Daniel Campos
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Encontrados 28 textos. Exibindo página 3 de 3.

21/02/2008 - Uma cultura de paz

Quando menos se espera, a esperança nasce como uma flor de lótus - no meio do lodo. Esta flor representa o poder de transformação. E a vida, não se cria nem se perde, transforma-se. De repente, dentre um amontoado de projetos políticos que interessam a uma minoria, produzindo um enorme retrocesso para o restante do país, surge algo que nos leva a dizer: valeu a pena ter amanhecido.

Na tarde de ontem, conversando com a senadora Patrícia Saboya, testemunhei a semeadura de um Brasil maduro. Por seu histórico de luta a favor da criança, ela foi escolhida pela Sociedade Brasileira de Pediatria e pela OAB para apresentar o projeto que aumentaria a licença-maternidade de quatro para seis meses. A campanha decolou, o projeto passou no Senado e caminha para a aprovação na Câmara....
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Uma fé, uma voz, um tempo

Os tons pastéis da igreja matriz se derramam pela praça. Uma praça com coreto, fonte e bancas de jornal. Uma matriz de escadarias e torres que lembram as fortalezas que um dia, alguém nos contou em histórias. Pelos arredores da matriz, uma voz pausada. Uma voz que é metade som, metade silêncio.

Havia quem passasse sorrindo, havia quem passasse dançando, havia quem passasse com pressa. E como passavam, morriam. Consolo para os que passavam amando, amando não importa o que, se um alguém, se um tempo, se uma música. ...
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29/07/2008 - Uma fila chamada Brasil

Fila de banco, além de estresse, é uma oportunidade indigesta de aprendizado. É uma vitrine social. Afinal, entra e sai gente de todas as cores, credos, classes sociais, idades, sexos, ideologias. Muito bem. Estou eu em uma longa fila de um banco privado a observar a falta de civilidade de uma pátria que adotou o "jeitinho" como opção de vida. Brasileiro quer se dar bem e isso é fato. Depois a gente não sabe a razão de o país ser miserável e corrupto. Os grandes pilantras nasceram de uma sucessão de pequenos maus-hábitos....
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29/09/2008 - Uma floresta no meu quintal

No meu quintal tem sibipuruna, tem, tem árvore da fortuna, tem, tem buriti, tem, tem pequi, tem, tem palmeira e figueira, tem. Tem, tem, tem uma floresta no meu quintal. Tem unha-de-vaca, alfavaca, imbê e guaimbê e até um abacaxizal no fundo do meu quintal. Tem tucum e urucum. Tem ipê-do-morro e carrapicho de cachorro. Tem mamona e azeitona. Tem hibisco e tem chuvisco. Tem flamboyant e hortelã. Tem boldo e pau de dar em doido, tem manacá-da-serra, tem ingá, tem cajá, tem jatobá, tem araçá e muita fartura na pintura do meu quintal a la Lasar Segall. ...
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13/05/2008 - Uma nova abolição

Negro. Onde estão teus direitos, negros? Quantas correntes brancas ainda lhe prendem, negros? Negro, para onde foi a abolição da tua escravatura? Aboliu? Sumiu? Ninguém mais a viu? Corre negro pela estrada branca à procura da igualdade que se sonhou. Sonhou demais. Ah! Negro, aonde vai dar este navio negreiro? Ah! Negro, prisioneiro de um passado mal contado nos livros das escolas brancas.

Negro. Onde estão teus deuses, negros? Será que estão escondidos por detrás dos santos brancos? Onde está tua boca negra, teus olhos negros e teu útero negro para fecundar uma civilização de aves negras que possam voar rumo ao horizonte detrás dos montes estrelados salpicados de estrelas vestidas da noite negra. Ah! Negro, vamos brotar uma lavoura negra neste Brasil que não se assume negro. Ah! Negro, vamos sonhar um sonho negro nesta pátria que é africana, suburbana e tirana com seus filhos, negros....
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30/09/2008 - Uma outra cidade

Eu não entendo a língua dos brancos. Eu não vivo nos brancos da página. É melhor viver no negro, no azul, no vermelho das palavras que tingem a brancura desta cidade de papel. Mas essa cidade é secreta, feito uma terra que já virou lenda. Ao menos, para os olhos dos brancos. E é assim que passo os meus dias, moendo o açúcar das palavras em busca dessa cachaça poética, que pinga dos tonéis e é levada por meus pensamentos no gemer dos carros de boi. Passo os dias dançando em busca da chuva das palavras, invocando o Tupã das palavras, caçando e colhendo a alma das palavras. ...
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21/09/2008 - Uma senhora de coração azul

Lá vem pela estrada uma senhora de sombrinha aberta ao sol trazendo, por entre a penumbra, um semblante sério que logo se desmancha numa afabilidade de açúcar. A senhorinha tem passos pequenos e caminha numa leveza que, há primeira vista, parece volitar. Traz consigo aquela velha Minas dos contos de Guimarães Rosa que já não contam mais. Uma Minas que pulsa em seus gestos, em seu falar, em seu uai mais bem afinado, sô. Vem de sandália baixa, numa simplicidade tão nobre de se ver. E sem perder a postura de professora, vem ensinando o amor para aqueles que cruzam sua estrada. Uma sensação de ternura, de aconchego, de contentamento, de doação caminha ao seu lado e contagia o mundo que, com todo respeito, abre passagem para ela prosseguir tecendo sua estrada, que é de barro, sopro e fé. ...
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Uma taça de traição

Os ponteiros do relógio, embaralhados e em silêncio. Numa lentidão de pôquer, avançavam para além das duas horas. A noite que não se sabia, se noite ou madrugada, passava em tons escuros e desertos. Como de costume, quando ela chegasse não precisaria tocar campainhas, machucar a mão na porta, gritar entre as lanças do portão... bastava encostar seu corpo na porta e... e a porta ganharia o ângulo de um decote. Diante dela, os ponteiros do relógio desapareceriam. Diante dela a noite entraria numa espécie de depressão pós-parto. Atrás dela não existiriam trancas, cadeados, segredos... ...
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