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Encontrados 43 textos. Exibindo página 2 de 5.
20/09/2008 -
Pedaladas verdes
O menino pedala sua bicicleta estreita, levando no guidão uma sacola de plástico com sete, oito, nove mangas verdes. Levava a caipirice da manga comum, que não fora batizado com nome importado algum. As mangueiras, festeiras depois do retorno da chuva, exibem suas pencas de mangas. É como se estivessem enfeitadas para a primavera. E as saias verdes, bem rodadas, que se espalham pelo concreto da cidade são de encher os olhos de qualquer um. E, passando por debaixo dessas saias, numa mais que completa meninice, o menino avança com sua bicicleta grená. ...
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Pela frente ou pelas costas?
A campainha se oferecia, se esticava, tentava ser uma perna cravada na parede... Mas suas mãos de esmalte corroído por dentes nervosos temiam-na. Ou melhor, temiam o que existia por detrás da campainha. O portão, feito com um jogo de barras de ferro, impediam seus olhos de avistar o que existia lá dentro. Ela rabiscava os ouvidos naquele concreto grosseiro do muro só para ver se escutava algo. Ela só ouvia os tijolos conversando. Ela ficava sem graça quando algum vizinho começava a olhá-la com um pouco mais de atenção. Logo disfarçava, fingia estar esperando ônibus, depositando cartas (levava sempre envelopes na bolsa) e até ser uma moradora daquelas calçadas....
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Pensamento
O tempo levanta escuro. Um cinza quase negro. O vento se mostra selvagem. Vira de um lado, vira de outro. Não sossega. Como um cavalheiro, dobra a cintura das árvores em sua dança. Como um sedutor barato, parece querer abocanhar todas as folhas. Folhas verdes. Folhas vermelhas. Folhas amarelas. Folhas rodopiando no ar. Vez ou outra, um barulho de manga caindo no chão. Em meio aquele vento, nem as abelhas conseguem se sustentar no ar e assim, rodopiam. Venta. E o vento varre as águas do lago. Sereias e botos se escondem. Venta. E o vento vasculha cada palmo de terra, descoberto ou não. O vento parece procurar alguém. De repente, uma nuvem de poeira passa apressada, com medo de se molhar. Os olhares se enchem de céu. Um céu que ronca. O medo de chuva de pedra. Trovões. Os cachorros se protegem como podem. As cigarras mais abusadas ainda cantam. As portas batem. Os pedidos para que a chuva venha calma se proliferam. Os relâmpagos e seus clarões iluminam os rostos. Por alguns instantes, alguns rostos surgem como há tempos não se via. Já há quem providencie panelas para capturar as primeiras goteiras. Já há quem queime palma benta, jogue sal grosso no terreiro, invoque a proteção de santa Bárbara. E ela, a chuva, chega. Primeiro, um chuvisqueiro prematuro. Uma pausa. Depois, ela se entrega. O vento ainda carrega suas águas. O pó se cala no chão. A terra escorre suculenta. As nuvens se cruzam ligeiras. De repente, um pássaro se arrisca num vôo solo. O tempo fechado como poucas vezes fora visto. O horizonte some. A chuva que desaba no lago é a mesma que se transforma em algumas gotas numa teia de aranha. Alguns conversam, outros se aquietam e deixam seus olhos correrem para aquele mar de ponta cabeça. Olhos piratas que velejam em busca de alguém.
14/04/2008 -
Pense no aborto
Pense no aborto. Pense no destino final dos fetos. Pense no choro das crianças abortadas. Pense na dor de ser tirado vivo de um ventre que o rejeita. Pense nos bebês que são jogados no incinerador. Pense no cheiro daquela criança não-nascida pegando fogo. Pense no colorido das fumaças que saem das chaminés. Fumaças rosas para meninas. Fumaças azuis para meninos. Fumaças negras de luto. Pense no cheiro, na cor, na dor dessa esperança perdida.
Pense nos milhões de quase-recém-nascidos que são vendidos para as fábricas de cosméticos. Pense nos sabonetes e nos cremes feitos com as proteínas da carne de alguém que podia ser seu filho. Pense no seu corpo, debaixo do chuveiro, ensaboado na espuma de fetos abortados. Pense nas peles de milhares de fetos virando bolsas a desfilar por ai. Pense nos sabões feitos com a gordura desses fetos lavando o uniforme dos soldados que estão no Iraque, matando, matando, matando. Pense na barbarie. ...
