Daniel Campos

Prosas

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Encontrados 3193 textos. Exibindo página 314 de 320.

Sala de estar

A sala de estar estaria de toda escura se não fosse pela penumbra da música de Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano Veloso, Elis Regina espalhada num carrossel. Podia ser qualquer um deles, mas, no momento mais precioso da noite, era Tom Jobim. Embora não houvesse porta-retratos na sala, existiam tantas fotografias. Feitas de imagens, cheiros, sons, marcas. E a música continuava falando de amor.

Alguns passos no tapete da sala e os olhos afeitos de uma cachorrinha que parecia saber mais do que supúnhamos. Mais alguns passos e alguns livros certos na hora certa no lugar certo. E incerto, tropeço em Vinícius e Drummond. O amor em notas e em versos....
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Salve-se quem puder

A música do plantão jornalístico da Globo invade os ouvidos. A voz de Fátima Bernardes diz que o primeiro de três porta-aviões norte-americanos chega ao litoral que já foi das caravelas de Pedro Álvares Cabral. Primeiro, como no Oriente Médio, os bombardeios. Depois, as tropas terrestres. A tão frágil democracia brasileira espalhada em zilhões de cacos. O que é isso??? O Brasil atacado por alienígenas? O trailler do novo filme de Spilbergh? Não, o Brasil tomado pelos "sem". Tudo quanto é tipo de sem: "sem-teto", "sem-terra", "sem-privilégio", "sem-sucesso", "sem-cheque especial", "sem-vergonha"... ...
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São demais

São demais os mistérios que rodeiam uma mulher. São demais as cores e as sombras que fazem uma mulher. São demais as orquestras que habitam o silêncio de uma mulher. São demais os perigos que se afogam no colo de uma mulher. São demais os feitiços que rondam os olhos de uma mulher, (são elmos, magos, bruxas, fadas, deuses de todos os credos que se dão nos olhos de uma mulher). São demais os sonhos adormecidos no cabelo de uma mulher. São demais as formas que a geometria não soube definir presentes em uma mulher. São demais os apelos que exalam de uma mulher. São demais os ângulos criados pelo andar de uma mulher. São demais os murmúrios trazidos pelos segredos de uma mulher. São demais as alucinações que mesmo em face de tantas impossibilidades emergem de uma mulher. São demais os medos provocados por uma mulher. São demais os planos em que se esconde uma mulher. São demais as loucuras (em forma de prazer ou sacrifício) feitas por e para uma mulher. São demais os enganos escondidos em uma mulher. São demais os escândalos. São demais as hipóteses. São demais as vontades. São demais os amores hipocondríacos que se alimentam dos mistérios de uma mulher....
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Sarjeta

Sem atender as reivindicações do Ministério da Saúde, a fumaça de um cigarro mais atrevido requeima os tecidos da noite. Para os metereologistas, uma noite úmida. Para os desesperados, chuva à frente. Para os poetas, uma noite choramingando seu pranto tanto em forma de sereno.

Entre a fumaça, uma menina de rosto sujo pedindo esmola, um vendedor de botões de rosa nem sempre cor-de-rosa, um garçom vestido de garçom que escuta demais e um celular que toca o tema de um filme. Sobre esse pano de fundo, ela exibe seu portifólio de sorrisos. Outra cuba. O rum dos piratas de além mar. A coca-cola de uma geração proibida. O gelo dos ursos polares que estão derretendo. Todos esses elementos se misturando com a saliva daquela última Eva. E ela nem mesmo se chama Eva, não namora nenhum Adão, mas sabia de todos os pecados contidos em uma maçã. ...
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Saudosismo

