Daniel Campos

Prosas

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13/07/2010 - A copa de Paul

Passados os trinta e um dias da overdose futebolística, uma única certeza: quem ganhou a copa foi o polvo alemão. Paul, apelidado de Nostradamus, conseguiu prever os resultados decisivos da Fifa World Cup South Africa. Com nove cérebros e uma intuição digna do reino feminino, o molusco colocou a ciência em xeque e provou o fascínio da humanidade pela instituição do mistério. Ao contrário dos estádios sulafricanos, o olhar coletivo se voltou ao aquário marinho de Oberhausen, na Alemanha, casa do polvo de origem inglesa. ...
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03/12/2010 - A cor da saudade

Naquela mulher as linhas se alinhavam em destinos e desatinos como numa confecção particular. O maquinário moderno se mistura ao pedal da velha Singer que ficou num canto. Olhos de algodão. Palavras de tricoline. Braços de fita. Passos de gorgurão. Entre um ponto e um pesponto, as tesouras vão tentando cortar as cenas tristonhas e as fitas métricas vão medindo a saudade enquanto alfinetes se acumulam naquele coração que ora é de tecido ora é de carne.

Como é duro admitir que a vida fora do ateliê não é feita sob medida, tampouco cabe em moldes pré-desenhados. Os pais colocaram o pé na estrada deixando-a sem abraço sem boneca. Além do que um dos filhos habita outro mundo, a cachorra deixou de latir e o sogro já não vem. Os sonhos tiveram que ser reformados, remodelados, remendados, porém na sua camisa, de agora em diante, sempre hão de faltar alguns botões. Mas é preciso enfrentar essa vida que um dia é de seda, noutro de juta. ...
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30/09/2015 - A correnteza da vida

Quando vier a correnteza, segura firme nas margens daquilo que você acredita ou então feche os olhos e se deixe levar pela vontade do tempo em toda sua grandeza. Alguns chamam de destino esse menino levado que vem e quebra nossa expectativa, muda nossos planos da noite pro dia e nos livra ora da alegria ora da tristeza. Não planeje demais. Não veleje pra trás. Não engesse a sua vida, pois ela pode se quebrar. A beleza está no movimento das coisas. O segredo está em não ter medo do sentimento que sacode, que implode, que explode a todo tempo. A vida é o balanço, é a mudança, é a oscilação. Nada é como antes nem será agora como depois. Não se prenda. Há sempre uma fenda a lhe transpor para outro lugar. Tudo muda sutil ou bruscamente dentro e fora da gente a cada fração de segundo. Você é só um barco, um barco só, no oceano do mundo. E o mundo não teto nem fundo. Entrega-se. Não nega todo o amor que há no profundo do seu ser que pode vir à tona se o seu chão firme ceder. Não existe amor proibido existe apenas amor não vivido. Pode haver um tremor a qualquer momento misturando o que você guarda no sótão e no porão do seu coração. E se essa mistura acontecer você vai se dispor a viver ou vai se entregar a dor do não? ...
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13/10/2009 - A criatura amada e seus olhares

A criatura amada tem olhos de tsunami, capazes de lhe levar pelos ares, de lhe virar pelo avesso. Como são poderosos os olhares da mulher amada. Um poder metropolitano que lhe faz colônia em menos de três segundos. Fisicamente, eles incitam. Plasticamente, eles gritam. Poeticamente, eles palpitam. Como são tentadoras as pupilas da criatura amada. Urge o desejo de olhá-las até a morte. Creio que deva ser a mesma sensação dos soldados que optam por morrer com honra, em pleno campo de batalha.
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15/12/2012 - A descoberta do pepsamar

Em um mundo vitimado por tantas extravagâncias relacionadas aos comes e bebes um comprimidinho mastigável chamado pepsamar ganha contornos de tábua de salvação. Pode ser comprado com a mesma facilidade de um sanduíche, de um milkshake, de um chocolate. Além de barato, figura nas prateleiras de qualquer farmácia, sendo adquirido sem receita médica. Eficaz e de fácil acesso, uma combinação perfeita para ser utilizada como uma arma secreta.

