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Encontrados 59 textos. Exibindo página 1 de 6.
31/12/2008 -
O que fica pelo caminho
Quantos versos, quantas linhas, quantas declarações de amor vão ficar para trás. Quantos beijos, molhados e doces, vão ficar para trás. Quantos sonhos, caídos pelo caminho, vão ficar para trás. Quantos rostos, a se perder pelos dias, vão ficar para trás. Quantos tijolos empilhados, quantas cartas encasteladas, quantas pedras do dominó enfileirado que é a vida vão ficar para trás. Quantos sorrisos, soluços, choros e prantos vão ficar para trás. Quantos vôos voados ou não vão ficar para trás.
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23/12/2008 -
O grito de Van Gogh
Há cento e vinte anos, Vincent Van Gogh, um dos pintores mais aclamados de todos os tempos, cortava parte da sua orelha esquerda. Loucura? Depressão? Arte? Há quem corte os pulsos, quem corte o pescoço, quem corte as genitálias, mas cortar a orelha? O que será que passou na cabeça do pós-impressionista? Se quisesse se matar, o pintor holandês certamente daria uma outra direção à lâmina. Talvez quisesse se castigar ou provar que poderia ir além de qualquer limite.
Não conseguiu ter família. Não conseguiu se sustentar. Não conseguiu ter amigos. Não conseguiu ver o sucesso de suas obras. Era como se em seu mundo, só houvesse ele de habitante. E nessa solidão, a orelha, que ouvia desaforos, o incomodava. Então, era melhor cortá-la. Mais de um século depois deste ato que mitifica ainda mais o seu universo, pense se dá ou não uma vontade de cortar as orelhas depois de ouvir as barbaridades políticas, econômicas, sociais e culturais a quais estamos expostos. ...
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21/12/2008 -
Olhos de terra
O trator, na magia das rodas-gigantes, vai rodando pela terra que nos leva a rodar com ela. Sentado na carenagem do pára-lama vou de passageiro, de aventureiro e de companheiro de um tempo que já longe se vai. E ali, naquele altiplano, vou pela estreita estrada de terra escorrida entre árvores, plantações e o desfiladeiro da linha do trem. Na direção, como capitão daquelas terras, segue Liberato Barbosa, também chamado por Líbio ou vô. A estrada é curta perto do risco que nos rodeia. O sol, feito um pássaro de luz, pousa na palha dos chapéus e fica por ali, cantando seu canto de calor. ...
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19/12/2008 -
O que é o amor
Já que o amor nasce do livre-arbítrio, ser amante é uma questão de liberdade e escolha. Ou você ama ou odeia. Nunca fique no meio termo, para o seu próprio bem. Amar não é uma coisa morna, mais ou menos, vivida pela metade. Amar é a entrega por inteiro, a busca constante do infinito e o viver da forma mais intensa possível. Por isso, antes de crer no amor, é preciso compreendê-lo. O que é o amor? É algo que versa sobre a existência e a eternidade da alma e de seus caminhos. O amor transforma quem ama para que o ser amante ou amado transforme o mundo. Há toda uma ação e uma reação, uma causa e uma conseqüência, um impulso e uma cadeia de acontecimentos por detrás do ato de amar....
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15/12/2008 -
Ora bolas
Bola de chiclete. Bola de boliche. Bola do globo ocular, do lustre da sala de estar. Bola de entorpecente. Bola de mamona. Bola de lua cheia. Bola de meia. Bola de botão. Bola de bolinha. Bola de bilhar. Bola de golfe. Bola de bolo alimentar. Bola de embolada. Bola de basebol, de futebol, de basquetebol, de voleibol, de frescobol, de handbol. Bola chutada, arremessada, lançada, acertada, soprada por alguém. Bola de sabão, boiando no céu, transparente e inocente, desafiando o mundo num sopro de ilusão. ...
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11/12/2008 -
Onofre, nofeeeee
Sem quaisquer avisos, seu Antônio, um camponês de olhos doces e barriga avantajada, apareceu na vila, que fica lá detrás do mundo, trazendo um casal de bezerros recém desmamados. Até aí, nada de anormal. O intrigante dessa história é que uma menina de dois anos chamada Maria se apaixonou perdidamente pelos bichos, principalmente por Onofre. Isso mesmo, por distração ou pirraça, seu Antônio batizou o boi caramelo com o nome do coronel mais temido do local. E se dependesse da empolgação de Maria, o cabra saberia logo do acontecido e seu Antônio pagaria o pato. Mas como a história não é nem de cabra nem de pato, vamos dar a palavra ao Onofre. ...
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15/11/2008 -
O mundo na barriga
Já havia passado do prazo dado pelas suas contas, pelos médicos e pela natureza. O menino estava a cada dia mais forte, cansando-lhe o corpo. A maratona de hospital-casa, casa-hospital já havia virado rotina. As dores do parto, as contrações, a eliminação de líquido eram mais que suficientes para ela acreditar no nascimento e rumar para a maternidade. No entanto, os médicos diziam que a dilatação não era aquela, que as contrações eram psicológicas, que o bebê estava bem. Coisas de primeira gravidez. Ah! Ela era mãe pela primeira vez e a culpa de tudo parecia estar nesse fato....
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03/11/2008 -
O gosto amargo de 1989
Há títulos que custam muito suor, muito talento, muita determinação, muita ousadia e muito dinheiro. No caso da decisão do campeonato de F-1, que vestiu de verde, amarelo e vermelho o circuito de Interlagos, as cifras roncaram tão alto quão os antigos motores V12 da Ferrari. Eu acompanho esta modalidade esportiva desde as primeiras corridas de Ayrton Senna e posso afirmar, com certeza, que algo não cheirou bem na última do GP Brasil. E esse fedor não foi de borracha queimada ou de motor estourado. ...
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30/10/2008 -
Olhos de peixe morto
Os olhos tristes do peixe na banca da feira são tão profundos quão o mundo que está ao nosso redor. Olhos de uma tristeza que aflora às escamas. Olhos parados, cansados de tanta guerra. Olhos vidrados, que não enxergam o anzol por detrás da isca. Olhos molhados, cujas lágrimas de sal nunca foram vistas. Olhos enlaçados por redes, cortados pela lâmina fria de um sangue que já não jorra. Olhos de peixe grelhado, ao molho, ensopado, ao azeite, assado, cru. Olhos de peixe cru. Olhos de peixe morto. ...
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26/10/2008 -
O crime do padre
Com olheiras roxas, dignas de um vampiro de ressaca, ele foi para a cama. Mas não conseguiria dormir. As últimas noites foram tomadas pelo misterioso assassinato do padre Felício. Rolava de um lado para o outro, mas a cena do pároco morto, aos pés do altar, não lhe deixava a cabeça. O fato de ser devoto de São Jorge, o santo guerreiro patrono daquela igreja, intrigava-o ainda mais. Quem teria cometido o crime e por qual razão? Triplicou o seu consumo de cigarro e passou a roer unhas. Um homem formado daquele roendo unhas? Delegado há 28 anos, poucas coisas mexeram tanto com ele quanto essa tragédia. ...
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