Saudade de quando a saudade era só mais uma profecia, como tantas outras que não se cumprem. Saudade do tempo em que você vinha, e o seu vir tinha uma elegância nunca dantes vista. Saudade daqueles saltos que deixavam a sensação de que a qualquer instante riscariam o piso em passos de tango. Saudade daquele sorriso que começava a se desenhar lentamente em sua boca e que morria vagarosamente em outras bocas, saudade, (confesso que até hoje, guardo alguns desses sorrisos intactos, por mais que o tempo ouse roubá-los). Saudade daquele olhar que tombava longe, tão longe que me fazia acreditar que a vida era possível. ...
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Se é amor

Se é amor, eu quero continuar até o fim, se é que existe fim. Se é amor, eu quero uma confirmação a cada instante. Se é amor, desde já me confesso a sua vontade. Se é amor, pode me pedir o que bem quiser. Se é amor, pode me dispor do que achar necessário. Se é amor, quero quebrar distâncias, todas as distâncias em suas formas e conteúdos. Se é amor, nenhum sonho pode ser dado como perdido. Se é amor, é preciso contar segredos sobre nós dois. Se é amor, ninguém pode e deve nos convencer do contrário. Se é amor, todas as esperas hão de ser benditas. ...
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Se eu morrer de amor

Se eu morrer de amor, quero fazê-lo só depois de amanhã, quando, enfim, possa me despedir com plena calma da criatura amada. Que o amanhã seja longo para ter tempo de dizer tudo o que angustiei no cárcere das minhas cordas vocais. Falar, murmurar, recitar... Da maneira mais natural possível, só para ver cada reação dela a uma nova revelação, a uma nova palavra, a um novo eu. Se eu morrer de amor... O amanhã deve ser saboreado numa degustação refinada e demorada, a fim de apagar o dissabor dos encontros idealizados. Definitivamente, o amanhã precisa tender ao infinito para que a despedida não seja inacabada, nem tenha perspectivas de volta, sendo última sem nunca ter sido primeira. A despedida, obrigatoriamente, não deve selar o fim, apenas uma espera do amor. A espera pela mulher amada. Se eu morrer de amor... Escorrerei meus dedos descrentes sobre toda a superfície concreta do seu corpo, para lembrar a causa do meu amanhã derradeiro. ...
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Se você a encontrar

Se você a encontrar, esconda-se, por alguns instantes, e tente capturar o universo singular que a cerca. Se você a encontrar, em nenhum momento tenha a ilusão de que ela não está ou estava lhe observando. Se você a encontrar, não tenha medo de ter medo. Se você a encontrar, siga-a por onde for (ah conta-me os passos dela), mesmo que jamais conseguia segui-la por completo. Se você a encontrar, traga-me o que ela lhe deixar trazer. Se você a encontrar, diga tantas coisas já ditas, ou melhor, diga o silêncio (um silêncio com ares de reencontro). Se você a encontrar, analise as suas frases semanticamente, psicologicamente e vinicianamente. ...
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Seguindo em frente

Ela tinha uma mochila nas costas e uma série de caminhos na cabeça. Caminhos de alto relevo, de montanhas íngremes, de desejos, de oceanos. Seus olhos, como dois marujos postos naqueles mirantes de um navio, projetavam-se sempre à frente. Terra à vista. Aventura à pista. Paixão à vista. Ela e sua mochila rosa. Mas não era um cor-de-rosa qualquer, era um rosa choque. Mais do que uma cor, era uma sina. Se plantasse flores, colheria rosas choque. Se usasse batom, lambuzaria seus lábios de rosa choque. Se usasse camisola, seria rosa choque. ...
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Sem rumo

Não sei quem sou. Sei que ando. Não sei o rumo. Piso em folhas secas que não agüentaram esperar pela primavera e que os jardineiros não tiveram pressa para varrer. Ouço vozes. Olho para os prédios e só vejo vida nas luzes que ultrapassam os vidros das varandas. Janelas. As vozes pareciam ser do concreto. Mais a frente, um cachorro me olha desconfiado. Mais a frente ainda, um grupo de seis meninas ensaia uma coreografia. Passos para lá. Passos para cá. E meus passos são para frente. Para frente rumo ao passado. Ao passado do futuro. ...
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