Daniel Campos

Prosas

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Encontrados 3193 textos. Exibindo página 315 de 320.

Sem saída

Sem saída. Eis o estado que define a mulher que nem se valera do último amor nem se livrara dele. O último romance não foi o suficiente para fazê-la feliz e era mais do que suficiente para impedi-la de se apaixonar novamente. Ora parecia querer amar de novo ora queria reviver o caso mal resolvido. Queria voar outros céus, beijar outras bocas, entregar-se a outras entregas, mas não tinha coragem de trair o que não conseguia chamar de passado.

Não acreditava mais naquele amor, mas não o desacreditava. Não sabia por onde sair. Pedia conselhos à mãe, à irmã, aos amigos mais próximos, mas tudo girava dentro da sua cabeça e ela não chegava a lugar algum. Na verdade, o que ela mais queria é que ele terminasse esse pseudo-namoro. Ela ficaria com raiva, num choro só, mas depois poderia re-começar, tentar de novo com outro alguém. Afinal, não gostava de ficar sozinha. E isso era o que mais lhe incomodava. Aquele velho ditado ? antes só do que mal acompanhada ? não fazia o menor sentido para ela....
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Sem tempo

Um alambique de pinga abandonado queria dizer-me que tinha ali, entre seus tonéis, litros de passado... Os tijolos à vista estavam escuros pela baba dos musgos. A chaminé, ainda alta, me aguçava uma vontade de escalá-la, de interrogá-la, de encher os pulmões com o teu resto de fumaça. Ela devia guardar tantas coisas em seu vazio escuro. Tenho certeza de que nenhum papai-noel jamais descera por ali. Eu seria o primeiro a desvirginar aquelas paredes de fuligem. Paredes que não mais deveriam saber o gosto da pinga. ...
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Serenata

As estrelas quase não teriam mais o que conversar. As janelas, fechadas, guardariam segredo. A rua, vazia, aos poucos sumiria em si mesma. Nem as sombras do céu brincariam de roda no meio da rua. Os cachorros dormiriam e nenhum felino se equilibraria sobre os muros. As árvores de tão quietas pareceriam enfeites. De fato, ninguém ousaria esperar mais nada daquela noite alta. Seria uma noite como tantas outras noites. Uma noite de sono. Uma noite qualquer. Mas quando menos se esperasse... da rua surgiria uma nota. E depois outra. E mais outra. ...
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Sete dias de espera

Muito obrigado, dona Adélia, por ter me esperado. É claro que a UTI não é o melhor local para se receber uma visita, mas sei que foi o melhor que a senhora pode me oferecer naquele momento. Sou grato por ter me ofertado seus últimos instantes, seus últimos sorrisos, suas últimas lágrimas. A senhora só esperou uma palavra, um aperto de mão, um beijo meu para seguir seu caminho. Missão cumprida, não é dona`délia?

A senhora me esperou mais uma vez, assim como me esperava para as polentas com frango as quintas-feiras à noite, às missas nas alvoradas de domingo, às feiras aos sábado, às limpezas de casa as quintas-feiras. Ah... vivi-a diariamente. Por quantas às vezes a senhora me esperou de marmita pronta para eu ir ao sítio, para lhe trazer o dinheiro da aposentadoria, para replantar seu jardim de margaridas, para pintar seu cabelo, para me dar a hóstia consagrada, para fazer aquelas taxadas de doce de banana ou sabão de barra ou para, simplesmente, jogar conversa fora? E eu nunca lhe deixei na mão, não foi? Desta vez não seria diferente. ...
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Sete saudades

Noite. Não me pergunte por onde andava a lua. Havia quem dissesse que ela se despregara do céu. Havia quem dissesse que se atirara ao mar. Havia quem dissesse que chorava num quarto, inteiramente, escuro. Eu preferia não dizer nada.

A noite nos lustres. Quantos os sonhos daquelas estrelas artificiais. Os anjos, os santos, os deuses. As vozes tristes de um coral que sorria. A voz lenta e grave que enchia o ambiente. Um homem vestido de branco. Os enfeites, as flores. Talvez fossem sete flores, cada qual na sua cor, no seu perfume, no seu texto. Sete vozes, cada qual no seu ritmo, no seu tom, no seu corpo. Sete lustres, sete mil lâmpadas, sete milhões de sonhos. Sete vinhos, sete uvas, sete sabores. Sete mãos, sete colheitas. Sete pães, sete trigos, sete ceifas. ...
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Sexta-feira santa

Pela virgem dolorosa
Pela mãe tão piedosa
Perdoai-nos meu senhor
Perdoai-nos meu senhor

