Daniel Campos
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Encontrados 526 textos. Exibindo página 5 de 53.

26/03/2008 - Amor em festa

Amor mais bonito e infinito não há a perdurar do que este ardor mais-que-perfeito que pulsa calor dentro em meu peito enquanto soluça da dor da saudade que existe e se faz triste porque insiste em te querer mais perto do que já te aperto em meus braços e em meus abraços e em meus laços ao longo dos meus passos esquadrinhados nas voltas e reviravoltas dos compassos dos teus traços mais amados para valer.

A cada amanhecer ao teu lado eu sou mais namorado e mais súdito incondicionado deste amor imenso e farto que está propenso a nos matar de infarto ou nos internar num quarto minguante ou crescente num tempo amante e de nós somente e eis que de repente eu parto para o parto de uma fantasia retumbante e estonteante de uma alegria conjugal de uma poesia matrimonial de uma apologia nupcial do mais alto grau de radioatividade ou seria de cumplicidade. ...
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07/04/2008 - Amor engarrafado

Antes de qualquer naufrágio ou sufrágio, ela amanheceu tão límpida. Dava pra ver, no seu olhar, as conchas de um mar azul que já não há pras bandas do sul. Quanta luz naqueles dois portais dispostos em cruz, que me levam como um veleiro pro lado de lá de um tempo que eu sabiá não sabia e, como uma vela ao vento, em sentimento ia.

Eram corais vermelhos de pudor e eram cardumes de desejos e galeões afundados em segredos. Ah! Tudo era cor, tudo era paz, tudo era flor a flor da pele. Sua boca se quebrava nas ondas da minha boca de areia e tudo era sol, tudo era sal, tudo era sereia em mi-bemol. E nós dois entregues às correntes marítimas, torrentes de vontades íntimas....
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26/09/2008 - Amor esotérico

Eu vejo você no fundo da bola de cristal. Eu leio seu corpo na borra do café. Eu aposto nesse amor nas cartas de tarô. Eu me interno nas fendas dos seus búzios. Eu me desenho na conjunção de seus astros. Eu me banho em suas ervas. Eu me exorcizo em seus cristais. Eu sigo seu perfume, incenso solto pelo ar. Eu danço em passos indígenas, tupi, pataxó, karajá, em busca da sua chuva. Eu chego a alfa, beta, ômega em seus braços. Aos seus ouvidos, repito o mantra: te amo, te amo, te amo...

Eu me atiro às linhas da sua mão. Eu tento ser o seu anjo da guarda. Eu me insiro em seus sonhos. Eu apelo às simpatias para lhe ter perto e mais perto e mais perto. Eu queimo em vela para arder ao seu lado. Eu pergunto para o espelho mágico sobre seu paradeiro. Eu coloco a nossa sorte dentro de um biscoito chinês. Eu amo seu paraíso, seu purgatório e até seu inferno astral. Eu amarro você num trabalho sem volta. Eu consulto o oráculo e sigo seus passos. A cada noite, eu giro no ciclo da lua e desvendo-lhe bela e nua. ...
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03/12/2008 - Andar sobre brasas

Hoje é seu aniversário. Talvez o mais dolorido de todos eles. Fica difícil lhe dar os parabéns e comemorar algo diante de uma perda tão recente. Definitivamente, hoje vai faltar o abraço de sua mãe. Aliás, hoje vão faltar todos os abraços que não foram dados em momentos bobos. Hoje vai faltar uma felicidade que escapou de suas mãos como um passarinho. Ah! De fato, ela morreu como uma ave. Por maiores os golpes, ela jamais deixou de abrir as asas e, mais do que voar, tentar salvaguardar o mundo sobre elas. E você sempre fez parte deste mundo. Hoje você vai sentir vontade de dar o primeiro pedaço de bolo para uma pessoa que, pela primeira vez, não vai estar presente em sua festa. Hoje vai ser tarde demais para muitos desejos......
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Ano novo, velhos sonhos