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Per fumum
Não vejo nada, tampouco ouço. Hoje, sou só um nariz andando pelas ruas. Pelas ruas de fora, pelas ruas de mim. Sou como aqueles cães farejadores que se guiam pelo tempero dos cheiros. Quero viajar no mundo das memórias olfativas e resgatar todo afeto transformado em perfume. O momento é deveras apropriado, afinal estamos na primavera. Assim como os amores e as cores, os cheiros são mais possíveis nessa época.
Lembre-se do cheiro da infância, do cheiro de mãe, dos cheiros da casa, do jardim, da rua, da escola, da cidade e de outras cidades. Vamos descobrir o que está escondido atrás do mundo feito de imagens. Enquanto o paladar só distingue seis ou sete sabores, os narizes captam milhares de cheiros. Eu, por exemplo, guardo imagens e sons relativos a Ayrton Senna, mas a emoção vinda do odor dos pneus queimados do tricampeão de Fórmula-1 é algo inexplicável para os outros sentidos. ...
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19/08/2008 -
Perfuma geral
A Índia, segundo país com maior número de habitantes do mundo, recorreu a uma prática inusitada para acabar com o mau cheiro causado pelos lixões. O governo está borrifando perfume nesses depósitos a céu aberto para tentar reduzir o fedor que castiga os moradores das redondezas. A essência, produzida à base de ervas, é pulverizada todos os dias. E não é que os moradores estão satisfeitos com o resultado.
Diante deste fato, sugiro que o Congresso Nacional, as Assembléias Legislativas, as Câmaras Municipais, o Palácio do Planalto, as sedes dos governos estaduais, os ministérios, as prefeituras e tudo o que emana esse fedor político que é produzido no Brasil seja pulverizado com perfume semelhante pelas forças extraordinárias. Eu não agüento mais esse cheiro pútrido que exala dessa politicagem feita em benefício próprio. Corrupção cheira mal, nepotismo cheira mal, mentira cheira mal, falta de compromisso com o eleitor cheira mal... ...
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Perturbadora
Cumprindo uma espécie maldição, ela estava lá. No mais improvável do improvável, lá estava ela. E pior, ele nem sabia quem ela era. Mas sabia que ela o seguia, mesmo sendo a primeira vez que a via. Talvez ela já aparecesse de outras formas, de outros jeitos, mas com o mesmo frio na sétima vértebra. E ele era supersticioso por demais. Aliás, tudo dele era por demais. O nervosismo levava as unhas, como cordeirinhas, a sua boca. Mas dali a pouco ela iria embora. Afinal, eram tantos ônibus, tantos trens, tantos aviões, tantos submarinos que poderiam levá-la para longe. Tudo acabaria em alguns poucos segundos. Não havia razão para tanto. Ou havia?...
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Pirâmide de sal ou de açúcar
Uma pirâmide cresce no meio de um deserto feito de muitas árvores, rios e flores. Não importa se as árvores são magérrimas, se os rios estão submersos e se as flores estão descoradas pelo sol que arde unânime no céu. O que importa é que esse reino existe em torno daquela pirâmide que não é de pedra, mas de sal ou de açúcar.
A distância existente entre a mulher e a pirâmide não a permite sentir o gosto e, por ordem superior, não há vento nem doce nem salgado a ventar por ai. A pirâmide está ao lado do horizonte mais profundo daquela mulher que corre em vão para encontrá-la. Quanto mais corre, mas longe a pirâmide se coloca. Comporta-se como a peça de um tabuleiro de xadrez que acuada pelo desvario do oponente, foge. Ou melhor, joga. ...
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02/04/2008 -
Pobres jacarés
Tem dias em que me revolto a ponto de pensar que o mundo tem mais é que acabar mesmo. A evolução da humanidade, considerada como uma das mais fantásticas do mundo, chega a ser uma tremenda regressão em se tratando daquele gene primitivo do dominar, dominar, dominar. Ser humano acredita que nasceu para dominar tudo e todos, que suas ações não têm limites, que as conseqüências não importam. Por maior o leque de informação disponível no mercado, o homem continua a achar que o mundo gira em torno de seu umbigo e o usa em benefício próprio....
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17/12/2008 -
Podres poderes
O retrato nu e cru do exército brasileiro é exibido diariamente em rede nacional, chegando ao cúmulo de militares roubarem doações feitas para os desabrigados de Santa Catarina. Não é de se admirar que as forças autoritárias, que se escondem atrás da farda do patriotismo, de um fuzil e de um podre poder, responsável por absurdos durante o regime ditatorial, tenham tal comportamento. Para quem acredita estar acima do bem e do mal, a atitude de se dar bem a qualquer custo e sob a lei do menor esforço é típica de quem, historicamente, tortura, exila, censura, mata. Que democracia é essa em que os militares fazem da rua pública o porão do Dops? ...
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