A sensação do hidróxido de alumínio, o princípio ativo do pepsamar, agindo em nosso estômago no combate a acidez é a mesma da brisa soprando uma vela pelo mar afora em dia de sol azul. Sua ingestão traz momentos de paz e suavidade em um local marcado pelos horrores da azia, da gastrite, das úlceras. É tanta pressa para viver os efeitos do pepsamar que é difícil conseguir que ele dissolva inteiramente na boca antes de cair na tentação de mastigá-lo. ...
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06/03/2013 - A dor da perfeição

O dia amanheceu sem manchas ou borrões. Pela imensidão do céu azul não se encontrava marca alguma de nascença. Um desses céus de novela, sem nuvem, sem névoa, sem sombra, sem cisco... Nada de moscas, gafanhotos ou outros insetos. Nem mesmo os pássaros se atreviam a voar naquele céu criado numa espécie de photoshop divino. Os olhos não conseguiam avistar nem mesmo balões coloridos ou aviões. Astronautas, pilotos e aventureiros ficaram de fora.

Um céu quieto, sem ruídos ou ópera. Um céu sem sinal de anjos ou deuses. Um céu vibrante, intenso e exuberante. Um céu para turista algum botar defeito. Um céu belo e doído em sua infinitude. A perfeição dói. Aquele céu plástico, corrido, sem pinceladas, causava um incomodo nos olhares. Difícil olhá-lo de forma aberta, sem piscar ou chorar. Impossível explorar as belezas e mistérios desse céu que nos apequena em nossos defeitos. ...
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20/04/2012 - A dor de existir

Não há dor pior do que a lucidez. Estar lúcido é estar vulnerável a um sem número de sofrimentos. Melhor seria viver em uma realidade particular, onde sonhos pudessem ser tão concretos quão as pedras deste mundo. Se nós estamos conscientes, toda ilusão, por mais densa e deslumbrante, mais cedo ou mais tarde se desfaz. É triste saber que nenhum sonho é para sempre, que as fantasias têm as pernas tão curtas quão as da mentira, que os contos de fada não existem para além dos livros e que nossos heróis já morreram. ...
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15/03/2012 - A dor segundo Schopenhauer

Schopenhauer tinha razão ao afirmar que o mundo não é mais do que uma representação. De um lado, o mundo-espaço, o mundo-tempo. De outro, o mundo-consciência íntima e subjetiva, que é mais profundo do que podemos imaginar. Nessa representação o homem se move por meio de suas paixões e aspirações. O homem como reflexo de sua vontade. Para o filósofo, nos realizamos e sofremos com nossas vontades. A humanidade refém de suas aspirações. O prazer é só a superação momentânea da dor. De fato, Schopenhauer, a dor é a única e verdadeira realidade. Tudo mais é ilusão, mentira, ópio. ...
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19/06/2010 - A era da fragilidade

Das relações econômicas às amorosas, vivemos a era da fragilidade. Tudo se quebra e se rompe e se desmancha com extrema facilidade. Contratos e beijos são voláteis. Hoje são e amanhã já não estão. Os índices das bolsas e o grau dos sentimentos se alteram numa velocidade absurda. Nunca se observou tantos corações partidos. Os divórcios batem recordes. Palavras dadas, declaradas, juradas somem no ar evaporando como fumaça. O duradouro é um tesouro raríssimo de ser encontrado e, conseqüentemente, roubado. ...
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17/09/2012 - A esmo

Corpo cansado, nó na garganta, amor encurralado. Cabeça cheia, marcas de estresse, dores generalizadas por toda a alma. Pés feridos, sonhos proibidos, romances não lidos. Mãos atadas, falta de perspectiva, bloqueios na estrada. Coração desafinado, olhos carregados, linhas desalinhadas pela palma das mãos. Ombros pesados, lábios marejados, esperanças frustradas. Alegria interrompida, chegada e despedida, poesia perdida.

Filosofia desperdiçada, fantasia dormindo na calçada, chuva sem trovoada. Perfume de decepção, tempo abstrato, contínua ilusão. Ardume de mudança, autorretrato de esperança, justiça sem balança. Pensamentos tortos, canteiros do esquecimento, anjos mortos. Sangue pálido, destino inválido, céu da boca sem estrelas. Sono cálido, passos sem dança, tranças de DNA. Arroz sem torresmo, ar sem sabiá, o mesmo do mesmo do mesmo.


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