As borbulhas mergulhadas no interior das garrafas de champanhe guardam segredos inconfessáveis, ao menos, num primeiro momento. Não são simples bolhas de ar com uma densidade diferente. São guardiãs de sonhos que só podem ser realizados no instante em que a rolha é expulsa e as borbulhas se tornam livres da prisão da espera. Não é para menor encanto. Um jantar com a pessoa amada, o nascimento de um filho, a concretização de um grande negócio, enfim, em datas raras e ocasiões especiais, quando os sonhos se tornam de carne e osso, o líquido espumante se faz presente. Entretanto, numa dada época, a magia do champanhe se torna ?comum? e as borbulhas se multiplicam entre tantas promessas....
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28/12/2008 - Antes de morrer

Antes de morrer, quero viver-te apenas mais uma vez. Antes de morrer, quero andar no teu barco de papel pela enxurrada. Antes de morrer, quero escrever em minha lápide o último verso deste amor que não finda. Antes de morrer, quero me entregar a essa doença incurável chamada sentimento. Antes de morrer, quero balançar em uma estrela. Antes de morrer, quero roubar-te mais um beijo. Antes de morrer, quero saltar de asa-delta sobre o teu céu. Antes de morrer, quero me enrolar em seus cabelos e fincar as unhas em suas costas para que ninguém me leve de você. ...
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Ao cair da tarde

Ao cair da tarde, tento conversar com as rosas de Cartola. Mas elas me dizem silêncio. Ao cair da tarde, coloco um verso de Vinícius num copo ao lado de duas pedras de gelo. Ao cair da tarde, o mundo se transforma em uma grande Ipanema. Ao cair da tarde, arde o tom de um piano imaginário. Ao cair da tarde, o sol ainda suspira. Ao cair da tarde, vem uma tristeza, uma saudade, como se o mundo pedisse maysa. Ao cair da tarde, as folhas de uma mangueira caem secas. Ao cair da tarde, a lua se tranca no camarim e finge ser estrela. Ao cair da tarde, os poetas ainda estão grávidos de sonhos. E vêm as dores das primeiras contrações. ...
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22/10/2008 - Ao seu passo, a poesia vai longe

Ao seu passo, a poesia vai longe. A viagem mais longa parece ser quando ela deixa o interior de mim para ganhar o papel. No entanto, as palavras não param de correr mundo, nem mesmo depois de serem tatuadas em uma folha em branco. Dia desses, elas foram ao Rio de Janeiro, em plena tarde de sol. Pertinho da princesinha do mar Copacabana, do Cristo Redentor de braços abertos sobre a Guanabara, do cruzamento da Tom Jobim com a Vinícius de Moraes, elas foram parar na boca de Leda Nagle. A apresentadora do Sem Censura, exibido pela TVE Brasil, leu, ao vivo, uma crônica que há tempos escrevi sobre o cotidiano que a cerca. ...
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04/09/2008 - Aqüífero

Além de brotar das minas, a poesia deveria sair das torneiras. Além de regar as plantas do jardim com uma boa prosa, já imaginou se ensaboar com versos que, pouco a pouco, impregnariam por todo o corpo? Ah! Mais do que cremes e outros cosméticos, a pele precisa de palavras. Muitas vezes o problema maior é a alma ressecada, mas nada que uma boa hidratação a base de estrofes sentimentais não resolva. As dores nas costas, o cansaço mental, a depressão - esses e outros males cotidianos seriam curados após a ingestão diária de copos de Quintana, Drummond, Vinícius, Pessoa... E isso não é simpatia, é medicina poética. ...
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15/08/2008 - Arara Azul

A tara da arara azul é o céu de papel blue. O gingado do lado de lá da capoeira levantou poeira de cá. Ôo arara voou e a baiana suburbana arrastou a saia e deu um passo de arraia, que foi quebrar lá na praia da gandaia. E a arara azul voou no ritmo do pandeiro. Eê eu sou brasileiro. Tem povo guerreiro lá na minha aldeia. Ôo incendeia, é lua cheia. Ôo clareia, é rua de meia.

Lá na minha tribo, a vitória é régia, a história é prévia e o homem alado do sul é considerado inimigo da arara-azul. O pajé já perdeu a fé. O cacique usa aplique. E a índia de cá se deita pra lá do atlântico sul. Tem fitinha do Senhor do Bonfim no rosto do moço e pintura de carmim na louça da moça. A minha terra que tinha palmeiras, hoje tem clareiras e o frevo das madeireiras corre solto pelas ladeiras. ...
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