce de um novo amanhecer

Em pleno inverno, a lua parece arder em febre. Com certeza deve ser efeito de sua paixão impossível pelo sol. E esse clima só faz sufocar o menino que passa cabisbaixo pelas ruas. Caminha sem direção, sem rumo, sem destino. Até mesmo o vento que deveria ser fresco sopra um bafo quente, deixando em brasas a angústia daquele jovem que desconta sua raiva chutando as pedras que encontra pelo caminho. De repente, avista um banco daqueles de cimento que dividem espaço com a grama, já castigada pela seca. ...
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Caetaneando mais uma vez


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Café com Cony

Desde muito cedo adquiri o hábito saudável de tomar café da manhã com Carlos Heitor Cony. O jornaleiro, antes mesmo de o galo gargarejar com as primeiras gotas de sol, atirava aquele amontoado de notícias contra a minha janela. Não sei como, mas ele tinha pré-disposição em me acordar. Acredito que ele, o jornaleiro, só tinha ânimo para sair de casa, lá pelas três horas da madrugada, e pedalar a bicicleta, que o deixava com as pernas suspensas, só pelo íntimo prazer de me acordar.

Podia estar sonhando no mais perfeito paraíso, mas o menino travesso insistia em me trazer para a realidade. Tinha medo de que minha alma, que ficava vagando de mundo em mundo, se assustasse com o barulho, nada sinfônico, produzido pelo beijo forçado entre manchetes do dia com as frestas da minha veneziana, e não mais encontrasse o caminho para voltar ao meu corpo. Cheguei a espiar o menino pelo portão, acordando mais cedo que ele, e pude notar o sorriso em seu rosto ao arremessar o jornal contra o meu sono. ...
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14/05/2008 - Caiu uma floresta inteira

Caiu a última pedra que incomodava no sapato dos desmatadores. Marina Silva pediu demissão. Segundo os ambientalistas que atuam nessa área, o pedido de demissão da ministra do Meio Ambiente é a declaração da abertura da temporada de derrubada oficial da Amazônia. Além disso, a saída da ministra é vista como sinal claro do fracasso da política ambiental de Lula.

Marina tentou mostrar durante seis anos que, para o Brasil ser moderno, ele precisava integrar a dimensão ambiental ao seu desenvolvimento. Infelizmente a dimensão econômica falou mais alto. A Amazônia perdeu, o meio-ambiente perdeu, os ambientalistas perderam, a sociedade perdeu e os donos do capital ganharam mais uma batalha....
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