Esses versos cortam. Cortam feito vento. Cortam feito um pressentimento que, de tão bruto, não sabe se bom ou se ruim. Esses versos latejam como ferida aberta, que o tempo, feito um mertiolato barato só faz arder. Versos que rangem dentro de mim, como aquela porteira que já não abro mais. Versos que me arrastam e que me levam. Versos que, nesses movimentos, trazem um mar revolto onde se escondem os tesouros de um pirata de perna de pau. Versos que me rasgam assim como eu rasgava as folhas do calendário do Sagrado Coração de Jesus da casa da minha avó. Versos de uma noite escura. Versos de um vento frio vindo não sei de onde. Vento arteiro que fazia estripulias para apagar a chama das velas em procissão. Ah! As velas. Aquelas velas finas e cumpridas que já não saem mais por ai. Calmamente, preparava-se o copo, furando-o com a chama de um palito de fósforo para que a cera quente não queimasse o dorso de nossas mãos. E a noite era só da luz das velas. A lua vestia a mortalha da escuridão e as estrelas menos respeitosas, brilhavam, mas um brilho minguado, quase fosco. Como castigo, elas iam morrendo, queimando e ardendo em seu próprio fogo. O dia era de silêncio. Mas os versos rasgavam o silêncio em passos geométricos. Por meio das rezas e dos cânticos de duas filas indianas, sobre os ombros, vinha o andor de nosso senhor morto....
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Sherlok homes, 007 e companhia

Cuidado! Antes de ler esse artigo tenha a certeza de que está sozinho. Olhe para trás, para os lados, certifique-se que não está sendo seguido. Toda a precaução é pouca. Há uma onda de Sherlok Homes agindo no Brasil. São cerca de novecentos agentes secretos com o aval do governo espionando o que não deve ser bisbilhotado.

Não contrarie o governo, se o fizer faça de um jeito que ninguém tome conhecimento da sua indignação. Eles investigam quem questiona o governo. Lembra do Itamar Franco, o governador de Minas Gerais; do procurador da República Luis Francisco; do jornalista Andrei Meirelles, da revista Isto É, que apurava o escândalo do TRT paulista? Pois bem, todos eles questionaram o governo. Todos eles tiveram suas vidas espionadas pela Abin....
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Silva - o sobrenome do brasil (apresentação)

O livro-reportagem "Silva - o sobrenome do Brasil" nasceu do desejo de se conhecer um país. Inspirados por Noel Rosa que cantou que não se aprende samba no colégio, deixamos os bancos da escola e fomos em busca desse país imaginado. Queríamos descobrir a importância do sobrenome Silva para o Brasil e contribuir para esclarecer sobre a forte presença dele em nossa terra. A motivação deveu-se ao fato de que consideramos Silva como sendo um traço marcante da identidade brasileira, sobretudo por ser o sobrenome mais comum no país. Embora nem mesmo as pessoas que o carregam saibam sobre a origem dele....
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Silva - o sobrenome do brasil (introdução)

Um vento leve soprava as velas de pano das embarcações portuguesas. A tripulação se guiava pelas bússolas e pelas estrelas. Certamente, poucos sabiam sobre as lendas gregas, sobre as constelações. Lendas não importavam para se fazer comércio. Em breve, contornariam a silhueta atlântica da África e partiriam rumo às Índias. Comprariam especiarias, como canela e pimenta do reino, para venderem a preço de outro na Europa. As caravelas cortavam o oceano como facões desbravadores. Antes de avistarem as ninfas cantadas em versos por Camões, o tempo virou....
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Sinal vermelho

Num cruzamento sujo de ruas sujas ela surge suja diante da vermelhidão suja da luz suja de um semáforo sujo, ela, de toda suja, leva um tabuleiro sujo colado à cintura suja com balas e chicletes sujos. Unhas sujas, cabelos sujos, colo sujo, pés sujos. Encardida. Cheirava mal. E ali, por entre carros sujos de motorista sujos aquela mulher vendia doces emporcalhados. Em meio a tanto lixo, a poesia tão logo nascia, era devorada por abutres e urubus mais sujos ainda.

Recebia algumas moedas sujas que, na verdade, eram sujas como as esmolas sujas que recebia pela pequena fresta suja de vidros sujos de mãos imundas. O sol sujo fazia escorrer um suor fedorento em seu corpo sujo. Bicas de uma água poluída ganhavam seu corpo sujo. Seus olhos eram sujos seja de remelas sujas ou de visões mais sujas ainda. Seus ouvidos eram sujos seja de cera ou de maldições. Seu nariz era sujo seja de sujeira ou dos cheiros podres que sentia. ...
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